Nesta continuação da série dedicada à Odisseia de Homero, a jornada de Telêmaco ganha novos rumos à medida que o jovem herdeiro deixa Ítaca para buscar notícias de seu pai. O Canto III acompanha o encontro crucial com o sábio Nestor em Pilos, revelando memórias da guerra de Troia e paralelos importantes com o destino de outras grandes figuras da mitologia grega.
No último vídeo desta série, vimos em detalhes o que aconteceu no Canto II da Odisseia. Fazendo um breve resumo antes de avançar, Telêmaco, seguindo a orientação da deusa Atena, convocou uma assembleia na cidade de Ítaca para expressar sua indignação com a situação em sua casa. Estava cansado dos pretendentes que consumiam todos os bens da família e assediavam sua mãe, Penélope. Com coragem e determinação, apresentou-se aos cidadãos e anciãos da cidade, pedindo apoio para se livrar dos intrusos. Durante a assembleia, um dos pretendentes, Antínoo, tentou desmerecer sua postura, mas Telêmaco, incentivado por Atena, reafirmou seu posicionamento e mostrou disposição para agir.
Informou a todos que pretendia partir em busca de notícias sobre o pai, mencionando a ideia de visitar Nestor em Pilos e Menelau em Esparta para descobrir o que realmente havia acontecido. A assembleia revelou uma divisão na sociedade de Ítaca: uma minoria apoiava Telêmaco, mas havia muita resistência. Mesmo assim, ele não se abateu, armou um plano para sua jornada, e o canto terminou com sua decisão de partir em busca de respostas para reivindicar seu lugar como herdeiro de Odisseu.
O Canto III começa com Telêmaco junto com a deusa Atena — que novamente assumiu a forma de Mentor, amigo de Penélope —, chegando à cidade de Pilos, onde mora Nestor. Seguindo a orientação de Atena, Telêmaco deveria pedir ao rei informações sobre o paradeiro de seu pai. Ao chegarem, encontram o povo realizando uma grande festa de sacrifício de touros ao deus Posseidon. Antes de desembarcar, Atena diz a Telêmaco que ele terá de deixar de lado a timidez se quiser saber sobre o pai. Quando Telêmaco admite que não é muito hábil nessas situações, ela o tranquiliza, garantindo que receberá ajuda dos deuses e inspiração para falar com sinceridade, algo recorrente na obra de Homero.
Eles vão ao encontro de Nestor, que está sentado com seus filhos. São recebidos com a típica hospitalidade grega e convidados a participar dos sacrifícios e do banquete. É nesse momento que a conversa finalmente começa. A primeira coisa que Nestor faz é perguntar quem é o jovem. Telêmaco responde que vem de Esparta, que é filho de Odisseu e que está ali justamente para saber sobre o paradeiro do pai, o único dos sobreviventes que ainda não havia chegado em casa após a guerra de Troia.
Em resposta, Nestor admite que muitos heróis morreram na batalha, citando nomes conhecidos como Aquiles e Ájax, mas confirma que Odisseu saiu de lá vivo. O veterano faz vários elogios a Odisseu, com quem mantinha uma forte amizade, e explica que, na saída de Troia pelo mar, os aqueus enfrentaram a ira dos deuses, momento em que se separaram do barco de Odisseu. É nesse ponto que Telêmaco interrompe a conversa, ansioso por saber o destino exato do pai, sugerindo que os deuses talvez o tivessem condenado à morte. Mudando de assunto, ele pergunta o que aconteceu com o líder dos aqueus, Agamenon.
Nestor então explica a história: logo que Agamenon partiu de Argos para a guerra, sua esposa foi seduzida por Egisto, primo dele. Juntos, os dois armaram um plano para matar Agamenon no momento de seu retorno. E foi exatamente isso que aconteceu; assassinaram-no logo na chegada, enquanto ele tomava banho. Posteriormente, Orestes, filho de Agamenon, que estava fora de Argos, soube do ocorrido e retornou para vingar a morte do pai, matando tanto o amante Egisto quanto a própria mãe. Toda essa tragédia é o tema central da *Oresteia*, famosa trilogia escrita por ÉSQUILO, o mais célebre autor do teatro grego.
Após essa explicação sobre Agamenon, eles bebem vinho, realizam libações e vão dormir. Na manhã seguinte, reúnem-se novamente para conversar. A forma como Nestor narra os acontecimentos revela não apenas sua sabedoria, mas também uma profunda tristeza pelas perdas sofridas pelo exército aqueu. Nestor comenta que Telêmaco é muito parecido com o pai, tanto na aparência quanto na forma de falar, o que enche o jovem de orgulho, mas também de uma melancolia silenciosa. Ele o aconselha a ser forte e destemido, afirmando que um dia teria a oportunidade de se vingar dos pretendentes.
O canto avança com Nestor oferecendo mais do que palavras: ele realiza um novo sacrifício, pedindo a Atena e aos demais deuses que protejam Telêmaco em sua jornada. O banquete que se segue celebra a união, e Nestor demonstra imensa generosidade ao orientar o jovem. Por fim, o próprio Nestor encerra o encontro aconselhando Telêmaco a buscar mais informações em outros lugares, incentivando-o a visitar Menelau, irmão de Agamenon e figura central por cuja causa a guerra de Troia eclodiu. Nestor acredita que Menelau poderá fornecer mais detalhes sobre o destino de Odisseu.
Com isso, a jornada de Telêmaco expande-se, tornando-se um símbolo de seu amadurecimento e de sua busca obstinada pela verdade. Embora o Canto III não apresente uma ação direta de Odisseu, ele é fundamental para aprofundar a personalidade de Telêmaco e para expor, sob a perspectiva homérica, o destino de Agamenon, criando o pano de fundo que posteriormente inspiraria o teatro de Ésquilo.