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A Traição dos Deuses: O Pacto Quebrado no Canto 4 da Odisseia

A Traição dos Deuses: O Canto 4 da Odisseia

No terceiro canto da Odisseia, vimos que Telêmaco viajou até Pilos, cidade de Nestor, em busca de notícias sobre seu pai, Odisseu. Como Nestor não tinha informações precisas, orientou o jovem a procurar Menelau em Esparta, enviando o próprio filho para acompanhá-lo. O quarto canto, cuja narrativa abordamos a seguir, detalha a chegada de Telêmaco a Esparta e as revelações surpreendentes que ele obtém sobre o destino de seu pai.

O canto quatro começa com Telêmaco chegando em Esparta em busca do herói Menelau. Eles encontram toda a família de Menelau no palácio celebrando o casamento de uma de suas filhas, que está se casando com o filho de Aquiles. O criado de Menelau pergunta se devia deixar que aqueles dois rapazes que ali chegaram se aproximassem, e Menelau diz que está tudo bem. Os dois vão se aproximando do palácio e ficam completamente impressionados com a imponência, com a glória e com a exuberância do lugar, que é a residência do rei de Esparta. Eles vão cochichando entre si, até que Menelau acaba ouvindo a conversa, junta-se a eles e lhes oferece comida.

Sem nenhum pudor, Menelau confessa que toda aquela grandeza, todo aquele luxo e as riquezas do seu palácio vinham de saques que ele fez no decorrer da guerra de Troia. Ele também diz isso justamente porque reconhece, logo em seguida, que tudo aquilo teve um preço muito alto pago por eles. Tanto é que, ainda sem saber quem afinal eram aqueles dois, ele começa a contar sobre os amigos que perdeu na guerra de Troia, mencionando em especial um grande amigo pessoal que havia se perdido na volta da guerra: o próprio Odisseu, a quem ele cita pelo nome.

Ainda que não conhecesse o filho de Odisseu, Menelau disse saber que tanto o rapaz quanto a mãe de Telêmaco haviam ficado muito tristes com a falta de notícias do pai, e que a situação deles em Ítaca não era nada boa. Ele também assume que ninguém podia ter certeza do que exatamente tinha acontecido com Odisseu, nem se ele estava vivo.

Telêmaco, ouvindo tudo aquilo, fica muito impactado e até com dúvida se devia revelar sua identidade imediatamente ou esperar que Menelau terminasse de falar. De repente, aparece Helena — a famosa Helena de Troia, em sua primeira aparição na obra —, que interrompe a conversa e tenta se informar sobre tudo o que está acontecendo, especialmente sobre aqueles dois rapazes, pois um deles parecia muito com Odisseu. Menelau diz que percebeu a mesma semelhança e notou que, enquanto contava sobre seu amigo, uma lágrima escorreu dos olhos do jovem, embora ele tenha tentado disfarçar.

Nesse momento, o filho de Nestor interrompe e confirma que ele é mesmo o filho de Odisseu, além de esclarecer que ele próprio é filho de Nestor, e que seu pai os havia enviado ali para falar com Menelau. Menelau profere palavras bastante emotivas, dizendo que grande parte da culpa por tudo aquilo ter acontecido com Odisseu e sua família era dele mesmo. Todos acabam ficando muito emocionados, com Helena puxando o choro geral; ela chora bastante, Menelau chora também, e Telêmaco da mesma forma. Só quem parece não chorar é o filho de Nestor.

Logo Menelau corta o choro, dizendo que não era hora para aquilo e que deveriam tratar do assunto depois. Afinal, até momentos antes eles estavam celebrando o casamento de uma de suas filhas, então todos voltam ao banquete para tentar se alegrar. Helena mistura ao vinho uma droga egípcia que supostamente faria as lembranças ruins passarem, de modo que, no espaço de uma hora, ninguém mais ficaria triste. Contudo, parece que o efeito não funciona exatamente como o esperado, como veremos na sequência.

Além disso, Helena começa a contar uma história divertida sobre Odisseu: de quando ele apareceu em Troia disfarçado de mendigo, sendo ela a única pessoa que o reconheceu. Essa história engraçada, no entanto, dura pouco, pois na sequência eles já começam a lembrar de coisas tristes novamente, mostrando que o remédio colocado pela Helena na bebida não teve um resultado tão forte. A própria Helena diz que se sentia culpada por tudo aquilo, algo que vimos durante toda a Ilíada — para quem acompanhou nossa série de resumos, a Helena sempre se mostrou bastante arrependida.

É neste exato momento que Menelau menciona pela primeira vez nos textos homéricos o famoso Cavalo de Troia. Ele conta que, durante a guerra, esteve dentro de um cavalo de madeira junto com seu amigo Odisseu, sendo o próprio Odisseu o idealizador do plano. A estratégia consistia em enviar um grande cavalo de madeira como um suposto presente aos troianos, para conseguir infiltrar o exército dos aqueus dentro da cidade. Todo mundo conhece essa história, inclusive sendo daí que vem a expressão "presente de grego" que usamos até hoje.

Vale lembrar que, apesar de esse plano ter dado fim à guerra de Troia, ele não aparece na Ilíada. O motivo é que o poema de Homero que descreve a guerra foca em uma parte anterior e termina muito antes de chegar nesse evento. Há ainda outro detalhe interessante sobre o episódio do cavalo: revela-se que Helena, ao vê-lo, desconfiou de que se tratava de uma armadilha com guerreiros dentro. Ela deu voltas em torno do cavalo gritando os nomes de alguns guerreiros aqueus, e ficamos sabendo que um deles, lá de dentro, tentou responder e quase comprometeu a todos. Foi Odisseu quem tapou a boca desse homem, salvando o grupo e garantindo a posterior conquista da cidade de Troia.

Telêmaco toma a palavra dizendo que seu pai salvou a todos, mas não pôde salvar a si mesmo — uma frase emblemática que aparece em várias histórias, inclusive nas acusações dos fariseus contra Jesus. Ele também pede que se retirem para dormir, pois aquela conversa o havia deixado muito abalado, e é isso o que fazem.

Na manhã seguinte, a conversa é retomada. Telêmaco finalmente pergunta a Menelau se ele tem alguma informação sobre Odisseu e aproveita para contar sobre a sua angústia com a situação de sua casa em Ítaca. Menelau diz que vai contar tudo o que sabe e relata a longa história sobre o que aconteceu com ele e sua tripulação logo após saírem de Troia e entrarem no mar. É aí que surge o episódio engraçado dos homens de Menelau disfarçados com peles de foca na praia, tentando capturar um deus menor em uma ilha onde haviam ficado presos — assunto que já abordamos detalhadamente em uma live sobre a Odisseia.

Essa entidade, um deus menor chamado Proteu, foi quem revelou por que eles estavam presos: a falta de sacrifícios a Zeus. Proteu também disse que viu Odisseu chorando em uma ilha distante, pois havia sido aprisionado pela ninfa Calipso e já não tinha navio nem tripulação para escapar, visto que Calipso era muito poderosa.

Isso alimentou as esperanças de Telêmaco, que agradeceu a Menelau e teve de se despedir para retornar à sua tripulação, deixada na cidade de Pilos. Enquanto isso, em Ítaca, o narrador retorna à cidade de Odisseu e Telêmaco, onde os pretendentes de Penélope ficam sabendo da viagem feita pelo jovem. Eles imediatamente armam um plano para matar Telêmaco assim que ele retornar, de modo que ele não atrapalhe os planos de casamento com Penélope.

Penélope descobre o plano, chora copiosamente e fica até sem voz, mas a deusa Atena aparece para ela em um sonho, garantindo que Telêmaco conseguiria retornar em segurança para casa. Ela acorda mais tranquila, e assim termina o quarto canto da Odisseia.