Nesta resenha literária, discutimos uma das maiores obras da literatura distópica e do horror político, explorando seus temas de vigilância, totalitarismo e controle da mente.
Eu não sei nem como começar a descrever esse livro. Tenho outras distopias aqui e este foi o último livro de distopias clássicas que li, finalmente terminando minha jornada com o gênero. O que posso falar de *1984* é que ele trata o controle totalitário como um ponto central de horror. Tudo bem que, se vocês me conhecem, sabem que gosto muito de falar de caras como Lovecraft, mas também existe aquele terror que é palpável, que diz respeito a algo real.
Aqui, acompanhamos a jornada de Winston Smith. Ele trabalha no Partido — que foi traduzido simplesmente como "o Partido" — em um futuro distópico onde basicamente existem três divisões no mundo todo: Lestásia, Oceania e Eurásia. Ele faz parte da Oceania, e essas nações estão em guerra constante umas com as outras. O governo é dividido em três esferas principais: o núcleo do Partido, que são os cabeças; o Partido Externo, que é onde Winston trabalha, lidando com a propaganda política e todo o aparato de trabalho braçal intelectual que os cabeças repassam; e os proletas (o proletariado), que são vistos puramente como massa de manobra. O governo não está nem aí para eles, pois sabe que vão acreditar em tudo.
Winston trabalha em um dos ministérios — na verdade são quatro: o Ministério da Verdade, o Ministério do Amor, o Ministério da Paz e o Ministério da Abundância. Sendo uma sociedade distópica, o nome de cada ministério é completamente oposto à sua função real; o Ministério da Verdade, por exemplo, é o ministério da mentira. O trabalho de Winston consiste em pegar documentos do passado e manipulá-los para que a narrativa da mídia esteja sempre de acordo com o Grande Irmão, a figura totalitária que vigia as pessoas através de teletelas. As pessoas que fazem parte do Partido são constantemente vigiadas por esses aparelhos, que funcionam como uma webcam sem controle do usuário, espalhando informações falsas, na maior parte das vezes sobre o rumo da guerra.
Tudo muda quando Winston decide comprar um diário em uma loja do senhor Charrington e começa sua jornada de descoberta pessoal. Ele não consegue acreditar em nada do que o Partido fala, afinal, ele mesmo manipula os fatos. Estamos em uma sociedade onde está sendo criada uma nova forma de comunicação chamada Novilíngua (*Newspeak*), cujo objetivo é brutalizar o idioma para que seja impossível ao indivíduo pensar contra o Partido. Winston repudia isso internamente, embora externamente precise transparecer conformidade.
Há sessões obrigatórias como os "Dois Minutos de Ódio", momento em que o Grande Irmão exibe na teletela a imagem de Goldstein, figura opositora ao Partido, e todos são convidados a destilar ódio aberto, xingando e praguejando. É através do diário que começamos a entender o quão medíocre é a vida de Winston e o quão insatisfeito ele está. Tudo muda quando, durante os Dois Minutos de Ódio, ele olha para o lado e tem a certeza de que O'Brien — um membro do núcleo do Partido — compartilha da mesma descrença em relação àquelas balelas, fazendo-o sentir que pode confiar nele.
A narrativa avança e a prosa é simplesmente fantástica. Não tenho como explicar o quão grandiosa é essa escrita. Eu li *A Revolução dos Bichos* e gostei muito, mas a escrita lá é bem simples; o autor vai direto ao ponto, sem uma prosa mais poética ou elocubrante. Em *1984*, percebe-se nitidamente que George Orwell sabe escrever e domina a técnica magistralmente. Temos descrições de sonhos, mergulhamos nos pensamentos e no subconsciente de Winston à medida que ele conhece outros personagens, como Julia, seu principal interesse amoroso — já que ele se relacionava com prostitutas na tentativa de descobrir parte de si mesmo. Até em relação a O'Brien há um sentimento complexo: não é amor romântico, mas Winston sente que pode confiar nele, embora a narrativa trate de subverter isso a cada página.
Acompanhamos alguém tentando articular uma revolta contra o Partido, e as coisas não vão para o lado que esperamos, como toda boa distopia, mas o resultado é igualmente incrível. É um livro que fala muito sobre liberdade e traz conceitos assustadores que o autor criou de maneira proposital, como o "duplipensar" e os interrogatórios da parte final. São elementos que representam arquétipos muito reais. Podemos traçar paralelos e ver que Orwell acertou em cheio em vários fragmentos, embora no panorama macro — a forma como o Partido opera sem falhas sistêmicas — a narrativa ganhe um tom quase irreal, visto que há pouquíssimas pessoas questionando o sistema e elas são eliminadas rapidamente.
Ao mesmo tempo, é exatamente isso que torna o livro tão bom: o fato de Orwell pegar um contraste nítido e elevá-lo à enésima potência. É um dos poucos livros clássicos que considero de leitura verdadeiramente obrigatória. Não obrigatória no sentido chato, mas porque é uma leitura que, quando você termina, muda a sua maneira de pensar e de enxergar o mundo. Espero que tenham gostado desta resenha, e trarei mais vídeos sobre livros no canal no futuro. Vejo vocês no próximo vídeo, até mais!