Neste trecho de análise literária, discute-se a concepção aristotélica de verossimilhança na poesia e no teatro, contrapondo-a a leituras reducionistas que exigem um realismo estrito da obra de arte. A partir de exemplos clássicos como as peças de Eurípides e o mito de Édipo, o autor demonstra como Aristóteles justificava o uso do impossível e do irracional desde que servissem ao objetivo dramático e à catarse.
No capítulo 25 da *Poética*, Aristóteles aponta que escrever coisas impossíveis constitui um erro, mas que tal erro está correto se o objetivo próprio da arte — como o alcance da catarse — for alcançado, tornando uma parte da obra mais impressionante. Um exemplo disso é a perseguição de Heitor. Certamente, não é aceitável errar se for possível atingir o objetivo da mesma maneira, ou de modo inferior, de acordo com a respectiva arte; contudo, se possível, não se deve errar de modo nenhum. De uma forma geral, o impossível deve justificar-se em relação ao objetivo da poesia, ao que é melhor ou à opinião comum. No que respeita à poesia, mais vale o impossível convincente do que o possível que não convence. O irracional deve ser justificado por aquilo que as pessoas dizem e ainda porque, às vezes, não é irracional; com efeito, é verossímil que possa acontecer alguma coisa contra a verossimilhança.
Portanto, cai por terra aquela história de que a arte precisa ter tudo no pé da letra, sem magia ou elementos fantásticos. O próprio Aristóteles cita histórias repletas de elementos extraordinários que ninguém vê acontecendo no mundo real, como na obra sobre Édipo, que envolve uma esfinge — um ser com corpo de leão, asas e cabeça de mulher, que propõe enigmas e devora pessoas, gado e crianças. Isso é algo que, pelas lendas, torna-se verossímil dentro daquela lógica narrativa.
Isso remete a um ensinamento fundamental da faculdade que nos marcou profundamente. Na *Medeia* de Eurípides, obra citada nominalmente na *Poética*, a protagonista foge no fim em uma carruagem flamejante voadora, na qual estão atachados os corpos de seus dois filhos mortos. Trata-se de uma imagem fantástica, distante da realidade cotidiana, mas plenamente integrada à lógica da tragédia.
Esse trecho da *Poética* desmente um grande debate que durou muito tempo de forma improdutiva, alimentado por figuras como Victor Hugo, grande expoente do romantismo francês — movimento que floresceu no final do século XVIII e início do século XIX, com forte expressão na Alemanha e, posteriormente, na França da primeira metade do século XIX. Hugo escreveu um extenso prefácio para sua peça *Cromwell*, uma tragédia histórica sobre a Bretanha que acabou se transformando no grande manifesto do romantismo francês.
No final desse prefácio — um texto bastante longo —, Hugo aborda os autores classicistas que utilizavam Aristóteles como arma para censurar os artistas românticos e defender a autoridade estética tradicional. No entanto, o próprio Victor Hugo acaba citando Aristóteles para fundamentar seus argumentos, traduzindo o seguinte princípio: se o poeta estabelece coisas impossíveis de acordo com as regras de sua arte, comete um erro categórico; mas se essa falta o conduz ao fim que se propôs alcançar, ele encontrou o que queria e o erro deixa de ser problemático. Ou seja, se o impossível for utilizado como meio para alcançar logicamente a catarse, o grande objetivo da tragédia segundo Aristóteles, ele é perfeitamente válido.
Essa constatação gera uma reviravolta interessante, pois desmonta a oposição rígida entre classicistas e românticos. Enquanto muitos acadêmicos apresentavam os classicistas como inimigos ferrenhos do experimentalismo romântico, a leitura atenta da *Poética* e dos próprios textos românticos revela que o próprio Aristóteles dava margem para o maravilhoso e o extraordinário, mostrando que muito do que se dizia sobre a poética clássica era, na verdade, um equívoco.