Neste vídeo da série dedicada à análise de todas as obras de H. P. Lovecraft, exploramos o conto "O Inominável", publicado na revista *Weird Tales* em 1925. A narrativa traz de volta o célebre personagem Randolph Carter em um debate metalinguístico fascinante sobre a natureza do horror e os limites da descrição literária.
O conto "O Inominável" foi escrito em setembro de 1923 e publicado pela primeira vez em novembro de 1925 na revista *Weird Tales*. O que é tão interessante nesse conto? Primeiro, o fato de termos novamente a presença de Randolph Carter, personagem que aparece em várias histórias de Lovecraft. Mas o que é mais legal aqui é que Carter funciona de forma ainda mais direta como um alter ego do autor. Ele está conversando com o professor Joel Manton, que critica as histórias de Carter por implicarem a existência de algo inominável. Manton argumenta que isso não existe; segundo ele, tudo o que existe no universo — seja objeto ou criatura — pode ser descrito e compreendido através dos nossos sentidos e da ciência.
Para contra-argumentar, Carter relata um acontecimento passado, narrando a história de maneira teatral sobre uma casa assombrada onde um menino fugira apavorado após avistar uma ossada na janela e algo indescritível. Enquanto conversam em um cemitério, em frente a uma tumba antiga, Manton vai se mostrando cada vez mais fascinado pela narrativa, sem demonstrar medo, e pede mais detalhes. Carter então revela sua própria participação no caso: ele havia investigado os relatos, ido até a casa e recolhido aquela ossada, enterrando-a ali mesmo.
Manton pergunta entusiasmado onde estão esses ossos. Carter responde que eles estavam ali há pouco, mas que agora, na escuridão, não é possível enxergá-los. Nesse momento, Manton olha para trás e solta um grito aterrorizante. Carter, confuso com a reação, olha na mesma direção e avista uma coisa abominável emergindo da tumba, enquanto a janela daquela casa assombrada parece se abrir no ar. A cena culmina com um impacto que o atordoa, deixando-o inconsciente.
Carter acorda no hospital junto com Manton, ambos feridos, embora sem gravidade. Os médicos questionam a origem de marcas estranhas encontradas neles, semelhantes a pegadas de casco de cavalo. Enquanto Carter afirma não saber o que aconteceu, Manton, que parece saber exatamente a verdade, inventa uma desculpa esfarrapada sobre um touro desgovernado à solta, explicação que obviamente não convence os médicos. No desfecho, quando Carter pergunta ao amigo o que era aquela criatura, Lovecraft oferece uma resposta metalinguística e irônica às críticas que recebia: a coisa tinha tentáculos, aspecto de geleia e várias cores, sendo, enfim, verdadeiramente inominável.
Essa conclusão espirituosa revela uma faceta muitas vezes ignorada de H. P. Lovecraft. Embora frequentemente associado a uma personalidade sombria, ácida e apática — imagem reforçada por seus aspectos biográficos mais polêmicos —, Lovecraft demonstrava um senso de humor refinado e autoconsciente em sua obra, usando a metalinguagem para dialogar diretamente com seus críticos. "O Inominável" é uma amostra brilhante dessa inventividade.