Ao discutir o impacto e a profundidade das obras de George Orwell, leitores e estudiosos frequentemente se deparam com o teor sombrio e os finais desoladores tanto de *A Revolução dos Bichos* quanto de *1984*. A seguir, examinam-se os paralelos entre esses finais, o ceticismo político presente nos livros e o registro histórico da última entrevista concedida pelo autor.
Ainda não tinham se afastado mais de vinte metros quando pararam. Os animais olharam para a casa da fazenda, onde um alvoroço de vozes vinha de dentro. Eles correram de volta e olharam pela janela novamente. Sim, uma violenta briga estava em andamento. Havia gritos, pancadas sobre a mesa, olhares suspeitos e negações furiosas. A fonte do problema parecia ser que Napoleão e o senhor Pilkington tinham jogado um às de espadas simultaneamente. Doze vozes gritavam raivosas e iguais, e agora não havia mais dúvidas sobre o que havia acontecido com os rostos dos porcos. As criaturas lá fora olhavam de porco para o homem, e de homem para o porco, e de porco para o homem novamente; mas já era impossível dizer quem era quem.
Tornara-se impossível distinguir quem era homem e quem era porco. O livro é muito interessante, inclusive para pensar em conceitos sobre organização social, estado e governança. Ele fala da importância da lei, mostrando que, quando ela existe, fica mais fácil para os animais, mas também aponta como a lei é fácil de ser manipulada. Orwell mostra como o verdadeiro inimigo das pessoas é qualquer um que queira restringir a liberdade individual em nome do coletivo. No fim das contas, com esse abuso de poder dos porcos, ele diz que, enquanto continuarem existindo os incentivos e os meios, sempre haverá tiranos se levantando em qualquer tipo de governo.
Pode-se acrescentar que, segundo o livro, para ser feliz na política, você precisa ter a memória curta de um animal, para não conseguir juntar as peças e perceber o inferno em que vive. Você tem que ser tudo menos um asno, porque o asno é o único que lembra. É exatamente por isso que Benjamim, o burro, é o único animal inteligente ali, além dos porcos, mas ele é completamente cético em relação à política, às ideologias, aos sistemas e aos políticos. Benjamim é o único cético e ele sobrevive a tudo aquilo.
Ele sobrevive, mas está ferido porque perdeu o melhor amigo. Não tem como ser diferente; até o melhor dentre eles sai perdendo porque perdeu o companheiro. E olha que ele e o Sansão são opostos, mas eram grandes amigos. É bonita e dolorosa a fala em que o Sansão diz que daqui a um mês vai se aposentar e terá o amigo Benjamim para o acompanhar, e depois acontece aquilo com ele. Benjamim certamente desejava aquilo no coração dele. Mas o que acontece com Benjamim é que Orwell, apesar de ter alguma esperança no socialismo da cabeça dele, é bem pessimista. Ele é pessimista no final de *1984* também; não há uma reviravolta em que acaba tudo bem ou com esperança, a história acaba mal parada. Orwell está pintando cenários impossíveis ou extremos.
Existe um registro em vídeo da última entrevista de Orwell, dada a uma repórter, em que ele faz uma declaração impressionante. Na gravação em inglês, ele diz: "The sex instinct will be eradicated. We shall abolish the orgasm. There will be no loyalty except loyalty to the party. But always there will be the intoxication of power… If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face forever." A moral a ser tirada dessa situação de pesadelo perigoso é simples: não deixe isso acontecer, isso depende de você.
Essas falas na entrevista são as do O'Brien em *1984*. Orwell memorizou o que escreveu e repete que a moral de *1984* é exatamente essa, assim como a grande moral de *A Revolução dos Bichos*: não deixe isso acontecer, depende de você. Ele pinta um cenário terrível não porque não tenha esperança — Orwell sempre escreveu por ter esperança —, mas porque avisa que existem cenários nos quais a esperança morre e nos quais, a partir de certo ponto, não há mais volta. E a repórter na entrevista fica com uma expressão de total desespero.
É preciso lembrar a cronologia: *A Revolução dos Bichos* foi lançado em 1945, e *1984* foi publicado em 1949. Aquela entrevista ocorreu no final dos anos 40 ou início dos anos 50, num momento em que tudo aquilo ainda estava acontecendo. O nazismo havia sido derrotado, mas a União Soviética continuava lá, havia uma pegada totalitária e o mundo já estava na Guerra Fria. Eram riscos reais. Orwell está descrevendo para a jornalista a sua visão possível do futuro, e ela, sendo uma profissional da informação que o admira profundamente como um dos maiores jornalistas e escritores, fica apavorada com a possibilidade daquilo se concretizar. Ele diz "não deixe isso acontecer, depende de você", e ela compreende o peso terrível daquela advertência, percebendo que a ameaça é real.