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A Obra que Mudou o Terror Para Sempre: O Primeiro Lovecraft

A Primeira Obra de Lovecraft: O Início do Terror

O Lovecraft, antes de virar o mestre do horror cósmico, antes de nem sequer ter pensado naquဲs deuses antigos colossais adormecidos sobre os oceanos, muito antes, antes de tudo que você imagina quando pensa no nome dele, bem lá atrás, ainda criança aos 7 anos de idade, escreveu uma história. A sua primeira história sobre uma garrafa misteriosa que é lançada ao mar e encontrada por uma tripulação qualquer. Você conhece essa história? Já ouviu sobre ela? Essa é a história que eu vou te contar neste vídeo. E o motivo é o seguinte: nós estamos aqui no canal começando uma mega série de vídeos onde eu vou analisar com vocês cada uma das centenas de obras do Lovecraft em ordem cronológica para mostrar duas coisas: a evolução do mundo ficcional do Lovecraft e a evolução da escrita dele. E para isso, obviamente, a gente precisa começar com a primeira obra escrita por ele daquelas que não se perderam. O meu nome é Lucas Rosalém e aqui no Universo Antares a gente conversa sobre escrita criativa e também sobre os maiores autores de terror da história.

Essa história que eu vou te mostrar agora talvez tenha sido a primeira que o Lovecraft escreveu, e ela se chama The Little Glass Bottle, ou A Garrafinha de Vidro. Como ela é bem curtinha, com menos de uma página, eu vou ler ela inteira aqui para depois a gente comentar, tá bom? Vamos lá. Essa aqui é uma tradução automática da página, tá?

"Parem o barco, tem alguma coisa flutuando a sotavento", disse o homem baixo e atarracado chamado William Jones. Ele era o capitão de um pequeno veleiro onde navegava com um grupo de homens quando a história começa.
"Sim, senhor", respondeu John Towers, e o barco parou.

O capitão Jones estendeu a mão para o objeto, que agora reconhecia ser uma garrafa de vidro.
"Nada além de um frasco de rum que os homens de um barco que passava jogaram no mar", disse ele, mas, por um impulso de curiosidade, estendeu a mão para pegá-lo.

Era um frasco de rum e ele estava prestes a jogá-lo fora quando notou um pedaço de papel dentro. Ele o retirou e nele estava escrito o seguinte:
"1º de janeiro de 1864. Eu sou John Jones quem escreve essa carta. Meu navio está afundando rapidamente com um tesouro a bordo. Estou onde está marcado com um asterisco na carta náutica anexa."

O capitão Jones virou a folha e o outro lado era um mapa. Na borda estavam escritas estas palavras: "As linhas tracejadas representam o percurso que fizemos".
"Towers", disse o capitão Jones animado. "Leia isto."
Towers fez como lhe foi dito.
"Acho que valeria a pena ir", disse o capitão Jones.
"Acha como o senhor diz", respondeu Towers.
"Vamos fretar uma escuna hoje mesmo", disse o capitão animado.
"Certo", disse Towers.

Então eles fretaram um barco e partiram, guiados pelas linhas pontilhadas da carta náutica. Em quatro semanas, chegaram ao local indicado, e os mergulhadores desceram e encontraram uma garrafa de ferro com as seguintes linhas rabiscadas em um pedaço de papel pardo:

"3 de dezembro de 1880. Caro buscador, peço desculpas pela brincadeira que lhe fiz, mas bem feito você não encontrar nada por sua tolice. No momento, irei reembolsar suas despesas de ida e volta ao local onde você encontrou a garrafa. Creio que serão cinco dólares, e você encontrará esse valor em uma caixa de ferro. Sei onde você encontrou a garrafa porque a coloquei aqui junto com a caixa de ferro e depois encontrei um bom lugar para colocar a segunda garrafa. Espero que o dinheiro incluso ajude a cobrir suas despesas. Encerro por aqui. Anônimo."

"Eu queria arrancar a cabeça dele", disse o capitão Jones. "Aqui, mergulhador. Vá buscar os cinco dólares. Eu já vou."

O mergulhador voltou com uma caixa de ferro. Dentro da caixa havia cinco dólares. Descobriu as despesas deles, mas duvido muito que eles algum dia irão a algum lugar misterioso indicado por outra garrafa misteriosa.

Então vamos lá, gente. Sem rodeios: é um conto bobo, é um conto cheio de erros, mas são coisas que adultos também fazem, e isso quando eles pelo menos tentam. Inclusive, esse aqui já é o primeiro mérito do Lovecraft, porque ele ao menos estava tentando. Mas beleza, vamos lá. O conto é fraco por várias razões, e a gente vai estudar essas razões agora.

O primeiro problema, que não é assim um grande problema, é a escrita do texto. E a escrita não é só fraca, ela é ruim mesmo. Tem um monte de erro de ortografia — eu estou falando do original, tá? —, tem problemas gramaticais e a pontuação é caótica. Mas até aqui tudo bem, porque nada que um revisor não pudesse consertar, já que este é um texto de manuscrito, não um texto publicado por editora. Então isso aqui não diz muita coisa, tá?

Agora vamos para o que interessa mesmo. O segundo problema — e aqui começa a ficar grave a coisa — é que não tem tensão narrativa nesse texto. Você percebeu que os acontecimentos estão todos em linha reta? Está tudo muito bem encadeado, OK, mas você não tem altos e baixos nos humores. Na verdade, não tem nenhuma força interna na obra que obrigue a história a existir, e ao longo da narrativa ela não vai acumulando tensão dramática. A história não cria expectativas, ela não prepara o terreno para alguma coisa maior e, no fim das contas, ela nem entrega nada maior. Não tem um clímax na história, é só uma linha reta: eles acham uma garrafa, acham um mapa, vão até o lugar, descobrem que é tudo uma pegadinha e a história acaba. A história não cresce, nada se complica, nada muda de qualidade. Tudo bem, você pode até falar que tem um *plot twist* na história, mas a história não faz uma construção de suspense para esse *plot twist*. O *plot* em si não vira um problema, não causa complicações, não causa transtornos. Na verdade, nem dá tempo da gente duvidar, da gente imaginar que algo diferente pode acontecer. Isso porque são só cenas em sequência, não tem um arco dramático. Você não vê aquelas pontas soltas que vão se fechando.

Isso acontece principalmente por causa dos personagens, e esse é o terceiro problema: os personagens não têm função dramática, eles têm uma função mecânica. Vou falar disso mais pra frente, mas basicamente o capitão e o marujo são só peças que servem para empurrar a história para o próximo acontecimento. Não existe um desejo envolvido, não existe um conflito, muito menos um desenvolvimento de conflito. Você não tem, por exemplo, pontos de vista; tanto é que você pode trocar esses personagens por quaisquer outros que não faz diferença. Essas são coisas que automaticamente enfraquecem o *storytelling*, porque ninguém está puxando a narrativa por dentro. Os personagens são completamente passivos à história.

E tem ainda um outro problema fundamental com esses personagens, que é o nosso quarto problema: não existe construção de personagem. Os três personagens que aparecem — o capitão Jones, o marujo John Towers e o anônimo escritor do bilhete — são como se fossem nomes colados em bonecos diferentes, e é só isso. Eles têm zero traço de personalidade. Você pensa nisso quando você faz as suas histórias, por exemplo, na motivação interna, na voz própria de cada personagem? Esses aqui não são personagens que agem, eles só estão indo junto com a história. E é por isso, em partes, que não existe uma tensão real. A gente não se importa com o que vai acontecer se a gente não entende os personagens, a gente não sente que tem algum risco ali. E nessa história não tem mesmo: eles têm todo o tempo livre para fazer o que quiserem, se desviam do percurso, vão para aquele lugar, quebram a cara e está tudo bem, bola pra frente. Como a gente não se interessou pelos personagens e não sabe quem eles são, acabamos não sentindo nada com a história.

O quinto problema é que, de alguma forma, o conto acaba tentando compensar essas faltas com excesso de adjetivos e advérbios. Inclusive, se você prestar atenção, tudo no texto é contado, nada é mostrado pra gente. Dizer que o capitão Jones disse excitadamente não mostra nenhuma emoção pra gente de verdade, não passa emoção. Da mesma forma, a gente não sente o vento, não sente o cheiro do mar, nem o peso da garrafa na mão dele. E tudo bem, você pode até dizer que isso é pouca coisa, mas a gente não sente o peso da história, porque a história não tem peso, as coisas não têm peso. Você não sente o clima, não sente a tensão nos olhares deles, porque no texto não tem nada disso; o que tem é um tipo de resumo dos fatos que vão acontecendo. E não é isso que autores amadores sempre fazem? Ao invés de construir os personagens mostrando para o leitor como eles são, é sempre muito mais fácil enfiar adjetivo, enfiar aqueles advérbios de intensidade. Só que isso faz o texto ficar muito pobre, isso tira a vida do texto. Quando você mostra o personagem através das ações dele, você não precisa mais ficar falando como ele é. Ou seja, se você mostra o João erguendo um carro sobre a cabeça e lançando ele bem longe, você não precisa dizer "João era forte". Na verdade, se você disser "João era forte", o leitor nem sabe de que tipo de força você está falando. E quando você mostra, por outro lado, você já não precisa mais falar. E o que acontece aqui no texto, assim como no texto de escritores amadores, é a troca das ações pelos adjetivos, o que, como eu disse, enfraquece muito o texto.

O sexto e último problema é o seguinte: o que move a trama toda é um objeto, a garrafinha. Isso é legal, tem muito filme bom que faz isso. O Lovecraft, com 7 anos, já na sua primeira história, pensou numa justificativa para as coisas acontecerem, que foi o capitão encontrar essa garrafa misteriosa flutuando no mar. Até aqui tudo bem, isso aqui é legal, mas qual que é o problema? É que é só isso mesmo. Ele fez só o óbvio: é só uma garrafa com uma mensagem dentro, sem nenhuma outra importância. O Lovecraft adulto, se você conhece, se você puxar na memória aí, ele não faz desse jeito. Cada objeto traz um eco do passado, traz um trauma de infância do protagonista, ou então traz um mito muito poderoso, uma sensação de ameaça. Mas aqui o Lovecraft criança ainda não sabia que ele podia fazer isso. O que a gente espera de uma criança é essa pegadinha aí na história mesmo; a gente tem nessa história o tipo de brincadeira que uma criança faria, não é? Não tem uma malícia sofisticada aqui, é só um "ha ha, gastei o seu tempo à toa".

Mas olha só, dito isso, é claro que quando a gente leva em conta que o texto foi escrito por uma criança de 7 anos, muita coisa tem que mudar na nossa percepção, na nossa análise. Porque agora a gente não está só avaliando a obra em si — não é só uma questão de a gente gostar ou não da obra —, a gente está analisando se uma criança de 7 anos tinha talento ou não. Eu não estou falando de analisar o potencial dessa criança, mas de analisar o o que ela já está fazendo e ver se tem talento ali ou não. E a resposta é clara: tem muito talento.

Você quer ver só? E se ao invés da gente só criticar esse conto, a gente tentar encontrar coisas boas nele? Será que tem alguma coisa? Será que a gente encontra? Poxa, tem muita coisa interessante, inclusive coisas com as quais você também pode aprender.

A primeira delas é o gancho logo no início da história. O Lovecraft, nesse conto, não enrola, ele vai direto ao ponto. E tudo bem, falta nesse início um gancho emocional junto, porque sem isso a gente não consegue se importar com os personagens — quando aquela garrafa aparece flutuando, o que é que isso tem a ver com os personagens, né? Mas mesmo assim, veja: o Lovecraft aqui, com 7 anos, já demonstra uma noção que um monte de adulto não consegue dominar. Eu estou falando aqui do começo *in media res*, que é quando a história começa já num ponto avançado da ação. Como que os escritores amadores geralmente fazem? Eles começam a falar do começo do dia do personagem, que ele levantou da cama, foi lá, se olhou no espelho. Quantas vezes você já não viu isso em texto amador? E o leitor não quer saber disso, ele quer saber qual é a história, a gente não tem tempo para perder. E não é isso que o Lovecraft faz aqui: na primeira frase, a gente já está dentro do barco e já tem ação, mais do que isso, já tem até mistério. Você pode até dizer que talvez ele não tenha feito isso conscientemente, mas eu, pelo menos, esperaria um floreio um pouco maior ali vindo de uma criança para contar uma história, e ele não, ele já te joga dentro da história, te joga no meio da aventura. Na verdade, logo no começo ele vai te apresentar aquela ação base do conto que desencadeia toda a história.

Eu até preciso pausar aqui para dar uma dica muito importante para você, novo escritor: isso que eu vou dizer aqui não é uma lei gravada em pedras, muitas boas histórias não começam desse jeito que eu vou te dizer. Mas eu vou te dar uma recomendação muito boa de um escritor chamado Kurt Vonnegut, que diz o seguinte: "Comece a sua história o mais perto possível do fim". E por que isso? Para você não perder tempo escrevendo coisas que, apesar de você gostar, não levam a sua história adiante, não constroem personagem e que o seu leitor não está minimamente interessado. E aí vem a pergunta: "Tá, mas como é que eu sei qual é esse ponto da história mais perto possível do fim? O que que isso significa na prática?" Nessa frase dele, a palavra mais importante é "possível": o mais *perto possível* do fim. Ou seja, depois que você já tiver a ideia da sua história, você vai pensar em qual é o evento ou a informação mais para trás na sua história que o leitor precisa saber para entender tudo o que você vai contar, entendeu? É aquele ponto da sua história em que tudo o que você contar antes dele não faz tanta diferença para o leitor entender o que você vai contar, mas se você contar um pouco depois desse ponto, o leitor já vai se confundir porque ele vai perder alguma informação importante, alguma informação básica. E é exatamente isso que o Lovecraft consegue fazer aqui, claro, com todos os defeitos que eu já pontuei. E esse é só o primeiro mérito do Lovecraft nesse conto.

A segunda coisa que a gente tem para elogiar aqui é que, mesmo sem saber construir os personagens direito, ele já intui funções. Deixa eu explicar um pouco melhor: eu disse antes que esse conto não tem personagens com funções dramáticas, e não tem mesmo; mas o Lovecraft, mesmo com 7 anos de idade, já tinha sim alguma noção de função de personagem. Não é à toa que ele põe o capitão como líder, o marinheiro como auxiliar e o autor daquele bilhete como um gatilho narrativo. É muito rudimentar, eu sei, mas já demonstra alguma compreensão intuitiva de papéis aqui, ainda que sem profundidade nenhuma.

E eu ainda tenho três elogios a fazer, sendo o terceiro realmente muito bom. O próximo da lista é com relação àquele abuso de adjetivos e advérbios que a gente comentou antes. Porque quando você analisa isso à luz da idade do Lovecraft, você não pode dizer que isso é preguiça da parte dele; ele não está trocando ações que demonstram quem são os personagens ou descrições profundas por palavras simples, não é isso que ele está fazendo. Pensa um pouco comigo aqui: ele é uma criança de 7 anos, ele não está com preguiça. Muito pelo contrário, isso aqui parece, na verdade, ser uma fome de linguagem, e o que ele não tinha, na verdade, era idade para dominar o vocabulário. Não é isso que a gente vê no Lovecraft adulto? Qual é a maior marca do Lovecraft no texto? Não são aquelas descrições exageradas, densas, trazendo uma atmosfera e tal? Aqui a criança Lovecraft está tentando intensificar cada um dos elementos porque ela percebe, mesmo sem técnica ainda, que as frases precisam dessa força. É uma tentativa frustrada, mas já é uma tentativa de escritor mesmo.

Agora, o meu penúltimo elogio é que a gente consegue enxergar até um tipo de estrutura — um esboço de estrutura — nessa história, ainda que seja fraquinho, mal construído. Pensa o seguinte: a ideia de você seguir um trajeto indicado, depois chegar a um ponto específico para depois abrir um recipiente que vai então revelar uma informação especial, mostra pra gente que ele estava sim desde o começo desenhando uma narrativa que depende de pistas, de etapas, de descobertas. E ainda que seja só uma forma embrionária, a gente tem que reconhecer que existe aqui uma estrutura narrativa. E só não entende o peso disso quem nunca escreveu uma história. A estrutura narrativa é uma parte importante da sua história, ainda que você a construa instintivamente, como provavelmente foi o caso do menino Lovecraft aqui.

E aqui vai o meu último elogio a essa obra, que é a preocupação com a verossimilhança. Leia de novo essa parte aqui comigo:

"Sei onde você encontrou a garrafa, porque a coloquei aqui junto com a caixa de ferro e depois encontrei um bom lugar para colocar a segunda garrafa. Espero que o dinheiro incluso ajude a cobrir suas despesas."

Você entendeu o que ele está fazendo aqui? Qual era a preocupação dele? Raciocina comigo: em algum momento o Lovecraft, com 7 anos, parou de escrever e pensou o seguinte: "Mas como é que ele sabia disso tudo? Essa história não está muito conveniente, não?" E aí o que ele fez? Ele inseriu uma nota explicativa para justificar como é que aquele plano foi tão bem-sucedido assim. Isso aqui, gente, é o Lovecraft com 7 anos tendo uma preocupação mínima com a verossimilhança. Você não pode negar que isso aqui é muito legal de perceber num texto de uma criança.

E, na verdade, eu pensei num elogio bônus aqui. Olha essa frase do final:

"O mergulhador voltou com uma caixa de ferro. Dentro dela havia cinco dólares. Descobriu as despesas deles, mas duvido muito que eles algum dia irão a um lugar misterioso indicado por outra garrafa misteriosa."

Você percebe que o Lovecraft, com 7 anos, já tinha uma noção muito clara de fechamento de história? Ainda que seja de uma forma ingênua — lá no meio da história, ele sabia que ele precisava de uma virada e aí ele fez uma piada, ou seja, ele ainda não sabia produzir uma virada dramática —, ele mantém o tom, vai até o final e dá um fechamento que combina com tudo o que ele construiu até ali, e faz isso ainda com uma pitada de ironia. Então tudo bem, você pode dizer que essa história é infantil — eu concordo, ela está mal construída, a premissa é boba —, mas ele com certeza tem uma consciência de estrutura que inclui o fechamento.

Então a obra sim é fraca como conto, porque ela é fraca na construção, fraca na progressão, fraca na caracterização dos personagens, na linguagem; mas como um documento de formação, caramba, ela é muito legal. Você percebe já nessa primeira história do Lovecraft que existe ali um escritor que, tecnicamente, não nos diz nada, mas que já estava disposto a inventar mundos, a criar objetos misteriosos, a inventar uma geografia ficcional com mensagens ocultas e todo um percurso de descobertas que depois ainda seriam típicos do Lovecraft adulto. A forma aqui não existe ainda, mas a intuição já está aqui. Mais do que isso, a gente consegue enxergar aqui muitas coisas, ainda que sutis, que muitos anos depois seriam aquelas coisas que a gente ia gostar no Lovecraft: esse fascínio por mapas, por coordenadas, e, como eu já disse, os bilhetes misteriosos. Então, ainda que seja um autor sem maturidade nenhuma, sem experiência, sem disciplina, é como se a alma já estivesse pronta, mas a mão não pudesse acompanhar ainda.

E no fim das contas, fica a coisa mais importante aqui para você que quer escrever: todo grande escritor tem o seu *The Little Glass Bottle*. Ainda que seja na gaveta, todo mundo vai ter aquele primeiro texto embaraçoso, talvez vários textos pequenos embaraçosos, aqueles textos que tecnicamente falham, mas que estão cheios ali de uma energia crua. Porque é isso, gente: todo mundo tem que começar de algum jeito, e ninguém começa já escrevendo como um veterano. Para ser um veterano, você tem que ser calouro um dia; você vai ter que escrever mesmo um monte de texto amadorzão, aquela escrita que vai aos trancos e barrancos descobrindo o que funciona e o que não funciona. Porque se você quer ser escritor, existe um percurso literário. A questão não é se você tem um talento natural ou não; a grande questão mesmo é se você vai continuar escrevendo até transformar o seu *The Little Glass Bottle* no seu *Chamado de Cthulhu*.

E bom, nesse canal essa é uma das coisas que a gente tenta ensinar. Para mais vídeos como este, se inscreve aqui, dá like, comenta se você tiver alguma coisa interessante para dizer, porque pode até virar um vídeo. Mas por este vídeo é isso. Até mais.