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ODISSEIA: A Engenharia por Trás dos Épicos

ODISSEIA: A Engenharia por Trás dos Épicos

Na Ilíada, o epíteto mais comum de Aquiles é "pés velozes": Aquiles dos pés velozes. Só que na Odisseia isso aparece no primeiro canto da seguinte forma: você tem lá os pretendentes, os "Ricardões", tentando pegar a mulher de Ulisses porque ele não está lá. E aí o narrador fala — ou será que é o próprio Telêmaco? — que os pretendentes gostariam muito de ter os pés velozes se Odisseu chegasse, para dar no pé dali, porque Odisseu vai arrebentar com todo mundo. Eles estão azarando a mulher do cara, e isso é uma brincadeira que o autor faz. Isso é muito legal, é intertexto, só que ele está referenciando a própria obra dele. Então, é um epíteto curioso também.

Agora vamos tentar entrar em ordem cronológica, mas antes preciso fazer uma introdução à estrutura do texto, só para vocês terem uma noção um pouco melhor. Não vou falar muita coisa técnica, é só como o texto funciona, porque o começo da Ilíada é diferente do da Odisseia. Estou falando aqui em termos da linearidade do texto. Na Ilíada, muita coisa que aconteceu no passado vai sendo inserida para nós conforme o texto avança. Só que isso não chega a ser uma interrupção, são realmente flashbacks, e não partes estruturais do texto. A história vai acontecendo basicamente em ordem cronológica, ainda que a aventura se inicie no meio dela, o que chamamos de *in medias res*, que também é o caso da Odisseia.

Por outro lado, na Odisseia a estrutura é outra, bem desenhadinha. Vou explicar rapidinho de novo como é na Ilíada: você começa no meio da aventura e tudo vai sendo colocado em ordem cronológica. Você nunca sai da ordem cronológica, apesar de algumas inserções de coisas que aconteceram antes — como, por exemplo, personagens que, antes de lutar, começam a contar algumas histórias para descrever quem são, falando muito de sua linhagem, o que também é importante na Odisseia por causa de um aspecto específico que mencionarei depois.

Na Odisseia, a estrutura é completamente diferente, ela não é linear. Como é que acontece? A estrutura é assim: você tem quatro cantos falando da situação em Ítaca, o reino de Odisseu, mostrando o que o pessoal chama de "telemaquia", já que esses quatro cantos giram em torno de Telêmaco, filho de Odisseu. Depois, vamos ter mais quatro cantos — lembrando que são 24 cantos no total, exatamente como na Ilíada, só que os cantos são menores. Então, após esses quatro cantos da telemaquia, que mostram a situação de Telêmaco em Ítaca, teremos mais quatro cantos cobrindo o mesmo período. São quatro cantos cronologicamente paralelos. Aqui já vemos uma estrutura diferente. Esses cantos seguintes (5, 6, 7 e 8) mostram a situação de Odisseu no mesmo período, mas em outro lugar. Ou seja, a jornada de Odisseu de fato começa aqui, no canto cinco.

Lá no canto nove — ou seja, após quatro cantos da telemaquia e quatro cantos paralelos de Odisseu —, teremos o início da história de Odisseu desde a sua saída de Ítaca. Não é apenas uma inserção como um pequeno flashback, é uma analepse gigantesca. Ele vai parar a narrativa e fazer uma narração que volta desde quando Odisseu saiu da Guerra de Troia até chegar ao ponto em que descobrimos a sua situação no canto cinco. Portanto, você tem quatro cantos do Telêmaco, quatro cantos paralelos de Odisseu, e depois você volta e tem oito cantos explicando a situação anterior de Odisseu, seguidos por mais oito cantos misturando Telêmaco e Odisseu, até o retorno de fato de Odisseu e a sua vingança.

Essa é a estrutura da Odisseia; ela é bem diferente da estrutura da Ilíada.

E o primeiro tema que aparece, talvez o mais importante, é o da identidade. Isso vai ser apresentado no livro de várias maneiras, algumas periféricas. Eu poderia fazer uma análise de unidade temática ou de relação paradigmática. O eixo paradigmático, como fala Todorov — um dos meus autores favoritos, apesar de eu discordar bastante dele em algumas coisas —, é fundamental. Todas essas abordagens diferentes são limitadas, mas não podemos desprezá-las, porque trazem algo interessante. Se alguém ficar muito curioso, posso falar mais sobre isso, embora seja meio técnico. Todorov falava desses dois eixos de análise.