A discussão parte da acusação de que Aristóteles, em sua *Poética*, só aceitaria situações muito verossímeis e exigiria dos poetas uma escrita exageradamente clara. Essa ideia, porém, nasce de uma leitura equivocada de trechos do próprio texto aristotélico. A crítica parte da noção de que o personagem deve ter um “caráter claro”, mas essa expressão é redundante: ter caráter significa ter transparência em relação à sua alma. Quando se diz que alguém “não tem caráter”, o que se quer dizer é que ele finge, que tem múltiplas máscaras, como se fosse uma cebola infernal cujas camadas não se revelam. Essa confusão leva a crer que tudo o que o personagem fala precisa ser absolutamente claro, como o céu em dia de sol. Na realidade, o que Aristóteles exige é que o conteúdo da fala seja compreensível, não que a forma sintagmática – a construção das frases – seja a mais óbvia possível. A clareza requerida refere‑se ao sentido, não à transparência literal de cada palavra.
Para ilustrar, basta recorrer à citação do capítulo 19, que trata da elocução e das variantes de entoação. Conhecer as diferenças entre ordem, súplica, narração, ameaça, pergunta e resposta é tarefa do ator e dos especialistas em retórica. Não reconhecer essas nuances não justifica censurar a arte do poeta. Por exemplo, Protágoras critica Homero por supostamente “fazer uma prece”. Quando Aristóteles relata o discurso de Homero – “canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu, que lutou contra Átrides” – percebe‑se que o poeta usa o imperativo de forma impositiva, mas isso não significa que se trate de uma simples ordem. O imperativo pode ser usado para expressar prece, ironia, paráfrase ou outras figuras de linguagem. Assim, o ator deve interpretar se aquele discurso, embora imperativo, funciona como prece, permitindo, por exemplo, a ironia ou a perífrase.
Essa flexibilidade linguística é comum entre os poetas trágicos, como Ésquilo, Sófocles e Eurípides, e também entre os comediógrafos, embora o autor mencione apenas Aristófanes como representante da comédia. Os poetas líricos, como Píndaro, também empregam abundantes figuras de linguagem, embora seu estilo seja hermético e difícil de entender para o leitor contemporâneo. Píndaro, já no século X a.C., era conhecido por fazer referências a deuses, eventos olímpicos e genealogias que só faziam sentido para um público erudito da época.
Um exemplo mais próximo da nossa era é o poema “Dom Juan” de Baudelaire, incluído nas *Flores do Mal*. Na primeira leitura o texto parece incompreensível, mas ao assistir à peça de Molière – “Dom Juan” – a compreensão se torna imediata, pois a comédia apresenta a linguagem em prosa, sem a rigidez da métrica clássica. Se, hipoteticamente, todas as cópias da peça de Molière fossem perdidas e restasse apenas o poema de Baudelaire, quem o lesse hoje provavelmente diria: “Quem é esse tal de Dom Juan?” sem ter condições de entender a referência, pois lhe faltariam as informações contextuais necessárias.
Portanto, a ideia de que Aristóteles exigia uma clareza exagerada dos poetas decorre de uma interpretação equivocada de seu texto. Ele requer clareza de sentido, mas permite a riqueza das figuras de linguagem, da ambiguidade controlada e da complexidade sintagmática que caracterizam a literatura clássica e suas múltiplas tradições.