Uma discussão comum sobre a Poética de Aristóteles envolve a noção de verossimilhança no drama, gerando a acusação de que o filósofo desprezaria tudo o que foge a esse critério, como a fantasia, o maravilhoso, a magia, deuses, dragões e seres colossais. No entanto, essa ideia é equivocada e costuma ser defendida apenas por quem aprecia narrativas exclusivamente seculares.
Para esclarecer isso, vale recorrer ao Capítulo 18 da obra, onde Aristóteles trata das peripécias e das ações simples. Peripécia, que hoje poderíamos chamar de ponto de virada ou *plot twist* promovido pelas ações do próprio personagem, é o momento em que a situação sofre uma reviravolta dramática — como na peça *Mitrídates*, de Racine, ou em tragédias gregas. Nesses textos, os poetas frequentemente alcançam seus objetivos de despertar a simpatia do público de forma admirável através de situações que parecem inverossímeis, mas que funcionam porque fazem sentido dentro da lógica da narrativa.
Um exemplo claro disso pode ser encontrado em *Madame Bovary*. É possível achar inverossímil que uma moça criada em convento caia em certas tentações e goste desse tipo de vida, a menos que se considere que ela passou meses devorando romances românticos e históricos, provando e gostando do sabor do pecado. Da mesma forma, Édipo é um homem extremamente inteligente que decifra enigmas e é um bom rei, o que poderia fazer questionar como ele cometeu um erro tão grande. A resposta está no fato de que ele simplesmente não sabia que o homem que matou era seu pai e que a mulher com quem casou era sua mãe; se soubesse, jamais teria feito isso. O teatro de Sófocles opera exatamente com essa lógica.
Além disso, o teatro grego trazia diversos elementos fantásticos. Nas peças, encontram-se esfinges em *Édipo Rei*, carruagens que voam em *Medeia*, além de raios e outras manifestações mágicas. Na peça *Prometeu Acorrentado*, de Ésquilo, não há sequer seres humanos: a obra inteira é protagonizada apenas por deuses e titãs.
Outro ponto importante é a relação do público com personagens que seriam considerados inimigos ou indignos de compaixão. Na tragédia *Os Persas*, de Ésquilo — a mais antiga peça conservada —, os atenienses viam os persas como bárbaros violentos. No entanto, o público se compadece de Xerxes no final da peça, sentindo pena de sua perda e experimentando a catarse, mesmo sabendo que os crimes dos persas foram punidos justa e gravemente pelos deuses. O fato de essa tragédia ter conquistado o primeiro lugar em um festival ateniense prova que o apelo emocional e a empatia superavam o simples preconceito contra o inimigo.
Por fim, o próprio apreço de Aristóteles por Homero reforça que o maravilhoso e o fantástico tinham espaço garantido na grande tradição literária grega. Na *Ilíada* e na *Odisseia*, há inúmeros elementos fantásticos, com cantos inteiros dedicados exclusivamente aos deuses, mostrando que o fantástico e a verossimilhança dramática sempre caminharam juntos.