Nestes dias de licença desmedida na poesia, pareceria à primeira vista difícil destacar um único bardo como possuidor de ideias e modos de expressão tão únicos e originais que o fatigado adjetivo “diferente” seja merecido. Todo poetaastro da escola moderna afirma ser “diferente”, e baseia sua pretensão à celebridade nessa “diferença”; um efeito geralmente alcançado pela adoção de um estilo áspero e amorfo, e de um tom de subjetividade analítica e introspectiva tão individual que todos os elementos comuns e universais de beleza e poesia são excluídos. De fato, a excentricidade tornou-se tão completamente moda que aquele que segue as mais tresloucadas veleidades é justamente o menos diferente da frenética multidão de escribas ao seu redor.
Mas, não obstante essa moléstia dos tempos, permanece entre nós um vasto campo para o gênio e a distinção artística. As leis do pensamento humano são imutáveis, e sempre que nasce uma alma sintonizada com a verdadeira harmonia, e inspirada por essa rara sensibilidade que lhe permite sentir e expressar a beleza latente e as relações ocultas da Natureza, o mundo recebe um novo poeta. Tal ser romperá necessariamente com os costumes decadentes do período; e, recorrendo às formas da verdadeira melodia, entoará um canto espontâneo que não pode deixar de ser original, porque representa a reação espontânea de uma mente perspicaz e delicada ao panorama da vida. E quando essa reação consegue fazer emergir, no estilo mais simples e belo, fantasias e imagens que o mundo ainda não havia recebido ou notado, temos o direito de afirmar que o bardo é “diferente”.
Tal bardo é Winifred Virginia Jackson, cuja poesia tem sido, por seis anos, o orgulho da United Amateur Press Association. Nascida no Maine, e acostumada desde a infância ao feitiço místico da antiga paisagem rural da Nova Inglaterra, a Srta. Jackson absorveu por um longo período, de forma silenciosa e inconsciente, um reservatório prodigioso de beleza e fantasia da vida. Sem ter o propósito de se tornar poetisa, ela aceitou esses dons etéreos como algo natural; até que, há cerca de uma década, eles se manifestaram em uma explosão de melodia espontânea que melhor pode ser descrita como um puro transbordamento de sonhos e quadros deliciosos vindos de uma mente repleta até as bordas de formosura poética. Desde então, a Srta. Jackson tem escrito vastas quantidades de versos; sempre ricos e musicais e, se é permitido falar por paradoxo, sempre despojados com arte suprema. Nenhum desses poemas é de forma alguma premeditado ou conscientemente composto; assemelham-se mais a visões da imaginação, fotografadas instantaneamente para a percepção alheia, e infalivelmente enquadradas no meio métrico mais apropriado.
Ao perscrutarmos a poesia da Srta. Jackson, somos impressionados primeiro por sua espantosa variedade, e quase tão rapidamente por uma certa qualidade distintiva que confere a todos os espécimes variados uma espécie de homogeneidade. Ao analisarmos nossas impressões, descobrimos que ambas as qualidades provêm de uma fonte comum: a objetividade completa e a imaginação quase mágica do gênio supremo. Objetividade e imaginação, os dons dos bardos épicos da Antiguidade clássica, são hoje as mais raras das bênçãos. Vivenciamos uma era de emoção mórbida e introspecção; na qual os poetas, tais como são, afundaram ao nível de meros patologistas empenhados na disseção de seus próprios espíritos ultrassofisticados. O toque fresco da Natureza está perdido para a maioria, e os rimadores vociferam infindável e realisticamente sobre a relação do homem com seus semelhantes e consigo mesmo; negligenciando os verdadeiros fundamentos da arte e da beleza — o espanto e a relação do homem com o cosmos desconhecido. Mas a Srta. Jackson não pertence à maioria e não negligenciou tais coisas. Nela, o bardo antigo e intocado ressurge incandescentemente reencarnado; e, com uma universalidade assombrosa e isenção de autoconsciência, ela suprime o ego por completo, delineando os diversos humores e aspectos da Natureza com uma fidelidade impessoal e uma delicadeza que constituem o deleite do leitor perspicaz e o desespero do crítico estúpido que opera por regras e fórmulas em vez de raciocínio. Não há meio que o espírito da Srta. Jackson não possa habitar. A mesma mente que reflete as fantasias mais delicadas e suntuosas do mundo feérico, ou fornece os quadros mais finamente urdidos de patos e sentimento refinados, pode abruptamente fixar residência em alguma região remota de madeireiras no Maine e entoar um canto selvagem e viril da floresta e do rio que nos faz vislumbrar a cantora como o mais rude de uma tripulação madeireira de barbas emaranhadas, cicatrizadas por lutas e de berros estridentes, esparramada ao redor de uma fogueira de pinheiros.
Um crítico agrupou a obra poética da Srta. Jackson em seis classes: Líricas de beleza ideal, incluindo deliciosos poemas da Natureza repletos de cor local; líricas amorosas delicadas; líricas em dialeto rural e vigorosas peças coloquiais; poemas de otimismo cintilante; versos infantis; e poemas de terror potente e sombria sugestão. “Com ela”, acrescenta, “o realismo sórdido não tem lugar; e seus poemas brilham com um toque sutil do fantástico e do sobrenatural que é sustentado com maestria por combinações de palavras de bom gosto e inusitadas, imagens e efeitos onomatopeicos.” Essa estimativa é confirmada pelas produções mais recentes da poetisa, como tentaremos demonstrar por meio de certos espécimes recentemente publicados ou prestes a serem publicados, selecionados quase ao acaso:
“O Chapéu” é um traço característico da delicadeza e originalidade de Jackson. Deparamo-nos aqui com uma metáfora sustentada daquele tipo marcante que a autora cria com tanta frequência; uma metáfora que recorre a toda a Natureza e ao mundo invisível como base, e cujas analogias são exatamente aquelas que mais nos agradam, mas que nossas próprias mentes nunca possuem sintonia fina o suficiente para conceber sem auxílio. O jovem camponês no poema relata sua intenção de fazer um chapéu para sua ninfa escolhida usar. Ele o confeccionará com “dedal de ouro, tesoura, agulha, linha”; tomando veludo do céu de abril como base, estrelas para o acabamento, luar para a fita e uma teia de sonhos para o forro. Ele o perfumará com a fragrância “da rosa mais vermelha que o vento cantante acha mais doce onde mais longe sopra”, e “o tomará ao crepúsculo para sua amada usar”. Nada há aqui de bizarro ou espalhafatoso, contudo, nas seis pequenas estrofes de métrica curiosamente regular, sugere-se todo aquele mundo de beleza feérica que o olhar pode vislumbrar além das nuvens de chumbo da realidade; um mundo que existe porque pode ser sonhado. O poema é “diferente” da maneira mais verdadeira; é original porque transmite a beleza de forma original em um veículo discreto e harmonioso.
Mas voltemo-nos agora para “Ellsworth a Grande Lagoa” e maravilhemo-nos! É verdade que ainda encontramos a delineação vívida dos sentimentos humanos, mas que distância percorremos! Desapareceu o jovem sonhador com seu mundo de luar, pois aqui ruge o lenhador do Maine com todo o vigor tosco e a rústica expressividade natural do sátiro vivente. É a vida; primal, nua e sem polimento — a vitalidade ebuliente e estridente de um animalismo saudável.
“Beba cidra forte, trague cidra forte,
Empanturre-se de cidra forte, rapazes!
Joguem suas garras, joguem seus ganchos,
Berrem o seu barulho!”
Derivamos do éter de Keats para a terra de Fielding, contudo sob a orientação da mesma autora. Maior prova da objetividade absoluta e da imaginação maravilhosa da Srta. Jackson não poderia ser produzida ou exigida.
Contudo, quem dirá que o pêndulo de Jackson é poderoso apenas nos extremos de seu arco oscilante? Em “Trabalhando Fora” descobrimos uma lírica de amor pastoral que, em termos de pitoresco e expressividade gráfica, dificilmente poderia ser superada. Aqui, a inventividade distinta e espontânea da fantasia da Srta. Jackson manifesta-se com especial vivência. O jovem camponês, “trabalhando fora” longe de sua amada Molly, enumera as tarefas prosaicas que pode realizar com o coração leve; mas menciona em cada caso algo mais poético que comove suas emoções e lhe desperta a solidão pela bela ausente. Ele pode cortar e debulhar milho, mas a vara-d’ouro lembra-lhe o cabelo dourado de sua Molly. Ele pode ordenhar vacas, mas a genciana lembra-lhe os olhos azuis de sua Molly. Além de sua engenhosidade intrínseca, essas imagens encerram uma lição inconsciente para o poeta capaz de decifrá-la. Elas expõem, com ilustrações concretas, a falácia da chamada “nova poesia”, que desdenha a divisão natural entre coisas belas e não belas e tece rapsódias tão efusivas sobre um cano de esgoto quanto sobre a lua crescente.
“O Símbolo” exibe a Srta. Jackson em seu humor lírico mais etéreo; um humor original por possuir o lirismo raro da pura música e da fantasia, em detrimento do lirismo comum da emoção não sublimada. Há uma música vibrante tanto no pensamento quanto no meio de expressão, ao passo que o salto ingênuo no tema, sem introdução ou explicação, é um lance que denota a simplicidade do gênio. Igualmente eficaz é a simples transição métrica pela qual o coro assume a medida trocaica de um canto ou cantiga infantil:
“Levemente ó, alegremente ó,
Pelo longo carreiro ela irá!
Dança ela, reluz ela,
Pelo carreiro com olhos em brasa!”
Em “Certeza” e “É o Horário do Amor”, a autora exibe um fervor lírico de matiz mais convencional; acrescentando o toque de originalidade por meio da simplicidade melodiosa e da reiteração em um caso, e do puro êxtase lírico no outro.
A originalidade métrica da Srta. Jackson, evidente em todas as categorias de sua obra, não deve ser desprezada em meio ao entusiasmo nutrido por seu domínio mágico de pensamentos e imagens. Nenhum outro poeta conservador da época é mais versátil e individual na escolha de versos, ou na adaptação da métrica ao humor. “Madeirame à deriva”, um poema de imaginação estupendamente original que descreve as fantasias surgidas da fumaça de toras trazidas de terras distantes e misteriosas onde outrora as árvores cresciam sob sóis, luas e arco-íris estranhos, é tão notável na forma quanto na ideia. Pode-se julgar por uma dupla amostra de estrofes:
“Você aquece as mãos
E sorri
Ante o fogo de madeirame à deriva.
“Sinto terras ancestrais
Disfarce pálido
Que se retorce no fogo de madeirame à deriva.”
Vimos até agora uma poesia que nos levaria a classificar a Srta. Jackson como delineadora de estados de alma mais do que de caráter; todavia, conhecendo sua versatilidade, esperamos naturalmente encontrar entre suas criações alguns estudos de caráter potentes. E não nos decepcionamos. “Joe”, um canto das matas do Maine, descreve com vocabulário admiravelmente apropriado — tão simples e monossilábico quanto possível — o típico estoico anglo-saxão de paragens distantes, que encara o conforto e o desastre, a vida e a morte, com a mesma atitude impassível que a Srta. Jackson resume com tanta perícia no único fragmento exclamativo de indiferença coloquial: “Sei lá!”
“O Canto de Jonny Laughlin” é uma balada altamente incomum que narra a história de uma figura fluvial peculiarmente bondosa e abnegada. A narrativa é simples, mas a peça ganha distinção pela reprodução absolutamente fidedigna do espírito da baladística de fronteira. Em termos de vocabulário, ritmo e estribilho insólito, há evidências internas de autenticidade tradicional; e o fato de que tal amostra da Natureza pôde ser composta por uma autora culta constitui um testemunho contundente dos dons singulares da Srta. Jackson.
O fato de a Srta. Jackson ser capaz de refletir o espírito dos personagens mais díspares é ainda mais comprovado pelos dois estudos imensamente poderosos sobre o tipo vagabundo, intitulos “O Chamado” e “John Worthington Fala”. Estas obras são primores em seu gênero; narrativas de auto-revelação de andarilhos inquietos por terra e mar, repletas até as bordas de detalhes e colorido local que ninguém senão sua autora conseguiria dominar sem uma experiência real como náufraga de cinco continentes e outros tantos oceanos. Elas deixam o leitor verdadeiramente sem fôlego, maravilhado com a objetividade e a imaginação que permitem a uma poetisa da Nova Inglaterra espelhar com tão convincente vivacidade, em pensamento e linguagem, os sentimentos de um tipo tão totalmente oposto. Nem mesmo o gênio estritamente especializado de escritores tão casmurros e rudes quanto Service and Knibbs, atuando em seu próprio campo peculiar, consegue superar esta única e leve faceta do gênio universal da Srta. Jackson.
Resta falar sobre o poder singular da Srta. Jackson no reino do macabro e do terrível. Com essa mesma sensibilidade ao invisível e ao irreal que confere feitiçaria às suas produções mais alegres, ela alcançou nos campos mais sombrios do verso resultados que convidam à comparação com a melhor prosa de Ambrose Bierce ou Maurice Level. Entre seus poemas mais antigos, a fantasia macabra e colorida “Insônia” e a tragédia rústica de um realismo sombrio “Afazeres” despertaram especial louvor, tendo um crítico se referido à última peça da seguinte forma:
“Ela possui todo o poder irrefutável que marca as produções mais sombrias da Srta. Jackson, e é transmitida em uma métrica estacato cativante que enfatiza o horror cotidiano do tema. A fraseologia, com sua grande proporção de palavras e construções rurais e arcaicas, acrescenta imensamente ao efeito geral e à atmosfera.”
Esta menção ao vocabulário incomum da Srta. Jackson merece elaboração, pois um dos segredos de sua poesia eficaz é a ampla e diversa gama de palavras e combinações de palavras que ela domina. Arcaísmos e regionalismos reconditos, juntamente com compostos descritivos maravilhosamente cabíveis e originais, são elementos que perpetuam o espanto e o deleite de seus leitores. Dos espécimes recentes do verso mais sombrio da Srta. Jackson, “Finalidade”, “A Canção” e “Cercas Caídas” merecem especial louvor. A imagem horripilante evocada nas linhas finais da primeira peça mencionada é daquelas bem calculadas para assombrar os sonhos dos imaginativos.
Ao concluirmos este panorama de poesia rica e variada, nossa impressão dominante, além da admiração, é a de espanto diante da tardieza com que a autora tem sido reconhecida pelo público não amador. Até o momento, o nome de Jackson é uma novidade relativa para o mundo literário, algo explicável apenas pela relutância de sua portadora em adotar aquela espécie de fanfarra que empurra poetas menos modestos e menos genuínos para o brilho da celebridade. Mas um gênio como o da Srta. Jackson não pode permanecer eternamente oculto, por menor que seja sua busca pela fama; de modo que podemos razoavelmente esperar que os próximos anos testemunhem sua consagração entre as principais figuras literárias, como uma das mais hábeis, amplas e originais bardas contemporâneas.