Menu fechado

The Voice (Poesia #188)

The Voice

Nas colinas distantes ouve-se o murmúrio primeiro,
Tênue como o piado de um pássaro gelado pela neve;
Encosta abaixo, em degelo, ecos suaves levam o clamor
A vales e bosques que ainda jazem sob mantos.
À noite, as estrelas brilham com fulgor mais brando,
E através dos abismos transmitem o augúrio auspicioso;
De toda a terra um vapor místico se ergue,
Enquanto à beira do regato que se abre uma presença canta;
Árvores majestosas professam chamados não ditos,
E seivas sutis preenchem cada galho formigante:
Céu e terra assistem ao canto que se ergue,
E reconhecem, em Pã, um poder maior que os seus.
Pobres almas tímidas, que exaustivamente disseram
Da pena e do púlpito: “O grande Pã está morto!”
Entorpecidas pela escuridão de um credo místico,
Vêm a verdade, mas, vendo-a, não sabem lê-la.
Para elas, em vão sopram as brisas da primavera;
Em vão, para o norte, zumbem os viajantes de plumas;
Surdas por suas doutrinas, cegas por sua crença,
Em meio a tais alegrias, choramingam em piedoso luto.
Mas ontem, num vale guarnecido de salgueiros,
Ouvi os faunos contarem seus preciosos segredos;
Em córregos dissolventes vi as náiades despertarem,
E espreitei um sátiro no matagal em brotamento.
Doce ao anoitecer, sob os jovens raios da lua turva,
Toda a cena selvagem entoou um hino pagão;
As montanhas cantaram, quando de seus sudários de neve
Surgiram em formosura para saudar as nuvens;
As planícies responderam, ao despirem de si
As vestes sem graça da maré invernal.
Bosques oscilaram em música, e a horda das dríades
Juntou-se ao canto líquido da fonte borbulhante;
Enquanto, ao longe, o mar nunca silente
Adicionava as notas que aprendeu na Arcádia.
Mas escuta! Acima de cada voz que suavemente se funde,
Uma nota mais profunda, um hino mais selvagem, ascende.
A oeste de praias onde jazem colunas partidas,
Um chamado de beleza antiga cavalga o céu:
Ó tu cuja alma evoca o passado eterno,
Cujos olhos podem perfurar as muralhas sombrias do presente,
Lembras-te ainda da antiga profecia
Que anéis anuais em tons dourados de siringe —
Lembras-te da promessa da manhã,
Da maré ascendente de êxtases renascidos?
Mais uma vez os ventos menalianos acariciarão tua face,
E vozes vindas do mar falarão da Arcádia;
Mais uma vez teus olhos sobre a planície aquática
Vislumbrarão o velho Nereu e sua comitiva de cabelos verdes;
A ti, mais uma vez sobre a encosta silvestre,
Uma banda de óades fará dormir com canto suave;
E à tua visão, onde jaz a floresta lodosa,
Belas formas se erguerão através de anos imemoriais.
Os acentos cessaram — e, enquanto eu olhava ao redor,
Bebi os odores do solo esponjoso;
De pico e vale, sons misteriosos transmitiam
Alguma mensagem potente à sombra que se aprofundava;
A lua minguante lançava sombras inusitadas,
E seres amorfos vagavam pelo azul estrelado;
Por toda parte, memórias estranhas enchiam o ar —
Procurei por marcos, e eles não estavam lá.
Aquele outrora ultrajado outeiro, coroado por chaminé e forno,
Emergia do passado, um virgem monte gramado;
E junto ao riacho onde pás ruidosas giram,
Vi um deus barbado com uma urna fluente.
Dos olhos arrebatados, o véu dos eras caiu;
Novamente avistei o velho e familiar vale,
Enquanto ao redor da minha forma um coro saltitante e sombrio
Cantava sobre o grande Pã e o fogo brando da beleza.
Ouvindo, aprendi cada verdade há muito esquecida
De deuses, de homens e da sempiterna juventude;
E gritei de alegria ao saber que o dia louco do homem
É breve, enquanto Pã jamais passará!