Todo mundo até agora concordou que o final de The Boys é péssimo. Mas quando as pessoas tentam explicar o motivo de não terem gostado, você já percebeu que os motivos que elas dão são totalmente diferentes? Por exemplo, você não gostou do final por quê?
E vou te falar: eu concordo com quase tudo o que vi por aí. São várias peças nesse quebra-cabeça que dá para a gente apontar, mas eu comecei a pensar aqui e me parece que essas peças todas são só os sintomas do problema. Eu quero te mostrar aqui por que exatamente as pessoas não gostaram do final de The Boys.
O motivo disso não é porque eu sou mais inteligente que todo mundo, não. É porque eu penso como um roteirista, eu penso como um escritor. Eu vi vários desses vídeos aí e fiquei pensando muito sobre isso. Diziam coisas com as quais eu concordava, mas nenhum deles parecia realmente responder ao motivo real da minha decepção. E eu tenho certeza de que você vai concordar comigo e muito mais. Como esse canal aqui é pequenininho, você pode pegar os meus argumentos e explicar para outras pessoas como se tivesse saído da sua cabeça. Para mim não tem problema nenhum.
E olha só: mais do que te explicar por que o final de The Boys foi ruim, eu vou fazer isso da perspectiva da escrita criativa. Ou seja, vou fazer isso voltado para escritores, porque é isso que a gente faz aqui no canal. Aqui a gente estuda teoria literária aplicada à escrita criativa. Inclusive, se você quiser saber se eu mando bem na escrita, pode acessar alguns links aqui para ler gratuitamente algumas histórias minhas. Para mim não vai fazer muita diferença, porque o acesso é gratuito, mas para você pode fazer, porque se achar que eu mando bem nas histórias, vai ter mais confiança no que eu ensino aqui, certo? Então, os links estão na descrição.
Agora vamos lá para o nosso conteúdo. Presta bastante atenção aqui. Desde o início de The Boys, os supers matam gente como se não fosse nada. Eles humilham, assassinam, estupram e fazem isso durante cinco temporadas inteiras. Muitas vezes, quando isso é feito em público ou na frente das câmeras, o próprio público aplaude porque tem medo de morrer. Você aí, assim como eu, assistiu até o final. Você aguentou tudo isso porque sabia o que significava. Isso era uma promessa implícita que a série estava te fazendo. Na teoria literária, às vezes a gente chama isso de contrato implícito.
Pensa aqui comigo: a série estava, desde o início, fazendo uma promessa implícita para você de que alguém, um dia, faria os supers pagarem, não era isso? E aí esse dia finalmente chegou e você não gostou. Eu não gostei. Por que será?
Vamos começar pelo seguinte: você diria que a série The Boys é sobre o quê? Porque você sabe que ela não é sobre super-heróis. E pera aí, pera aí. Não adianta muito você dizer: "Não, ela é uma sátira sobre os heróis", porque o que você precisa entender aqui é que essa coisa dos heróis é só uma embalagem da série. Tenta raciocinar um pouquinho mais fundo aí. Qual é o motor da narrativa? Aquilo que fez você voltar temporada após temporada para assistir de novo e de novo? Puxando pela memória esses cinco anos de série, você consegue me dizer qual foi o motor narrativo?
Deixa eu te ajudar aqui. Vamos fazer uma comparação com Breaking Bad. Você sabe que a série Breaking Bad não é sobre drogas, não é sobre tráfico. Esse é o assunto que eles usam para desenvolver o motor narrativo, o tema central da história. E qual é o tema central de Breaking Bad? O que move a história? É a busca desesperada de um homem que, apesar de ser muito inteligente, percebe que está morrendo sem nenhuma relevância para o mundo. Você percebe que isso aqui está num nível completamente diferente da discussão? Aqui a gente finalmente está falando do que importa, que é a estrutura dramática da história.
Pensa comigo: aquele império do narcotráfico que vai sendo apresentado e desenvolvido em Breaking Bad é apenas o cenário da história. Mais do que isso, o câncer e aquela necessidade financeira do White aparecem lá no começo da história só como uma ponte do que vai realmente ser desenvolvido. Aquilo aparece ali no comecinho mais para você sentir empatia pelo personagem, porque o verdadeiro conflito é o ressentimento de um homem que, apesar de ser um gênio, é um cara extremamente frustrado e fracassado, que agora quer exigir o reconhecimento que acha que a sociedade deve a ele.
Agora vamos voltar para The Boys. O que a gente queria ver ali não era poderzinho. Nunca foi o poderzinho dos personagens que prendeu você assistindo. Quando, lá no primeiro episódio, lá no comecinho, a namorada do Hughie é explodida pelo Trem-Bala, ou quando você soube que a Beca foi estuprada pelo Capitão Pátria, e aí você tinha os dois protagonistas, o Hughie e o Bruto, por meses, por anos, fermentando aquele ódio dentro deles — principalmente o Bruto, né? —, você e eu aguardamos junto com aqueles personagens a mesma coisa.
Então, mais uma vez, qual era o motor da narrativa? Uma resposta muito melhor do que essa que a gente viu nos vídeos seria dizer: "É descobrir como matar o Capitão Pátria". Mas veja, isso aqui também é a desculpa. De fato, a gente esperou cinco anos para descobrir como matar o Capitão Pátria. Mas a série não era sobre isso. A série não era, dramaticamente falando, sobre como matar o Capitão Pátria. E me parece que esse foi o real motivo do fracasso daquele final.
Parece mesmo que os roteiristas estavam preocupados em resolver esse problema técnico, que era como matar o Capitão Pátria. Tanto é que eles vieram com aquela besteira lá de transformar um químico num segundo Soldier Boy. Outra coisa importante também foi eles terem dado o V1 para o Capitão Pátria, não é verdade? Isso fez a gente entender que, poxa, agora não tem mais como matar o cara. E aí os roteiristas ficaram tão obcecados em entender como fazer isso aí, como resolver esse problema de como matar o Capitão Pátria, que eles se esqueceram da única pergunta que realmente importava para a audiência: como fazer esse cara sofrer pra caramba, sofrer o suficiente por tudo o que ele fez antes? É isso que a gente queria ver. Fala a verdade, não era isso?
Fica calmo, não sai do vídeo, espera um pouquinho. Se a série não é sobre como matar o Capitão Pátria, ela era sobre o quê? Uma série, para ser boa, precisa ser sobre algo muito mais primitivo dramaticamente. E The Boys era sobre isso: The Boys foi, durante cinco anos, sobre vingança. Esse era o assunto que a série estava desenvolvendo: vingança.
E eu só espero que você pense um pouco antes de responder, porque nem venha me dizer que não, que eles foram vingados sim. Porque você se sentiu vingado com aquele final? É claro que vingança é sempre vingança, uma questão técnica, mas para ser uma boa vingança com impacto emocional, ela tem que, no mínimo, corresponder ao que você sentiu durante o desenvolvimento. O nível da punição precisa ser equivalente ao mal que o vilão fez.
Se você tem um vilão que passou cinco anos mostrando o quão intocável ele era, que estava blindado contra qualquer coisa e, pior do que isso, era um cara sádico que gostava da maldade que estava fazendo, para você equilibrar isso aqui, para ter uma vingança decente, a matemática da coisa tem que bater. Você no mínimo precisa ter um sofrimento longo, realmente doloroso, em vários níveis — físico, psicológico —, que mostre inclusive que o próprio personagem está vendo tudo o que está perdendo.
Mas a morte do Homelander foi uma coisa de um minuto. Beleza, a luta durou cinco minutos e foi cheia de incoerências, né? Já foi uma luta bem ruim, bem falsificada. Mas, mesmo que tivesse sido uma boa luta, era isso o que você queria? Uma boa luta de igual para igual de cinco minutos para resolver cinco temporadas de sadismo? É claro que não, essa conta não fecha.
E olha, deixa eu te decepcionar aqui com uma coisa: muito dificilmente você ficaria satisfeito com qualquer coisa que fosse feita ali com o Homelander. Talvez você já tenha o seu final perfeito na sua cabeça, talvez tenha concordado com algum vídeo pela internet, mas será que, mesmo se eles tivessem verba infinita e um tempo maior de tela, iam deixar você satisfeito? Porque eu fiquei tentando pensar aqui, inclusive nos finais que estão dizendo por aí como ideais, e eu concordo que seriam muito melhores do que o final oficial, mas não sei se mesmo com eles a gente ficaria satisfeito. Eu não sei se a galera em geral ficaria satisfeita. O que eu sei é o seguinte: o Homelander deveria sofrer muito mais.
Eu vou te dar um outro exemplo aqui meio bizarro, que pode parecer muito sádico da minha parte, mas tenho certeza de que você também vai concordar comigo. Na verdade, vou dar dois exemplos para poder equilibrar as coisas aqui.
Quando você vê um vídeo de ladrão se dando mal, qual é a sua sensação? O que você espera que aconteça no final? Espera que simplesmente o ladrão tome um susto e saia correndo? Será que espera que as pessoas consigam deter até a polícia chegar? Ou será que, assim como eu, você fica na torcida ali para aquela negada dar um pau no cara? E digo mais: você nunca acha que aquilo que acontece com o cara é suficiente. Você fica com o batimento cardíaco alterado, torcendo para ele se ferrar cada vez mais. É ou não é? E eu não estou questionando se isso está certo ou errado, tá? A gente deixa isso para outro vídeo, mas não é isso o que você pensa? Não é isso o que você sente?
O segundo exemplo: como você queria que Hitler tivesse morrido? Do jeito que ele morreu? Se você sabe o que acontecia nos campos de concentração, se sabe dos experimentos que os bigodistas fizeram com os judeus, já deve ter pensado em coisas melhores para terem acontecido com Hitler no final.
É por isso que o final de The Boys não funciona. Não foi suficiente eles terem colocado um monte de coisa ao mesmo tempo ali, como, por exemplo, a cara dele de assustado, ele fazendo voz fininha para o Bruto, dizendo aquelas coisas ridículas lá que você viu, tomando vários murros na cara supostamente pela Beca, por não sei quem, e um segundo depois já ter um pé de cabra enfiado na cabeça. Fala a verdade, isso não foi suficiente. A gente queria ver o Homelander destruído. A gente queria ver ele colapsando.
Eu não sei como seria o final perfeito. Eu não sei. Como eu disse antes, talvez nada fosse realmente satisfatório para a gente, inclusive porque o nosso senso de justiça é muito exagerado. Faz sentido um ladrão que tenta roubar a sacola de uma mulher ficar uma hora no chão levando chute na barriga, chute na cara, talvez até morrer apanhando no chão? É claro que não. Se você acha que sim, o seu senso de proporção está muito maluco, meu amigo. E olha, eu sou uma dessas pessoas que fica vendo esses vídeos e torcendo para apanhar mais, tá? O que eu estou falando aqui serve para mim também.
Mas enfim, para finalizar aqui, eu quero te explicar o que você tem que fazer na escrita, o que aconteceu de errado com The Boys e como você pode se prevenir de fazer um final ruim desses nos seus textos.
A dica aqui, na verdade, é bem simples. Ela só é difícil de construir no texto: se a sua narrativa fizer uma promessa emocional, seja qual for, sobre o que for essa promessa — e a de The Boys foi uma das mais claras que eu já vi na minha vida —, você não pode recuar no momento decisivo. Mesmo aquele leitor menos atento está confiando em você. Se você queria impactar o seu leitor, dê um final para ele que respeite aquilo que você construiu.
E um adendo que eu posso dizer é o seguinte: não exagere na sua história se você não for dar conta de fazer um final à altura desses exageros.
Mas enfim, me diga aqui nos comentários o que você achou, se concorda comigo, e eu prometo que vou responder a você com alguma gentileza, tá bom? Por esse vídeo é isso.