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O ERRO DE AMADOR QUE DESTRÓI QUALQUER HISTÓRIA

O Erro de Amador que Destrói Qualquer História

Eu vou te falar sobre dois tipos de escritor aqui, e eu duvido que você nunca tenha visto os dois na sua vida. Talvez até você mesmo tenha sido um deles.

O primeiro deles é o mais óbvio: é aquele que não se aguenta dentro da história. Ele já começa a explicar o que é que a própria história significa. Aquele personagem que melhor representa a visão de mundo do autor em algum momento, em alguma discussão, vai fazer um monólogo lá ou vai dar um sermão em alguém, porque essa foi a forma de o autor tentar direcionar a interpretação do leitor. Mas aqui a gente está falando do mais baixo nível de autor, é o escritor iniciante mesmo, amador. Se você faz isso, você é um escritor amador. A sua escrita é amadora. Você jamais deveria fazer isso. Primeiro porque é feio, estraga o texto e o leitor percebe. O leitor percebe que você é um amador.

Mas a gente tem um segundo tipo de escritor, que está num nível um pouco diferente. É aquele escritor que consegue fazer uma escrita muito bem construída, com personagens profundos, com uma narrativa honesta — e eu digo "honesta" aqui só para citar o principal tópico do vídeo passado; se você não viu, por favor, veja. Mas veja: eu estou falando aqui daquele escritor que, mesmo quando ele consegue fazer com que a obra em si seja honesta, ele não consegue se segurar. Ele vai terminar o livro e vai continuar falando sobre a obra para explicá-la.

Então é aquele cara que dá entrevistas corrigindo leituras que ele considera equivocadas do seu texto. Vai fazer postagem em rede social para tentar explicar uma metáfora que aparece lá no capítulo 7; aquele cara que vai dizer o que ele realmente quis dizer com tal coisa. Isso quando ele, no próprio livro, não faz um pós-fácio detalhando as suas intenções narrativas. É aquele cara que fica incomodado quando alguém interpreta a obra de um jeito que ele simplesmente não planejou. O leitor às vezes faz uma leitura, uma interpretação super honesta do texto, e o autor se sente ameaçado. Ele não gosta: não foi assim que ele pensou no próprio livro.

E esse comportamento aqui é muito imaturo. É de um cara que, por mais que ele tenha uma escrita madura, ele tem uma mentalidade infantil. Ele tem uma crença sobre essa questão autoral que talvez ele nem tenha percebido quão constrangedora é. Qual é essa crença? É a crença de que uma obra ficcional seja uma espécie de extensão da mente do autor. Ou seja, ele não percebe que a literatura ficcional, na verdade, é um objeto que o autor entrega para o mundo. Presta atenção aqui: a literatura ficcional é uma obra que você entrega ao mundo, que você dá para o leitor.

Mas, antes de explicar melhor isso, eu tenho que fazer uma segunda observação ainda, porque não é só um problema de postura; é que essa crença muda a forma como o autor escreve o texto. Não é óbvio isso? Porque, se o autor quer garantir que o leitor tenha uma interpretação específica, ele também tende a explicar mais o texto, mesmo que o texto seja muito bem escrito.

Então, para começar, a gente pode falar dessa insegurança aí desse tipo de autor, porque ele não consegue confiar nas imagens que ele mesmo criou. Ele tem medo que o leitor simplesmente não entenda sozinho. Então, o primeiro risco é óbvio, né? É o risco de o texto virar uma palestra do autor. Mas o segundo risco é o próprio autor ficar tão incomodado que ele não consegue se libertar da obra. A obra vira um fantasma para ele, porque toda vez que alguém comentar alguma coisa com a qual ele não concorde sobre a sua própria história, ele vai fazer questão de comentar e de explicar para o leitor ignorante que não pegou as nuances.

O melhor teórico que a gente tem para explicar esse problema aqui para gente é o Roland Barthes. Esse cara escreveu um livro muito importante para a teoria literária lá em 67, que é o ensaio chamado *A Morte do Autor*. O que é a morte do autor? É que o sentido de um texto não pertence a quem o escreveu. E veja, eu entendo que, se você nunca tinha ouvido falar sobre isso, você fique com o pé atrás, isso cheire muito estranho para você, você fique até irritado com isso, né? Como é que a intenção do meu texto, o texto que eu escrevi, que eu pensei, que eu elaborei, não vai tomar por base a minha intenção autoral? Mas é isso mesmo. Eu vou te explicar aqui os motivos, mas eu quero que você entenda o valor que isso tem para o leitor, para a literatura como um todo.

Eu acho que, antes de explicar, vou até fazer uma ressalva aqui. Eu sou cristão, eu levo muito a sério a interpretação correta das Escrituras. E na teologia cristã, a gente entende que a melhor forma de você entender um texto, de você interpretar o texto, é você realmente tentar encontrar as intenções autorais. Mas olha só como é que a gente faz isso: a gente faz isso a partir do texto, porque a gente não tem o autor para dizer para gente quais foram as suas intenções. O que sobrou para gente foi o texto. E essa é a mesma questão aqui, quando você escreve alguma coisa e entrega para outra pessoa. E tudo bem, diferente dos autores bíblicos, você está aqui agora para poder explicar para alguém o que você quis dizer. Mas eu quero começar a te mostrar aqui como isso não é tão simples assim e que você tem que se desprender dessa ideia.

Mas vamos lá. Para resumir aqui: se você não vai tirar a interpretação das intenções do autor, você vai tirar de onde? Do próprio texto. Ou seja, não é interpretação *freestyle*. Aqui, a morte do autor não significa que o leitor pode interpretar do jeito que der na fuça dele. A interpretação do texto é produzida na leitura com base no próprio texto.

A ideia do Barthes é mais ou menos assim: quando você escreve um texto e entrega para o leitor, esse texto passa a ser de vocês dois. Agora ele não é mais só seu. Mesmo que você não queira isso, você não tem como controlar o fato de que cada leitor vai organizar o que lê a partir das suas próprias experiências, a partir do que ele mesmo carrega. Todo leitor vai interpretar um texto, vai entender um texto à luz das suas próprias experiências, dos seus traumas, das suas perdas, das suas referências, enfim, da sua história de vida. E você tem que entender isso aqui, porque isso já acontece, você querendo ou não. Dois leitores com a mesma faixa etária, na mesma época, vão ler o mesmo romance e pode ser que eles saiam com ideias completamente diferentes. Na verdade, isso é o que mais acontece.

Só que o detalhe aqui é o seguinte: os dois podem estar certos ao mesmo tempo. Mas claro, eu estou pensando aqui em dois casos, em duas interpretações que possam ser comportadas pelo mesmo texto. Por quê? Porque nem toda interpretação vale. Isso é fato. Você sempre vai convencer um leitor de que a interpretação dele está errada porque ela não faz jus ao conteúdo do texto. Não, mas isso aqui tem que ficar claro: o Barthes não está querendo dizer com a morte do autor que, na interpretação, vale tudo. Muito pelo contrário: ele está dizendo que a interpretação válida precisa ser sustentada pelo próprio texto. Como assim? Com base em quê? Pelas palavras escolhidas, pelas expressões, pelas referências, pelas imagens que vão se repetindo, pelos temas, pelas tensões na narrativa. Então, nesse sentido, o leitor atento não vai inventar uma interpretação que o texto não comporte.

Mas o mais importante nessa teoria aqui é o que a gente quer saber da parte do autor, porque o autor não pode também usar suas intenções autorais como prova final do que o livro significa. E por que isso? Presta muita atenção aqui: se você, como autor do texto, tinha uma intenção muito clara na sua cabeça, mas quando você fez o texto não conseguiu imprimir essas intenções claramente no texto pela narrativa, então você não fez o gol, meu amigo. Você chutou e bateu na trave.

E a gente tem um exemplo maravilhoso disso, que é aquele filme *Tropa de Elite*, onde os autores, que eram militantes de esquerda, tentaram dar uma imagem supernegativa para o Capitão Nascimento, caso você não saiba. Só que, como eles construíram uma narrativa muito bem feita e honesta — porque eles realmente acreditavam que aquilo ia expressar as suas intenções autorais —, o que aconteceu foi o contrário. Porque eles realmente pensavam que, se retratassem a realidade crua, toda a audiência ia pensar como eles. Mas não foi isso que aconteceu. Foi por isso que tantas vezes o Wagner Moura e o Padilha, que foi quem escreveu o filme, se eu não me engano, fizeram trocentas entrevistas tentando defender a posição deles, tentando dizer que os brasileiros entenderam errado, não sei o quê. Mas poxa, quando você vê a realidade dentro do filme, você fica do lado do Capitão Nascimento. Você está entendendo agora?

E claro, para eles o que aconteceu foi muito ruim, mas isso deixou uma coisa clara também que pode acontecer com você: talvez a leitura que você faz de certas realidades esteja tão viciada que você não consegue perceber que está errado. E a outra hipótese é muito pior, porque imagina se esse filme *Tropa de Elite* tivesse sido feito com um monte de discurso lá para explicar o ponto de vista deles. O primeiro efeito, o efeito mais óbvio, seria que o filme não teria tanta audiência; as pessoas não iam gostar desse filme, porque as pessoas gostaram do filme justamente porque elas entenderam o oposto da ideia dos autores.

Agora, eu estou querendo dizer aqui que você não pode dar explicações, que você não pode falar sobre a sua intenção ou dar as suas opiniões sobre o seu texto? Claro que pode. A gente vê inclusive isso na história da literatura, que são cartas dos autores aos seus fãs, entrevistas de autores explicando seus livros. E tudo isso pode ser útil, pode ser interessante, mas vai ser interessante como um documento biográfico. E só isso. Essas coisas todas, as coisas que você tem a dizer sobre as suas próprias obras, não são a chave de leitura para elas, porque o texto sempre vai ser maior que você. O texto vai falar por conta própria, até porque você nem sempre estará lá com todos os leitores para poder explicar o que é que o texto significa.

Pelo contrário, a sua ideia deveria ser outra. Deveria ser deixar com que as ambiguidades do seu texto falassem de formas diferentes para leitores diferentes. Essa é uma das coisas que mantém os clássicos vivos: é o autor deixar essas aberturas para ideias que ele não planejou. Tem uma analogia muito boa que o Barthes usa para falar desse tipo de escritor que não deixa a autoria dele morrer no livro, que é a ideia de um "autor Deus" que desce do Olimpo para garantir que ninguém vai interpretar o seu material errado. Mas veja: isso mata a sua obra, mata a leitura. Para você ter um texto vivo, você precisa de um leitor vivo, de uma leitura viva. Você precisa que o leitor sinta que está participando da construção do sentido. E, se você pensar bem, você só precisa admitir que isso já acontece. E aí você vai lidar com isso. Esse autor Deus em você precisa morrer, precisa desaparecer.

Mas vamos lá: o que é que isso muda na prática? Eu já fiz pelo menos quatro vídeos sobre isso, cada um deles falando de um aspecto diferente, para te mostrar como é que isso impacta a sua leitura. O primeiro vídeo que eu fiz sobre isso foi sobre o que é um narrador de verdade. Se você entender isso, se você entender que o narrador não é você, você já vai começar a compreender a necessidade dessa ideia da morte do autor. Mas, para você entender isso, você tem que assistir ao vídeo que eu fiz aqui no canal. Um outro vídeo importante para você entender isso aqui é o vídeo anterior, onde eu falei sobre a escrita narcisista. Um dos tipos de escrita narcisista é quando o escritor tenta explicar um ponto de vista moral dele através da sua história.

Agora, continuando aqui o vídeo: se você estudou as técnicas de narrativa, se você não é um fanfarrão se passando por escritor, se você fez sua tarefa de casa, você precisa aprender a confiar nas suas histórias e, mais do que isso, a confiar nos efeitos diferentes que elas vão ter sobre diferentes leitores, aqueles efeitos que você não planejou. Você precisa engolir o fato de que algumas pessoas vão rir de cenas que você achou que eram tristes ou vão se emocionar e chorar com cenas que você achou que eram secundárias. Você precisa se acostumar com o fato de que as pessoas vão ter como frases favoritas do seu material frases que você escreveu até meio sem pensar. Não se incomode com o fato de que personagens que você escreveu para serem antipáticos vão ser defendidos com unhas e dentes por alguns leitores, porque o seu leitor às vezes precisa disso. Isso nem é da sua conta.

Presta atenção aqui: isso aqui não é a perda de controle da obra; é justamente a sua obra funcionando. É isso que você deve querer, a não ser que você seja só um militante mesmo, e aí esse vídeo aqui não é para você. Este canal aqui não é para você. Mas se você não é um militante abobado, se você não é desses que estão simplesmente tentando fazer da literatura um veículo para as suas doutrinas, para a sua ideologia, então deixa eu te dizer mais algumas coisas aqui.

O autor que larga o texto, que deixa o texto andar sozinho, que aceita a morte do autor e que para de tentar controlar a leitura, esse é o cara que acaba produzindo as obras mais ricas, mais belas, mais profundas. Porque, assim como aquele escritor que não está preocupado com a sua própria imagem, com a sua própria reputação no texto — e por isso ele consegue escrever com mais liberdade, com mais honestidade —, quando você não está preocupado em garantir uma interpretação correta e passa a confiar nas ambiguidades, não fica tentando resolver todas as coisas, você deixa a cena terminar com aquele impacto sem precisar de uma explicação. Quando você coloca a máscara, como o Oscar Wilde disse — e porque você está de máscara, você pode falar toda a verdade —, você vai ter uma chance muito maior de impactar o leitor.

Um texto que, pela sua honestidade e pelas suas ambiguidades nas falas dos personagens, nas atitudes dos personagens, admite muitas leituras diferentes, ele não é um texto confuso: ele é um texto vivo. E é esse tipo de texto, aquele texto vivo que tem algo para dizer por conta própria e não pelo autor, esse é o texto que o leitor vai carregar depois que fechar a última página. Não porque ele encontrou uma coisa que você queria dizer, mas porque ele encontrou uma coisa que agora também é dele.

Você pode dar sua opinião, você pode dar sua interpretação, você pode despertar o leitor para algumas coisas que no texto ele não percebeu, mas a sua interpretação é só mais uma interpretação de um texto que está pronto, mas não está mais sob seu controle. Ele ganhou vida própria. E é por isso que ele pode ir muito mais longe do que você imaginava, do que você planejou. E eu sei, eu sei: esse ato de desprendimento que eu estou pedindo para você ter aqui vai contra todo o instinto de quem passou meses escrevendo uma obra. Mas essa é a melhor medida que você pode ter como escritor. Então, simplesmente solte o seu texto, deixe ele ir embora, porque ele sabe o que está fazendo.

Mas por esse vídeo é isso. Se você gostou, deixa o seu like, deixa um comentário aqui, se inscreva no canal se ainda não é inscrito, e eu vejo você no próximo vídeo. Até mais.