Quando uma obra cinematográfica de sucesso ganha uma adaptação literária, o caminho inverso do tradicional levanta dúvidas sobre a qualidade da experiência, algo que pode ser avaliado através da leitura recente da trilogia clássica de George Lucas.
E aí, pessoal do Universo Antares, sejam bem-vindos a mais um vídeo aqui no canal. No vídeo de hoje, eu vou falar um pouquinho sobre uma das minhas leituras recentes. Para quem não sabe, eu estou lendo e fazendo uma playlist onde eu analiso todos os contos do H. P. Lovecraft, porém eu leio outras coisas também, não leio só Lovecraft. Como vocês podem ver aqui, tem outras coisas para serem lidas, e uma dessas leituras recentes foi a novelização da trilogia Star Wars, publicada pela DarkSide Books. Essa trilogia adapta o Episódio 4 (Uma Nova Esperança), o Episódio 5 (O Império Contra-Ataca) e o Episódio 6 (O Retorno de Jedi). A gente conhecia Star Wars aqui como Guerra nas Estrelas, mas hoje em dia a maior parte das pessoas fala Star Wars.
O que eu queria comentar sobre essa obra é que, como vocês podem ver, ela é relativamente grande em uma única edição. Esteticamente é muito bonita, mas tem uns problemas de tradução que eu vou comentar já já. Por que é que eu trouxe essa leitura aqui para o canal? Porque eu acho que existe um preconceito com as novelizações. Se você não sabe, a novelização é quando você pega uma mídia — por exemplo, uma música, um filme, um seriado televisivo ou um jogo eletrônico — e faz o caminho reverso, adaptando-a para uma novela, para uma história em prosa. Geralmente a gente vê o contrário, com os filmes criando roteiros a partir de uma obra literária, mas o contrário também é válido, e eu acho que existem muitas novelizações boas, como é o caso desta trilogia aqui.
Vamos ver a edição. As edições da DarkSide são sempre belíssimas, não tenho o que dizer quanto a isso, porém ela tem alguns problemas sim. Os autores são, obviamente, o George Lucas, que é o criador e pai de Star Wars e do seu universo cinematográfico; Donald F. Glut; e James Kahn. A tradução do Episódio 4 foi feita pelo Antônio Tibal; a tradução do Episódio 5 foi feita pelo Alexandre Matias; e a tradução do Episódio 6 foi feita pelo Petero Risate, se eu não me engano.
Se você não conhece Star Wars, o universo é de sci-fi fantasy, uma mistura de fantasia com elementos de ficção científica. Muitas pessoas acham que Star Wars é ficção científica pura, mas, desculpa, tem muita fantasia em Star Wars. Tem elemento de ficção científica sim, e é engraçado como a gente está analisando histórias agora — eu vou começar uma "era pop" no canal que eu acho que vai ser bastante divertida, onde eu vou analisar diversas histórias da literatura pop. É muito maneiro ver como Star Wars é influenciado por essas narrativas clássicas. É um universo que tem a força como seu diferencial, funcionando como uma magia usada por guerreiros poderosos chamados de Jedi, que usam sabres de luz. Mas é claro que existe o lado negro. Nessa parte da narrativa, o lado negro está vencendo: o Império está tomando a galáxia com seu poderio totalitário, e existe uma Aliança Rebelde que luta contra essa força maior.
A gente acompanha a narrativa de três personagens basicamente. O protagonista é o Luke Skywalker, filho adotivo de fazendeiros no deserto de Tatooine, que recebe um chamado para a aventura quando o compartimento de uma nave cai próximo dali com os robôs C-3PO e R2-D2, trazendo a mensagem de uma princesa, a Princesa Leia (irmã de Luke, embora ele só descubra isso lá na frente na história). Ela pede ajuda a um tal de Obi-Wan Kenobi. O Obi-Wan decide embarcar na jornada para ajudar a Leia, enquanto o poderoso Darth Vader, um dos grandes líderes da frota imperial, persegue os últimos rebeldes. Para conseguirem fugir, eles contam com a ajuda de um caçador de recompensas e seu amigo peludo — o caçador de recompensas é o Han Solo, interpretado nos filmes por Harrison Ford, ao lado do Chewbacca, seu fiel companheiro. Luke Skywalker é interpretado por Mark Hamill, e a Leia, pela já falecida Carrie Fisher. Eles partem nessa jornada com a Millennium Falcon e vão vivenciar inúmeras aventuras à medida que a Aliança avança em seus esforços para deter o Império.
O que eu acho muito interessante do livro é como ele capta muito bem a essência daquilo que é Star Wars. Star Wars não é só sobre o cinema; o legado está lá, mas o universo é muito rico e pode ser vivido em diferentes mídias. Veja, por exemplo, o primeiro parágrafo do Episódio 4. Olha para vocês verem como é a atmosfera — eu já consigo até ouvir os toques das notas musicais de John Williams, que solidificou um legado inestimável para o cinema e para a música moderna:
> "Era um vasto globo brilhante e ele lançava no espaço uma luz topázio tremulando, mas não era um sol. Assim, o planeta tinha enganado homens por muito tempo; só após se aproximarem da órbita ao redor dele é que seus descobridores perceberam que este era um mundo de sistema binário, e não o terceiro sol. A princípio parecia certo que nada poderia existir em tal planeta, muito menos humanos. Ainda assim, ambas as gigantescas estrelas G1 e G2 orbitavam um centro comum com uma regularidade peculiar, e Tatooine dava voltas ao redor delas, longe o suficiente para permitir o desenvolvimento de um clima estável, ainda que admiravelmente quente em sua maior parte. Aquele era um mundo desértico e seco, cujo inusitado brilho estelar amarelado era resultado da dupla luz solar atingindo areias e planícies ricas em sódio. A mesma luz solar repentinamente brilhou na fina pele de uma figura metálica caindo de maneira insana rumo à atmosfera."
Perceba como é cinematográfico todo o ambiente através do qual Star Wars acontece. Os diferentes planetas são exuberantes, lindos, e até os planetas feios conseguem ser marcantes. Eu gosto muito disso porque Star Wars é cultura, é a luta clássica do bem contra o mal.
A jornada do herói é muito bem estruturada e consegue agradar a tantas pessoas porque se alinha aos estudos de Joseph Campbell, que escreveu *O Herói de Mil Faces*, analisando mitos antigos para estruturar a chamada "jornada do herói". O George Lucas usa e abusa desse mecanismo narrativo, o que torna a história rica. É claro que, como novelizações de filme, cada livro tem algo em torno de 150 a 200 páginas — somados eles são grandes, mas individualmente não são tão extensos. Muito disso fica resumido porque a gente já tem o universo cinematográfico. Esses livros foram publicados originalmente entre 1976 e 1983 e traduzidos recentemente. O roteiro serve muito mais como uma bússola do que como uma adaptação literária tradicional, porque muitas das descrições aqui são confusas e só podem ser visualizadas de fato quando você olha para o filme. A maneira como descrevem certos objetos e alienígenas soa um pouco confusa, embora, em algumas partes, isso atue em favor da atmosfera literária.
O mais interessante é que essa história representa o marco inicial de tudo, sendo um ótimo exemplo para escritores. O próprio George Lucas faz uma introdução em cada livro falando sobre o processo criativo de roteiros. Muito disso se alinha com a "teoria do iceberg" comentada por Brandon Sanderson: você não precisa saber ou despejar tudo, só precisa mostrar a pontinha do iceberg para que os leitores saibam que há mistérios maiores. Por exemplo, o fato de o Darth Vader ser pai do Luke Skywalker já era sabido por George Lucas, mas a história funciona independentemente disso no primeiro filme; apenas no segundo e no terceiro essa relação ganha mais ênfase.
Meu processo de leitura foi ler o livro e depois assistir ao filme, sucessivamente. De fato, são excelentes novelizações. A escrita varia do médio para o excelente, sendo na maior parte mediana — com metáforas por vezes um tanto simplórias, o que não considero exatamente um defeito, pois a narrativa é sincera e os personagens ganham muita vida, especialmente nos últimos livros. O chamado para a aventura pode não soar tão convincente porque a história já foi segmentada no cinema, faltando tempo para um desenvolvimento de pensamento mais elaborado. Do ponto de vista estritamente literário isso é fraco, mas funciona perfeitamente para quem quer acompanhar a estrutura do filme, cumprindo bem o seu papel principal.
Onde a obra peca um pouco é na tradução, que apresenta muitos erros em português, parecendo resultado de tradução automática — como artigos femininos para palavras masculinas ou problemas com plurais cortados. Além disso, eu não gostei particularmente do modo como, no terceiro livro, o autor descreve as onomatopeias. Criaturas como o Chewbacca se comunicam de um jeito urrado, e o R2-D2 se comunica através de bipe. No terceiro livro, pelo fato de não ter sido feito pelo mesmo autor, as onomatopeias começam a ser grafadas por extenso de forma literal — em vez de dizer apenas que o robô emitiu um bipe, o texto escreve os sons de forma repetitiva e infantilizada. Isso acaba prejudicando um pouco o ritmo do texto num diálogo entre C-3PO e R2-D2. É proposital que a fala dessas criaturas seja ininteligível, e tentar transcrever foneticamente esses barulhos acaba parecendo desnecessário.
De resto, é uma trilogia que vale muito a pena. Demorei um tempinho para ler porque sou uma tartaruga na leitura — para vocês terem uma ideia, esta edição única tem 528 páginas. Ela é bem acessível, e para mim, como fã de Star Wars que gosta muito dos jogos e quer embarcar no universo expandido (seja o canônico ou o de *Rebels*), ter isso aqui como recordação de um dos grandes clássicos do cinema é riquíssimo. É um item essencial na minha coleção. Se o mundo acabar amanhã, pelo menos vou ter Star Wars comigo nas páginas dos livros, já que os DVDs parecem ter sumido e sido extintos. É isso! Espero que vocês tenham gostado deste vídeo e vejo vocês no próximo. Até mais!