Menu fechado

ANAMNESE

Existe um momento na vida de um soldado em que certas lembranças o atingem com muita força. Não foi diferente com Ukerut.

– Está horrível! – gritou, fazendo careta ao beber o rotineiro suco de acerola matinal.

– Deixe de ser rabugento, Ukerut! – Mismak advertiu sussurando. – E menos grosseria. Granner pode ouvir. Não estranhe se vier cabelo no copo amanhã.

– Se vier, eu farei aquele cozinheiro imprestável beber no meu lugar.

– Vai parecer o inimigo. Capitão Tigo vai te manter preso uma semana.

– Que seja! É melhor que beber esse mijo.

Ukerut era resmungão. Todos sabiam. Contudo, a saudade do lar começou a feri-lo. E, a cada vigília, patrulha ou missão, procurava nas padarias, restaurantes e comércios, um pedacinho de sua terra distante.

– O nome entalhado na placa diz “Sabores do Reino”.

– É só um nome, senhor soldado. – disse o dono da pousada, olhando para os próprios pés.

– É enganação! – Ukerut deu um soco na mesa.

– Permita-me discordar, meu senhor. Olha, não quero deixá-lo bravo, mas por aqui, ninguém nunca ouviu falar de Bradvas. É terra distante?

– É terra do reino. – mordia os lábios e gesticulava de forma ameaçadora – Mude a placa. Quando eu voltar, se ainda estiver assim, rogarei a meu comandante uma multa ao estabelecimento.

Era o princípio do delírio. Os atos abusivos foram reportados aos superiores, que mandaram chamar o soldado Ukerut às pressas, em plena campanha. O homem entrou na tenda com os olhos arregalados.

– Senhor Comandante, Senhor Capitão. Disseram que mandaram me chamar urgente.

– Mandei. – Tigo respondeu. Não havia nenhuma amistosidade no rosto jovem do capitão.

– Pois não, senhor.

– Ouvi dizer que o senhor tem apresentado um comportamento inadequado para a farda. O que tem a dizer em sua defesa?

– Permissão para falar livremente, senhor?

– Permissão concedida.

– Ouviu de quem, senhor? – Ukerut relaxou os ombros e franziu o cenho.

– Faz diferença?

– Só para mim.

– Então não faz. Quanto ao rumor, há alguma verdade?

– Senhor, caso esteja se referindo ao menino da praça de Valistad, ele me enganou antes que eu o sacudisse no ar.

– Você sacudiu uma criança no ar, na frente de todo mundo? – o Comandante Ernes indagou, espantado. Não era dado a gentilezas como o capitão.

– É pelo bem da moral da corporação. Não podem nos enganar.

– E o senhor acha que a moral da corporação foi preservada quando fez essa maldade publicamente? – Capitão Tigo questionou.

– …

Ukerut estava convencido de que fizera o certo. Presumiu que seus superiores não concordariam com ele.

– Você é um bom soldado. Leal, corajoso, bom combatente. Não seja um lunático. Quer nos contar o que o aflige? – Tigo tinha a voz suave atípica para a posição de comando. O que o não impediu de ter a confiança de seus subordinados.

– Capitão… é que eu sinto saudades.

– Uma moça?

– Minha casa, capitão. Eu sinto que a cada dia marchando, perseguindo esses malditos Terrassecas, entrando em cavernas, túneis e escombros de cidades tem me feito esquecer de lá. Não consigo lembrar do rosto da minha filha. E não há como remediar. Já faz três anos. Ela era só uma pequenucha quando a deixei, senhor capitão.

– Ukerut… – Capitão Tigo trocou um olhar significativo com o Comandante Ernes antes de concluir – nós entendemos. Nós, soldados, entendemos. E queríamos fazer algo por você. Mas… Bradvas, não é? É no canto mais distante das Terras Áridas. Não temos nem a desculpa de uma missão por lá. Precisamos arrumar algo para que você se lembre.

– Tenho tentado me lembrar pela boca, senhor. Provo os sabores que vêm do Marárido. Se me permite dizer, todos malditos mentirosos. Sugiro que esses delinquentes sejam disciplinados por enganação.

– Não vai acontecer. – Ernes interrompeu.

– Mas seria justo.

– Pensaremos em algo. Dispensado, soldado.

Ukerut bateu continência e voltou ao acampamento. O soldado saudosista era alvo de uma zombaria respeitosa. E ela rendeu boas rizadas naquela noite, e nos dias que se seguiram.

Um ano se passou desde que o pelotão havia se colocado em marcha, pacificando a região do sopé de uma cordilheira.

Veio a notícia ao Capitão.

– Senhor Capitão, ninguém o viu. Nem no acampamento, nem em nenhuma das três vilas aqui perto. – reportou-lhe o soldado Mismak.

– Maldito Ukerut! Isso vai nos atrasar. Não podemos parar por mais um dia. Teremos que partir ao amanhecer. Façamos assim: destaque dois soldados nascidos na região. Vocês ficarão para trás e devem encontrar Ukerut ou o seu corpo. Eu pediria para fazer justiça caso alguém o tenha assassinado, mas façam bom juízo. Se não foi por maldade, deixa estar.

Cento e quarenta homens prosseguiram. Mismak ficou. Tinha o soldado desparecido em alta estima. Provavelmente, ele teria ficado por Ukerut e sofreria a punição por deserção ou desobediência. Por isso, o capitão deu forma legal à intenção quando o comissionou à missão de resgate.

Mismak, Palas e Sauven procuraram notícias. Não de forma inquisitiva, como haviam feito os soldados no dia anterior. Vestiram-se como civis e foram ao bar do Já Vali. Dançaram e banquetearam. Juntaram-se à mesa das jovens donzelas que distribuíam sorrisos e olhares.

– E ocês passam por aqui, assim, tacando dinheiro nos fazendeiros da nossa gente? Meu pai é fazendeiro, sô, e num viu nem moeda furada docês – a moça, cujo o decote revelava um par de dons sedutores e hipnotizantes, desconfiou.

– Pois passa-me o nome e a direção. Vamos tratar de resolver a situação. – Sauven, o mais diplomata entre eles, performava com um sorriso escandalosamente branco.

– Donde ocês falaram que eram mesmo? – outra mulher quis saber.

– Eu e o Lapas somos da Foz do Rio Nunca, terras de lá da Cordilheira. Mas crescemos no Riachouro aqui perto. Meu primo ali – apontou para Mismak – é de Mizzavel, mas cresceu num lugar chamado Bradvas, já ouviram falar?

– Ah, já ouvimo falar, sim. De um soldado meio biruta que brotou por aqui. A turma dele tava de passagem. Um dia a menos e ocês teriam visto os bravos libertadores do reino. Ês briáva no sol. Tão falanu que nem uma das puta arrancou moedinha deles. Elas que tão lá, chorando a tal libertação. – todas riram. Os soldados também e, no fundo, ficaram orgulhosos. A disciplina do Esquadrão Mizzavellê era deleite para os membros.

– Um homem disse que conhece Bradvas? Não posso acreditar! Ninguém conhece esse lugar além das pessoas que nasceram lá. – a indignação de Mismak não precisou ser fingida.

– Num é mesmo? Cuidado… – a moça tentou avisar antes que uma cadeira acertasse as costas de Palas. Homens enciumados partiram para a ignorância, como também era tradição por ali.

Os soldados não tiveram problemas em revidar. Os agressores eram apenas caipiras. Os soldados eram homens treinados e peneirados dentre os melhores. Soco aqui, chute ali, arremesso lá, doze homens lamentavam algumas costelas quebradas e ossos trincados. Só Palas, de codinome Lapas, é quem sofreu com as dores nas costas dentre os três.

O dono do bar Já Vali os expulsou. Depois, mandou um menino sardento alcançá-los.

– Ele mandou dizer que tinha que expursá ocês, pelo bem dos negócios. E que tá triste pelo comportamento dos cabra. Pede descurpa.

– Tome, moleque. Leve essas moedas. Vão cobrir o prejuízo. Diga-o que somos nós que lamentamos o estrago. – disse Mismak.

No outro dia, voltaram naquele bar, mas as donzelas saíram assim que o viram. Sauven, saindo pelos fundos, abordou uma delas.

– Por qual razão estão nos evitando? Apenas nos defendemos. Vocês viram. Não queremos confusão.

– Nóis sabe. Um dos rapaiz que ocês bateu jura de pé junto que viu o biruta do lado d’um dos seus. Ocês, por acaso, não são sordado?

– E se formos? Somos boas pessoas, não estamos aqui para atrapalhá-los.

– O desatinado tamém falou isso antes de sair dando bordoada a granel.

– Por favor, precisamos achá-lo. Ou, pelo menos, saber o que aconteceu com ele.

– Moço, se ocêis topar ele depois dessa prosa, o que acha que vai sucedê comigo?

– Então sabe onde ele está?

– Dá licença, faifavô!

Sauven a segurou pelo braço, instintivamente. Soltou-a assim que viu sua expressão de terror.

– Desculpa.

Ela correu.

Naquela noite, no quarto onde se hospedavam, discutiram uma estratégia. Suspeitavam que a moça conhecia o paradeiro do companheiro, mas temiam por ela.

Sauven sugeriu uma visita ao barão da vila, Sir. Enety. Um sujeito gordo e carrancudo, que morava em um casarão, no centro da vila.

– Estes brasões me dizem “soldados”, mas suas caras me dizem “pobremas”. – disse o barão

– Senhor barão, temos consciência de que um dos nossos companheiros fez coisas terríveis nos últimos dias, mas nós temos que achá-lo – disse Mismak com a formalidade do cargo. – Um soldado morto por aqui? Isso sim será um grande problema para a vila. Receio que para o senhor também.

– Morte? Morte? Cês não tão entendendo nada! Esse tipim num morre fácil. Não, não, não. Tá bem vivo. Vivinho. E tá aqui. Lá embaixo.

– Preso, eu presumo. Não se preocupe. Não haverá retaliação. Eu…

– Ceis tão brincano comigo? – o Barão parecia indignado.

Os três soldados se entreolharam confusos. Precisavam ser cautelosos. A notícia de que Ukerut estava vivo os animou.

– Senhor barão, com todo respeito, não entendemos o que está acontecendo. Por favor, só queremos ajudar.

– Vou mostrar prôceis.

Ele os levou pelos cômodos e corredores luxuosos do casarão de alvenaria, que contrastavam com a simples vila. Desceram escadas até uma espécie de salão amplo subterrâneo.

No centro, um homem muito bem-vestido estava sentado em um sofá luxuoso. Precisaram olhar com atenção para perceber que se tratava de Ukerut. Tinha os olhos fechados e uma espada encostada no braço do sofá. Assim que se aproximaram, sinetas soaram despertando o homem levantou-se em um salto, com a espada em riste.

– Que merda você está fazendo, soldado? – disse Mismak, espantado.

– Não é da conta de vocês. Vão embora. – acenou com a cabeça e sacudiu a mãos

– Sabe que não podemos fazer isso. Você desertou, Ukerut. Capitão Tigo nos mandou para resgatá-lo.

– Eu os alcanço. Vou me entregar assim que isso acabar.

– Isso o quê? – Palas indagou.

– Eu estou perto. Falta só um pouco, só isso aqui – mostrou um pequeno espaço entre o indicador e o polegar – Não posso parar agora. Precisa ser fresquinho, não de fresquinho. Há uma diferença sutil, que esses estercos pisados ignoram a cada tentativa.

– Isso o quê? – Sauven fez coro.

– O pedaço que me falta. Trouxeram tudo que é de lá. O barão disse que chegaria hoje. E eu preciso disso! Na-na-não, Mismak. Não faça besteira. Está desarmado. De qualquer outra forma, sabe que as coisas não terminariam bem para você.

– Não pode matar três, Ukerut! – Mismak respondeu.

– Nem pretendo. Deixem-me aqui – brandiu a espada com fúria. — Eu juro que os alcanço. Vou pagar cada moeda de prejuízo que dei, custear a medicação para sarar os que feri, mas não me tirem a chance de conseguir o que eu quero!

Do fundo da sala, surgiu um serviçal, vestido com traje semelhante ao de Ukerut. Carregava uma bandeja coberta. Seus passos eram apressados, sem perder a elegância. Depositou o prato sobre a mesa atrás do sofá. Olhou para os que estavam na sala e anunciou:

– Acaba de chegar, e dessa vez, fresco como o senhor pediu. Lamentamos sua espera, senhor soldado. Tivemos que trazer o animal para que fosse colhido na hora.

– Agora acabô! – o barão esfregou as mãos. Exibia um sorriso de orelha a orelha.

Os soldados se entreolharam. Ukerut retirou a tampa. Um copo de alumínio. O serviçal deu o primeiro gole. Ukerut bebeu depois. Sorveu um pouco do que tinha dentro. Limpou o bigode e jogou a espada para os companheiros.

– Essa textura, esse calor, esse cheiro, esse gosto… Isso, sim, é leite de macho! Não é dessas frescuras que bebem por aqui. Estou satisfeito.

O leite que o Ukerut tomou provinha de uma ave mamífera: o Galo do Deserto. A lactação pertence ao macho da espécie. O sabor é, de fato, distinto. O consumo, por outro lado, inapropriado para humanos, por causar dependência.

Você ainda não pode enviar avaliações.

Para avaliar contos de outros autores, você precisa ter pelo menos um conto próprio publicado e aprovado.

Avaliações

4 avaliações encontradas.

Enredo Execução Escrita Estilo

Avaliação enviada em 23/08/2026

A construção da narrativa me agradou bastante. A criatividade do autor em construir um cenário fantástico que consiga soar interessante pode ser vista ao longo de vários contos, mas aqui, neste, o que mais me chamou a atenção foi a habilidade em contrastar o diálogo dos soldados de campanha com os “caipiras”.

O suspense no terceiro ato e a briga do bar também foram divertidas, ainda mais levando em consideração o desfecho humorístico e quase que enciclopédico da trama, o que não costumamos ver em histórias curtas.

👍 0 👎 0

Enredo Execução Escrita Estilo

Avaliação enviada em 21/08/2026

Parece o recorte de algo não especificado e não um conto que existe por si só. E também escrito para outra coisa que não o desafio, adaptando-o para cumprir o desafio. Supostamente estamos diante de um mundo fantástico, mas que parece o interior de Minas Gerais, tendo personagens com nomes exóticos, saídos de outro planeta. Isso traz uma estranheza, sem, entretanto, adicionar qualquer coisa para o leitor. Há um lampejo de algo mais, que, entretanto, nunca chega a ocorrer. Como acender a luz e a lâmpada se queimar, em teoria a luz viria, mas na prática não.

Como o leitor passa o tempo, tentando decifrar por qual motivo o mundo fantástico é o interior de Minas Gerais, os soldados são de outro planeta e há algo acontecendo, que na verdade é apenas a falta que o personagem sente de uma substância que causa dependência, a execução ficou prejudicada.

A escrita e o estilo, que são os itens de avaliação demonstrativos da qualidade do autor, demonstram uma perícia de alto nível. Não há reparos a serem feitos nestes dois itens, que mostram um escritor preparado em seu métier.

👍 0 👎 0

Enredo Execução Escrita Estilo

Avaliação enviada em 20/08/2026

Gostei muito da história. Os personagens são convincentes e, em poucas palavras, cada um é bem definido. Acho que temos uma quebra de expectativa no final: o soldado com saudade da filha estava apenas procurando na comida algo que o fizesse se lembrar de casa. Mesmo assim, a quebra é interessante, ainda que seja agridoce para um leitor que esperava algo mais surpreendente.

👍 0 👎 0

Enredo Execução Escrita Estilo

Avaliação enviada em 23/07/2026

O plot é muito interessante… basicamente temos um soldado com saudades de casa e que acaba se metendo em problemas por conta disso. É interessante, mas talvez demore muito a chegar até esse ponto crucial. Em todo caso, a construção dos personagens e seus relacionamentos é o suficiente para manter a atenção do leitor e fazê-lo gostar da história.
A escrita está muito boa, bem concatenada, embora para uma obra que se trata de um universo fantástico, é esperado que se tenha mais descrição e a criação de uma atmosfera que crie imagens na cabeça do leitor. Senti falta disso, mas entendo que a brevidade do formato seja um limitador grave.
Por fim, o estilo deixa de remontar aos clássicos da fantasia, para ganhar mais tração no desenvolvimento da ação e (também) da comédia, que surge como um detalhe surpreendente ao final. Excelente!

👍 0 👎 0