O céu pendia sobre a cidade como um presságio ainda sem nome. A lua, cercada por nuvens espessas, fitava a terra com a indiferença de um olho antigo. Nem uma estrela rompia a escuridão. O calor úmido colava-se à pele, tornando o ar quase sólido. As árvores permaneciam imóveis, como se até o vento evitasse tocar aquele lugar.
Ali, naquele casarão colonial mineiro, entre o torpor e o abismo, o pastor atravessou a soleira.
— Boa noite, visconde. Sou o pastor.
— Ah, finalmente! — exclamou o visconde de Aragão, sem conseguir disfarçar o nervosismo. — Disseram que o senhor consegue lidar com essas coisas!
— Estou aqui para ajudar e vim em jejum como prometi. Diga-me, onde está o demônio?
— Ali… ali mesmo! — apontou o visconde com um dedo trêmulo. Seus olhos estavam arregalados, mas o pastor só viu o vazio à sua frente.
No salão em que estavam, duas pinturas com olhos avermelhados adornavam as paredes; cujos olhares pareciam persegui-los. Uma mesa ocupava o centro, cercada por cadeiras de madeira entalhadas em estilo barroco. Uma delas estava quebrada, inclinada como um penitente, cuja sombra parecia maior que as demais.
— Não vejo nada. — A voz do pastor era firme, mas as canelas tremeram.
O anfitrião hesitou, o suor escorrendo por sua têmpora.
Enquanto o pastor se movia em direção à cadeira, o visconde de Aragão recuou, tirou do bolso um lenço vermelho que pertencera a sua falecida filha e o olhou com tristeza.
— Mas… ele está aí. Eu juro que está!
O silêncio que se seguiu era quase palpável.
— Desculpe, visconde. Não vejo nada.
O visconde retomou a atenção à cadeira, demonstrando certa raiva.
— Ora, está bem na sua frente! Vou pegar para o senhor um pouco de cachaça…, ou melhor, café para um pastor! Enquanto isso, o senhor, venha comigo para a sala. Não consigo ficar aqui perto disso por muito tempo. – O anfitrião cobriu o rosto com as mãos e apertou o lenço vermelho.
— Acho melhor eu ir embora. Tenho orações a fazer. Não vejo razão para permanecer aqui. Sugiro ao senhor nos procurar no domingo, na Manhã de Oração. — O pastor hesitou um pouco. A estranheza causava-lhe um pequeno medo.
— Não, por favor! Escute-me! O demônio… Ele está ali, naquela cadeira. Parece loucura, mas eu vi com meus próprios olhos o que ela pode fazer. Há algo poderoso. Uma vez me disseram que essa madeira veio de um cemitério. Meu avô falou que foi tirada de uma cabana velha próxima aquela famosa Ponte Torta. Mas eu acho que ela pertenceu a algum bruxo.
A cadeira estava virada para o pastor.
Ele apontou para a cadeira com a perna traseira esquerda quebrada. Jogada no chão, ela tinha um estofado vermelho. A madeira escura parecia brilhar sob a luz opaca da sala, como se tivesse vida própria.
— Isso não parece um demônio. É apenas um problema de marcenaria.
— O marceneiro não conseguiu resolver! — rebateu o visconde, visivelmente aflito. — Chamei o senhor Válter e ele saiu correndo. Acredite, a perna daquela cadeira está amaldiçoada. Além disso, temos outros problemas… O meu primo está aqui e até o dono da funerária.
— Funerária? O que ele está fazendo aqui?
O visconde de Aragão pensou um pouco. Pensou enquanto observava a perna traseira quebrada da cadeira.
— Minha filha… Ela amava aquela cadeira. Estava sentada nela quando a maldita perna quebrou. A ponta afiada… entrou em seu corpo. Ela… morreu em uma noite de sábado com um vestidinho vermelho. Não consigo nem entrar neste salão sem sentir a presença dela. Talvez se eu não tivesse…
— Sinto muito. Farei uma oração por você mais tarde. Quanto à alma, não há nada mais a fazer. Esperamos que Deus tenha tido misericórdia dela.
— Por ora, não se preocupe com os mortos! Concentre-se nos vivos. Por favor.
O pastor respirou fundo e lamentou com o olhar.
— E o seu primo?
— Ele veio porque estou com medo dessa perna de madeira amaldiçoada! E também sabe fazer um ótimo café.
O pastor tocou a madeira e num susto tirou a mão rapidamente, pois estava quente.
Riu desconcertado de si mesmo então voltou a tocar a madeira com cautela.
— Está vendo? Não há nada de errado!
O primo preparava um café forte, quase negro, cujo cheiro invadia a sala.
O visconde agora roía as unhas. Ele se inclinou, quase implorando:
— Pastor, eu sei que parece absurdo, mas você poderia orar para essa cadeira? Expulsar dela o demônio. Só por precaução? E depois levá-la embora junto com essa perna quebrada e pontiaguda.
O pastor olhou para o móvel no chão. Seus olhos pousaram na perna traseira esquerda. Ela tinha uma ponta irregular, manchada de sangue seco.
— Tudo bem. Vou orar e levá-la embora, mas apenas isso.
— Ótimo! Enquanto isso, ficaremos lá fora, pastor. Não podemos arriscar.
— Não exagerem. É apenas uma oração. Não há nada a temer. — Enquanto falava, apoiou as mãos no móvel, rasgando parte do estofado da cadeira.
Sob o tecido rasgado havia sangue.
Silêncio.
Os quatro homens se entreolham.
Ninguém falou.
Só então o visconde sorriu e pareceu murmurar: “Continue”.
Os outros saíram, deixando o pastor sozinho com a cadeira. Só então ele notou uma pequena fumaça saindo da madeira. E não se lembrava de a cadeira estar tão próxima.
Aproximou-se, intrigado, e percebeu que era o sangue evaporando. Não parecia natural. Na verdade, o sangue não estava seco. Ele franziu a testa.
Sorriu para si, pegou no bolso um pequeno frasco de óleo trazido de Jerusalém, molhou o polegar e fez um traço na madeira, mas hesitou. Lembrou-se de sua mãe. Ele utilizara o mesmo óleo para orar para a mãe, pedido para que Deus a curasse. A oração durou semanas, meses, mas mesmo assim ela faleceu.
Observando o frasco, o homem murmurou:
— Será que eu tenho mesmo a fé necessária?
Assentiu com a cabeça e continuou.
Recitou ali uma oração breve, no nome santo de Jesus, expulsando qualquer elemento maligno, agradeceu a Deus, invocou o nome do Senhor e disse:
— Amém.
Nesse momento, a perna de madeira que antes parecia evaporar o sangue já estava com uma cor acastanhada e fria. Percebeu que não havia mais umidade na madeira e um broto de flor vermelha desabrochara na sua parte pontiaguda.
— Graças a Deus.
Disse e completou baixinho: — Fiz bem em jejuar hoje. Eu ainda tenho alguma fé.
O visconde de Aragão sentiu a mudança, retornou correndo à sala em desespero e começou a gritar.
— O que o senhor fez? O senhor acabou com tudo!
O pastor estranha.
— Expulsei o mal como me pediu.
O visconde cai de joelhos e começa a chorar.
— Não… não… Não assim. Era para você apenas confirmar a presença dela.
— Do que está falando, visconde?
— Ela vinha todas as noites. Sentava naquela cadeira. Nunca dizia nada. Mas vinha.
— Mas senhor, sua filha já morreu há muitos anos.
— Toda noite eu escutava o vestido roçando no estofado ainda quente. Toda noite ela voltava. Nunca dizia nada. Mas eu sabia que ela ainda estava comigo.
Desconcertado, o pastor se afastou. Foi em direção à porta, e saindo, olhou duas vezes para trás.
Lá estava a cadeira quase de pé, sem as pernas. Fria.
Ele suspirou e foi embora.
No caminho de volta, havia uma queimadura na sua mão.
A queimadura tinha o formato daquela flor.
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