O aprofundamento filosófico de *O Pequeno Príncipe* muitas vezes passa desapercebido sob a fachada de fábula infantil, revelando críticas agudas às estruturas sociais e humanas. Um dos temas mais centrais dessa análise é a profunda solidão que permeia tanto a jornada do protagonista quanto a própria condição dos habitantes de seu universo.
Outra coisa interessante que fala de *O Pequeno Príncipe* é a questão da solidão. Porque ele visita, além do próprio planeta dele e da Terra, outros seis planetas nesse meio tempo. Em cada um deles, ele encontra sempre alguém solitário. A gente pode até dizer que no planeta dele também é um planeta solitário, então ele também está junto nisso, não à toa assistiu ao pôr do sol quarenta e três vezes no mesmo dia. É porque ele também estava muito triste, imaginamos que seja por causa da solidão.
Nesses planetas, todos estão sozinhos, mas eles como que escolhem estar assim. Você tem o vaidoso, você tem o negociante, você tem o rei, o bêbado, o geógrafo e o acendedor de lampiões. E todos eles vivem, eles têm um pensamento, um padrão de comportamento, um padrão de julgamento, um padrão de compreensão do mundo que impede que eles sequer tentem, sonhem ou imaginem viver com outras pessoas.
O mais interessante é que o sétimo planeta a ser visitado — o oitavo que aparece na obra, mas o sétimo a ser visitado, já que o Pequeno Príncipe não está visitando o próprio planeta, pois você não visita sua própria casa, você simplesmente habita nela — é o planeta Terra. E o planeta Terra é descrito como um local em que coabitam todos esses tipos. Só que lá há 111 reis, 7 mil geógrafos, 900 mil vaidosos, 1,7 milhão de bêbados, uns 400 mil negociantes e mais uns 340 mil acendedores de lampiões.
É interessante porque acho que é a serpente que fala para o príncipe algo como: "A gente se sente solitário no deserto, mas também se sente solitário com os homens". A serpente adiciona isso ao que ele disse. E se a gente levar em conta o padrão de comportamento, de compreensão, de expressão, de julgamento e de reação dos habitantes de seus respectivos planetas, e aplicar isso para o nosso, seria dizer que neste mundo aqui você tem uma solução falha, uma falsa solução para o problema. Porque a gente poderia pensar que o problema deles todos, do primeiro ao sexto planeta, é que o planeta deles é pequeno e por isso vivem sozinhos, não é porque eles não queiram conviver. Só que aí tem o planeta Terra, onde o narrador diz que toda a humanidade poderia caber numa pequeníssima ilha sem nenhum problema. Então, tem espaço para caramba, tem gente para caramba, não haveria motivo para se sentir só.
Só que a razão pela qual isso acontece, se eu não me engano, é a raposa que diz. Acho que é a raposa que fala que os homens esqueceram como cativar, esqueceram de fazer rituais. Os homens hoje em dia acham que tudo o que têm eles compram, e como não se pode comprar amigos, eles não têm amigos. E é interessante porque você pega o que seria a exata solução de algo que parece a solução e que não é, e a gente volta para aquela frase: "O essencial é invisível aos olhos, não pode ser ouvido nem enxergado pelos olhos ou pelas orelhas, tem que ouvir e enxergar com o coração".
Isso significaria que, mesmo colocando seres que são cegos e surdos — que têm corações cegos e surdos — em um ambiente que é o melhor possível para que se conectem, mesmo assim eles não vão se conectar. De fato, você pode ter condições, limites e impedimentos objetivos que por vezes vão impedir completamente que diferentes tipos de pessoas convivam, que sequer se conheçam, imaginem a existência umas das outras, desejem buscá-las ou sonhem que elas existam. Mas, mesmo se você pegar esse tipo de pessoa e botá-la em larga escala no mesmo planeta, em um lugar com tamanho para dar e sobrar, a solidão pode continuar reinando. Porque o que cura alguém da solidão não é ter um monte de gente parecida com ela, é existir gente que é diferente e que coabita o mesmo local. E também não são as palavras, não é aquilo que é dito, mas sim aquilo que é não dito, aquilo que é fruto de um ritual constante e que faz com que as pessoas se conectem verdadeiramente.
Isso é um negócio bem legal. Não é apenas a questão de mostrar um problema prático — como podermos pensar por que o Pequeno Príncipe não fez amizade com o acendedor de lampiões no planeta pequeno dele. Aqui, o Pequeno Príncipe está em um planeta maior, com uma pancada de acendedores, e mesmo assim não fez amizade com nenhum. Será que ele não chegou a conhecer nenhum? Será que não falou com nenhum? A obra é o que está aí. O que eu falei agora são apenas algumas especulações, mas imagino que nenhuma delas muda o resultado exato da coisa, que seria a necessidade de um retorno a certos rituais feitos pelos próprios indivíduos. Os próprios indivíduos lembrarem-se ou aprenderem o esquecido benefício e o primor dos rituais, da cativação não linguística — porque a linguagem mais confunde do que esclarece. Seriam os homens buscando isso por si sós, de corpo e alma, que conseguiriam se conectar uns com os outros e de fato viver juntos, não somente coabitar, mas conviver e viver mesmo juntos.