*O vídeo traz a análise e os comentários sobre a obra clássica "O Estrangeiro", de Albert Camus, discutindo os traços de personalidade, as motivações e os comportamentos do protagonista Meursault a partir da perspectiva de uma resenha literária.*
Era uma vez um homem indiferente a tudo e a todos. Ele não se importa com os vizinhos barulhentos e violentos, nem com o emprego que paga mal e tem um chefe meio tirano. Não se importa nem mesmo com o fato de que a mãe acabou de morrer. Veja como esse protagonista, que aliás se chama Meursault, narra o falecimento de sua querida mamãe neste que é provavelmente um dos primeiros parágrafos mais importantes da literatura do século XX: *"Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas…"*
Aí está, é o próprio em pessoa, é a voz dele. Reconheço o meu sou lendo *O Estrangeiro*.
Continuando com a análise do livro, existem quatro palavras e expressões que definem este protagonista, Meursault. A primeira é, provavelmente, passividade: ele não toma a iniciativa de nada, deixa que tudo aconteça consigo mesmo, sem se importar com nada. A segunda é a indiferença; ele é um cara desapaixonado pela vida e pelas pessoas ao seu redor, não se importando com o que está acontecendo. Aliás, uma das frases que ele mais repete é "para mim tanto faz".
Ele parece não se importar com ninguém, mas a questão é a seguinte: embora fale assim e pareça não ligar para ninguém, ele passa uma boa parte do tempo livre dele com a moça que chega a pedir em casamento de tanto que ela gosta dele, passa tempo com os amigos, enfim. Ele fala "tanto faz", mas vai lá, e o pessoal gosta dele do jeito dele. Então, não é que ele seja impassível a ponto de não ter relações; ele simplesmente não tem paixões, não parece ter nenhum registro de grandes paixões na fala dele. Mas dizer que ele não está nem aí para os outros também não é bem assim. Como assim? A parada mais importante que ele faz no romance, que é a legítima defesa exacerbada dele, ocorre literalmente por causa de um amigo.
A terceira palavra é inconsciencia. Pensar a respeito de si mesmo e a respeito dos sentimentos dos outros é uma coisa que nunca passou pela cabeça dele; ele não entende o que se passa dentro do próprio coração, e a gente começa a se perguntar se ele tem, afinal de contas, algum coração. Se fosse uma obra em que o personagem fala das coisas que sente, mas tenta entendê-las sem conseguir, tudo bem. Um exemplo disso é o outro clássico, do século XVII, escrito por uma autora, Madame de La Fayette: *A Princesa de Clèves*. Na obra, a protagonista está apaixonada por outro homem apesar de ser casada, e ela tenta fazer cerca de onze raciocínios muito lógicos e racionais para tentar apaziguar, encarcerar e se livrar dessa paixão, mas não consegue e não compreende como isso acontece, pois cada muro intelectual que ela constrói para resistir à paixão acaba caindo.
Esse é um exemplo de personagem que não entende os próprios sentimentos. Agora, o Meursault não demonstra sentimentos; então não é que ele não entenda os sentimentos, é que eles parecem ausentes. O livro parece forçar a gente a pensar que ele não tem coração, ou que, se tem, ele é invisível para nós e talvez para ele mesmo. E se é invisível, não é exatamente que seja incompreensível, mas sim impassível. É difícil dizer que existem emoções ali e que ele simplesmente não as entende bem, porque ele não relata nenhuma emoção para a gente. No máximo, o que transparece é o tédio, aquele sentimento meio *blasé*, meio depressão francesa, do tipo "tá bom". Mas isso ele parece compreender muito bem, porque é uma emoção que parece vir da falta de sentido da vida. Se ele vive no absurdo mesmo, ele compreende isso muito bem.
A quarta palavra é desconexão com os outros seres humanos, que existem apenas para suprir suas necessidades imediatas — mas, no fim das contas, se nem existissem, ele não ia se importar, agindo como um anão ou um peixe no aquário. Meursault reage aos estímulos naturais: ele come quando tem fome, bebe quando tem sede, fuma quando tem vontade, transa quando tem desejo, começa a suar quando fica embaixo do sol.
Ao mesmo tempo, ele parece não compreender as regras culturais e os valores da sociedade. Mas espere aí: será que não compreende mesmo? Tem uma cena no livro, um pouco antes de ele matar o árabe, em que Meursault vira para o amigo do Raymond — ou Rayon, já que são franceses —, um tal de Masson, e há outro amigo ali também. Eles estão na praia com as mulheres, e o amigo do Raymond está com uma arma. Ele vai se levantar para apontar a arma e provocar o rapaz árabe, e é o Meursault quem vira para ele e diz: "Não, não, não, você não pode dar um tiro nele assim do nada". O outro responde que vai provocá-lo e depois atirar, e Meursault diz: "Também não pode fazer isso, velho. Só dá um tiro nele se ele estiver armado, se ele puxar uma faca ou uma arma, aí você atira; mas não dá um tiro do nada, pô".
Isso não é justamente uma ótima compreensão dos códigos sociais? Não é justamente isso? Quando ele chega lá no asilo, ele respeita todos os códigos, todos eles. Ele encontra o namorado idoso da mãe dele — já que a mãe dele morava no asilo, o filho quase nunca visitava, mas mandava dinheiro, e ela encontrou um namoradinho por lá. Ele passeia um pouco no jardim com esse velhinho, vê o funeral dela e fica ali junto com ele, conversando com os responsáveis pelo asilo, prestando respeito pelo luto, mesmo que ele provavelmente não se importasse com aquilo de forma profunda. Ele faz isso em respeito aos códigos sociais. Então ele entende, sim; ele realmente entende isso. Como assim?