A obra *O Estrangeiro*, de Albert Camus, apresenta como protagonista Meursault, um homem cuja perspectiva de mundo difere profundamente da convencionalmente aceita. Embora se comporte de maneira socialmente adaptada — trabalhando, aceitando pedidos de casamento e mantendo amizades —, seu padrão de pensamento é singularmente desapegado. Ele não se vê como uma vítima trágica da existência, mas aceita os acontecimentos com uma neutralidade quase absoluta. A narrativa em primeira pessoa é fundamental para expor essa mente incomum, camuflada sob uma aparente normalidade.
O ponto de virada da trama ocorre em uma praia na Argélia, sob um sol escaldante, onde Meursault se envolve em um violento confronto. A dinâmica que antecede o crime envolve Raimundo, amigo de Meursault, que está sendo perseguido e ameaçado pelo cunhado, um homem árabe cuja irmã foi agredida por Raimundo em razão de conflitos culturais e familiares. Esse pano de fundo passional e tenso culmina no momento em que Meursault, o próprio Raimundo e outros acompanhantes encontram os dois árabes na praia.
Durante o passeio, a tensão entre os grupos aumenta. Quando os árabes se aproximam, o calor intenso afeta profundamente os sentidos de Meursault, gerando uma sensação de tontura e sufocamento. Em um momento de extrema confusão térmica e psicológica, Meursault caminha na direção dos árabes. O irmão da jovem se levanta e saca um canivete, cujo reflexo brilha sob a luz solar, avançando de maneira ameaçadora. Diante dessa agressão iminente, Meursault dispara contra ele, neutralizando-o com um tiro no peito, mas prossegue desferindo outros disparos contra o corpo caído.
Questionado posteriormente no tribunal sobre os motivos de ter dado múltiplos tiros, Meursault atribui o ato ao calor excessivo e à intensidade do sol, o que gera interpretações equivocadas sobre sua suposta psicopatia ou indiferença total pela vida humana. Contudo, uma análise mais atenta da narrativa revela que a atitude de Meursault não decorre de pura crueldade gratuita. Ao assumir a arma e se colocar entre o perigo e seus companheiros, ele demonstra uma forma de lealdade e proteção aos amigos, ainda que sua reação física e verbal diante da justiça pareça fria e inadequada aos padrões sociais. Embora se possa argumentar que houve um excesso em legítima defesa, o protagonista está longe de ser um assassino sádico desprovido de qualquer laço com o mundo ao seu redor.