Nesta análise das conexões culturais e literárias antigas, o pesquisador Lucas Rosalem explora semelhanças impressionantes entre a poesia épica de Homero e os textos sagrados do Antigo Testamento. A discussão aborda desde concepções antropológicas sobre a vida e a morte até o contexto histórico e literário da formação das narrativas bíblicas.
Existe uma semelhança técnica e antropológica fascinante entre a Ilíada e a Bíblia no que diz respeito à compreensão da vida e da morte. Na Bíblia, o conceito do fôlego de vida é central. No Antigo Testamento, isso é construído desde o Gênesis: Deus cria Adão a partir do pó, utilizando a matéria da terra, e sopra nas suas narinas o fôlego de vida, fazendo-o viver. Quando a pessoa morre, esse fôlego sai. No Canto Quatro da Ilíada, encontramos exatamente essa mesma ideia. No verso 520, lemos sobre Píoro, filho de Ímbaso — cujos nomes são difíceis —, que veio da Trácia: a pedra impiedosa esmagou-lhe os nervos e os ossos, e ele caiu para trás no pó enquanto estendia ambas as mãos aos queridos companheiros, e a vida saía-lhe pela boca. Logo em seguida, quando ÁgANTOR atinge Píoro e lhe desfere um golpe junto ao umbigo, todas as vísceras se derramam no chão e a escuridão lhe cobre os olhos. Ou seja, a descrição da morte envolve a saída da vida pelo último sopro.
Poderíamos questionar se isso é confiável na tradução, levantando a dúvida se o imaginário do tradutor não estaria influenciando o texto para trazê-lo para o nosso mundo. Contudo, Moisés era um erudito do seu tempo. Ele conhecia profundamente tanto a cultura hebraica quanto a egípcia, além de ter acesso ao conhecimento disponível de outros povos. É natural que ele tenha absorvido elementos narrativos da terra em sua forma de contar, utilizando-os muitas vezes com um propósito apologético. Ele observava a mitologia e a cosmogonia vigentes para, em seguida, declarar o que era a realidade, utilizando elementos de outras nações para contá-la.
O relato do Dilúvio descrito por Moisés, por exemplo, surge em um contexto onde já existiam tradições por todo canto devido à transmissão oral. Moisés escreve a versão real. Muito depois, nos Salmos, vemos autores se apropriando de épicos de outras religiões para combatê-las, fazendo uma teologia apologética que responde às impressões de outros povos e cosmogonias. Não haveria problema algum se, ao chegarmos ao céu, descobrirmsemos que o Espírito Santo inspirou Moisés a escrever conforme o conhecimento que ele possuía na época, incluindo essas referências culturais.
Por outro lado, torna-se difícil afirmar com precisão absoluta quando tratamos desses épicos antigos, especialmente a Ilíada, visto que sequer temos certeza se Homero de fato existiu. Contudo, quando o Pentateuco começa a ser escrito, práticas como o holocausto e a circuncisão já existiam no mundo antigo. A circuncisão não foi inventada com Abraão; quando ela lhe é apresentada, ele não fica assustado sem saber do que se trata. Mais adiante, quando Diná é violada e os filhos de Jacó propõem que os homens da cidade se circuncidem para selar uma aliança — atacando-os logo depois, no auge da dor —, aquele povo aceita prontamente porque a prática já era conhecida por muitos.
Existem muitos elementos na cultura hebraica que refletem apropriações do mundo antigo. É um equívoco achar que absolutamente tudo ali surgiu do absoluto zero e sem paralelo. As comunidades ao redor do mundo se desenvolveram a partir de matrizes culturais muito parecidas, o que dialoga diretamente com a perspectiva de quem compreende a história humana sob uma ótica criacional e unificada.