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A Perna e o Vermelho: o conto de terror da cadeira amaldiçoada

A Perna e o Vermelho: Conto de Terror da Cadeira Amaldiçoada

https://www.youtube.com/watch?v=AyvnjNU_L9Q

Nas profundezas do interior mineiro, um casarão colonial abriga segredos sombrios ligados a uma herança de família e a uma tragédia do passado. É nesse cenário sufocante que se desenrola o tenso encontro entre um pastor cético e um visconde atormentado por visões aterrorizantes.

O céu nublava-se quando o pastor atravessou a soleira daquele casarão colonial mineiro. O calor úmido colava-se à pele. As árvores permaneciam imóveis, como se até o vento evitasse tocar aquele lugar.

— Boa noite, Visconde. Sou um pastor.

— Oh, graças a Deus que o senhor veio, moço! Disseram que o senhor entende dessas coisas — exclamou o visconde de Aragão.

O pastor sorriu.

— O senhor é pastor?

— Sou, graças a Deus. Eu estava era precisando de um médium, moço.

O pastor fitou o visconde.

— Mas quem poderia ajudar mais que o servo do Deus Altíssimo?

Silêncio. O visconde não queria desagradar o homem; coçou a nuca e roeu as unhas.

— Já que o senhor veio, queria só que o senhor visse um negócio. Eu precisava que alguém veja o que eu vejo.

— Diga-me onde está o problema. Ali? Ali mesmo? — apontou o visconde com o dedo trêmulo, com os olhos arregalados.

Do salão em que estavam, duas pinturas com olhos avermelhados adornavam as paredes, cujos olhares pareciam persegui-los. Uma mesa ocupava o centro, cercada por cadeiras de madeira entalhadas em estilo barroco. Uma delas estava quebrada, inclinada como um penitente, cuja sombra parecia maior que as demais.

— Não vejo nada — a voz do pastor era firme.

O anfitrião hesitou, o suor escorrendo por sua têmpora. Enquanto o pastor se movia em direção à cadeira, o visconde de Aragão recuou, tirou do bolso um lenço vermelho que pertencera à sua falecida filha e o olhou com tristeza.

— Mas está aí, uai. Eu não estou ficando doido. Estou?

O silêncio assumiu o discurso.

— Desculpe, visconde. Não vejo nada.

O visconde retomou a atenção à cadeira, demonstrando certo desânimo.

— Ora, está bem na sua frente. Vou pegar para o senhor um pouco de cachaça, ou melhor, café e um queijinho para o pastor. Enquanto isso, o senhor venha comigo para a sala. Não consigo ficar aqui perto por muito tempo.

O anfitrião apertou o lenço.

— Acho melhor eu ir embora. Venho amanhã, o culto é de oração no domingo.

O pastor demorou um instante para responder.

— Não, por favor, escute. Está ali na perna daquela cadeira, moço.

O visconde olhou para a cadeira durante alguns segundos.

— Tem hora que eu acho que ela quer me dizer alguma coisa.

O pastor apertou os olhos na direção indicada, depois se voltou para o anfitrião, cruzando os braços.

— Onde conseguiu essa cadeira? O senhor acredita que haja alguma coisa aí?

— Não lembro bem. É coisa de família — o visconde maneava a cabeça, vasculhando memórias. — Minha mãe dizia que a madeira veio de um cemitério. Meu avô jurava que era de uma velha cabana perto da ponte torta, mas não sei ao certo.

A cadeira estava virada para o pastor. A perna traseira esquerda estava quebrada e tinha um estofado vermelho. A madeira escura parecia brilhar sob a luz amarela da sala, como se tivesse vida própria.

— Isso não parece um demônio. É apenas um problema de marcenaria.

— Isso aí não tem marceneiro que dê jeito, moço — rebateu o visconde, visivelmente aflito. — Meu avô dizia que essa madeira não deveria ter sido usada.

O visconde de Aragão baixou os olhos.

— Minha menina morreu sentada aí. Foi nessa maldita perna quebrada. No dia, ela estava linda de vermelho.

— Sinto muito. Farei uma oração por você mais tarde. Quanto à alma, não há mais a fazer. Esperamos que Deus tenha tido misericórdia dela. Por hora, não se preocupe com os mortos. Concentre-se nos vivos, por favor.

O pastor respirou fundo.

— E o seu primo, ele veio porque estou com medo dessa perna de madeira amaldiçoada e também sabe fazer um ótimo café.

O primo preparava um café forte. O pastor tocou a madeira e, num susto, tirou a mão rapidamente. Estranho, estava quente. O cheiro do café forte, preparado pelo primo, invadia a sala.

Enquanto isso, o visconde ruía as unhas. Subitamente, ele se inclinou em um gesto desesperado de súplica:

— Pastor, eu sei que parece absurdo, mas você poderia compreender o que essa cadeira quer nos dizer?

O pastor fitou o móvel no chão. A atenção deteve-se na perna traseira esquerda. Ela tinha uma ponta irregular, manchada de sangue seco.

— Está bem, eu vou orar por todo esse lugar, mas apenas isso.

— Ótimo. Enquanto isso, estaremos lá fora. Assim o senhor terá mais espaço.

— Não exagerem. É apenas uma oração.

Enquanto falava, apoiou as mãos no móvel, rasgando parte do estofado da cadeira. Sob o tecido rasgado, havia sangue. Ninguém falou. Só então o visconde sorriu e pareceu murmurar:

— Continue.

O pastor foi deixado sozinho com a cadeira. Quando se virou para o objeto, notou que uma pequena fumaça saía da madeira. Não se lembrava de ela estar tão perto. Aproximou-se, intrigado, e percebeu que era o sangue secando. Não parecia natural. Na verdade, o sangue não estava seco.

Ele franziu a testa, sorriu para si, pegou no bolso um pequeno frasco de óleo trazido de Jerusalém, molhou o polegar e fez um traço na madeira. Lembrou-se de sua mãe; ele havia usado o mesmo óleo para orar por ela, pedindo a Deus que a curasse. A oração durara semanas, meses, mas mesmo assim ela morrera.

Observando o frasco, o homem murmurou, assentiu com a cabeça e continuou. Iniciou ali uma oração fervorosa no nome santo de Deus, expulsando qualquer elemento maligno. Quando percebeu que o sangue secava, lembrou-se da mãe — também acreditara que Deus a curaria.

A voz lhe falou. A madeira tornou a sangrar.

Fez uma breve pausa, retomou o foco e aumentou o tom da voz, não parando até todo o sangue secar. Então, agradeceu a Deus, invocou o nome do Senhor e disse: "Amém".

Nesse momento, a perna de madeira, que antes parecia verter sangue, já estava com uma cor acastanhada e fria. Percebeu que não havia mais umidade na madeira e um broto de flor vermelha desabrochara na sua parte pontiaguda. Completou baixinho.

O visconde percebeu a mudança e entrou correndo. Parou diante da cadeira, tocou o estofado, mas sua mão recuou, pois estava fria. Começou a chorar.

— Agora ela não volta mais, Jane? — perguntou o pastor.

Silêncio.

— Minha filha…

Desconcertado, o pastor se afastou. Seja o que for, aquilo não era a sua filha. Ninguém disse nada.

O pastor apertou a Bíblia e saiu. Tentou orar mentalmente o Pai-Nosso, mas não conseguiu; só conseguia pensar na morte de sua mãe. Olhou duas vezes para trás. Lá estava a cadeira fria. O visconde chorava.

Suspirou e foi embora. No caminho de volta, havia uma queimadura na sua mão. A queimadura tinha o formato exato daquela flor.