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Nas profundezas do interior mineiro, um casarão colonial abriga segredos sombrios ligados a uma herança de família e a uma tragédia do passado. É nesse cenário sufocante que se desenrola o tenso encontro entre um pastor cético e um visconde atormentado por visões aterrorizantes.
O céu nublava-se quando o pastor atravessou a soleira daquele casarão colonial mineiro. O calor úmido colava-se à pele. As árvores permaneciam imóveis, como se até o vento evitasse tocar aquele lugar.
— Boa noite, Visconde. Sou um pastor.
— Oh, graças a Deus que o senhor veio, moço! Disseram que o senhor entende dessas coisas — exclamou o visconde de Aragão.
O pastor sorriu.
— O senhor é pastor?
— Sou, graças a Deus. Eu estava era precisando de um médium, moço.
O pastor fitou o visconde.
— Mas quem poderia ajudar mais que o servo do Deus Altíssimo?
Silêncio. O visconde não queria desagradar o homem; coçou a nuca e roeu as unhas.
— Já que o senhor veio, queria só que o senhor visse um negócio. Eu precisava que alguém veja o que eu vejo.
— Diga-me onde está o problema. Ali? Ali mesmo? — apontou o visconde com o dedo trêmulo, com os olhos arregalados.
Do salão em que estavam, duas pinturas com olhos avermelhados adornavam as paredes, cujos olhares pareciam persegui-los. Uma mesa ocupava o centro, cercada por cadeiras de madeira entalhadas em estilo barroco. Uma delas estava quebrada, inclinada como um penitente, cuja sombra parecia maior que as demais.
— Não vejo nada — a voz do pastor era firme.
O anfitrião hesitou, o suor escorrendo por sua têmpora. Enquanto o pastor se movia em direção à cadeira, o visconde de Aragão recuou, tirou do bolso um lenço vermelho que pertencera à sua falecida filha e o olhou com tristeza.
— Mas está aí, uai. Eu não estou ficando doido. Estou?
O silêncio assumiu o discurso.
— Desculpe, visconde. Não vejo nada.
O visconde retomou a atenção à cadeira, demonstrando certo desânimo.
— Ora, está bem na sua frente. Vou pegar para o senhor um pouco de cachaça, ou melhor, café e um queijinho para o pastor. Enquanto isso, o senhor venha comigo para a sala. Não consigo ficar aqui perto por muito tempo.
O anfitrião apertou o lenço.
— Acho melhor eu ir embora. Venho amanhã, o culto é de oração no domingo.
O pastor demorou um instante para responder.
— Não, por favor, escute. Está ali na perna daquela cadeira, moço.
O visconde olhou para a cadeira durante alguns segundos.
— Tem hora que eu acho que ela quer me dizer alguma coisa.
O pastor apertou os olhos na direção indicada, depois se voltou para o anfitrião, cruzando os braços.
— Onde conseguiu essa cadeira? O senhor acredita que haja alguma coisa aí?
— Não lembro bem. É coisa de família — o visconde maneava a cabeça, vasculhando memórias. — Minha mãe dizia que a madeira veio de um cemitério. Meu avô jurava que era de uma velha cabana perto da ponte torta, mas não sei ao certo.
A cadeira estava virada para o pastor. A perna traseira esquerda estava quebrada e tinha um estofado vermelho. A madeira escura parecia brilhar sob a luz amarela da sala, como se tivesse vida própria.
— Isso não parece um demônio. É apenas um problema de marcenaria.
— Isso aí não tem marceneiro que dê jeito, moço — rebateu o visconde, visivelmente aflito. — Meu avô dizia que essa madeira não deveria ter sido usada.
O visconde de Aragão baixou os olhos.
— Minha menina morreu sentada aí. Foi nessa maldita perna quebrada. No dia, ela estava linda de vermelho.
— Sinto muito. Farei uma oração por você mais tarde. Quanto à alma, não há mais a fazer. Esperamos que Deus tenha tido misericórdia dela. Por hora, não se preocupe com os mortos. Concentre-se nos vivos, por favor.
O pastor respirou fundo.
— E o seu primo, ele veio porque estou com medo dessa perna de madeira amaldiçoada e também sabe fazer um ótimo café.
O primo preparava um café forte. O pastor tocou a madeira e, num susto, tirou a mão rapidamente. Estranho, estava quente. O cheiro do café forte, preparado pelo primo, invadia a sala.
Enquanto isso, o visconde ruía as unhas. Subitamente, ele se inclinou em um gesto desesperado de súplica:
— Pastor, eu sei que parece absurdo, mas você poderia compreender o que essa cadeira quer nos dizer?
O pastor fitou o móvel no chão. A atenção deteve-se na perna traseira esquerda. Ela tinha uma ponta irregular, manchada de sangue seco.
— Está bem, eu vou orar por todo esse lugar, mas apenas isso.
— Ótimo. Enquanto isso, estaremos lá fora. Assim o senhor terá mais espaço.
— Não exagerem. É apenas uma oração.
Enquanto falava, apoiou as mãos no móvel, rasgando parte do estofado da cadeira. Sob o tecido rasgado, havia sangue. Ninguém falou. Só então o visconde sorriu e pareceu murmurar:
— Continue.
O pastor foi deixado sozinho com a cadeira. Quando se virou para o objeto, notou que uma pequena fumaça saía da madeira. Não se lembrava de ela estar tão perto. Aproximou-se, intrigado, e percebeu que era o sangue secando. Não parecia natural. Na verdade, o sangue não estava seco.
Ele franziu a testa, sorriu para si, pegou no bolso um pequeno frasco de óleo trazido de Jerusalém, molhou o polegar e fez um traço na madeira. Lembrou-se de sua mãe; ele havia usado o mesmo óleo para orar por ela, pedindo a Deus que a curasse. A oração durara semanas, meses, mas mesmo assim ela morrera.
Observando o frasco, o homem murmurou, assentiu com a cabeça e continuou. Iniciou ali uma oração fervorosa no nome santo de Deus, expulsando qualquer elemento maligno. Quando percebeu que o sangue secava, lembrou-se da mãe — também acreditara que Deus a curaria.
A voz lhe falou. A madeira tornou a sangrar.
Fez uma breve pausa, retomou o foco e aumentou o tom da voz, não parando até todo o sangue secar. Então, agradeceu a Deus, invocou o nome do Senhor e disse: "Amém".
Nesse momento, a perna de madeira, que antes parecia verter sangue, já estava com uma cor acastanhada e fria. Percebeu que não havia mais umidade na madeira e um broto de flor vermelha desabrochara na sua parte pontiaguda. Completou baixinho.
O visconde percebeu a mudança e entrou correndo. Parou diante da cadeira, tocou o estofado, mas sua mão recuou, pois estava fria. Começou a chorar.
— Agora ela não volta mais, Jane? — perguntou o pastor.
Silêncio.
— Minha filha…
Desconcertado, o pastor se afastou. Seja o que for, aquilo não era a sua filha. Ninguém disse nada.
O pastor apertou a Bíblia e saiu. Tentou orar mentalmente o Pai-Nosso, mas não conseguiu; só conseguia pensar na morte de sua mãe. Olhou duas vezes para trás. Lá estava a cadeira fria. O visconde chorava.
Suspirou e foi embora. No caminho de volta, havia uma queimadura na sua mão. A queimadura tinha o formato exato daquela flor.