A Odisseia de Homero explora profundamente os temas da identidade, da memória e da jornada do herói através das inúmeras provações enfrentadas por Odisseu. Nesta análise da obra épica, examina-se como os diferentes obstáculos e ameaças encontrados pelo protagonista ao longo de suas aventuras colocam em risco não apenas sua vida, mas quem ele é.
Quando Telêmaco vai à assembleia para falar sobre o que está acontecendo, ele se joga no chão e chora, pois ainda não sabe como se comportar e demonstra imaturidade. Os presentes sentem uma comiseração constrangedora, tanto que logo um dos homens se opõe a ele, criticando aquela atitude infantil. Ele está em uma jornada de amadurecimento cujos mecanismos ainda desconhece. Embora já pareça perder a esperança, ao primeiro indício de que o pai está vivo — transmitido pelas palavras de Atena disfarçada —, ele imediatamente sai à sua procura. Logo de início, portanto, o tema da identidade assume centralidade por meio desse drama de Telêmaco.
Ao longo da história, contudo, o autor brinca constantemente com a questão da identidade, sobretudo no que diz respeito a Odisseu. Se com Telêmaco o tom é eminentemente dramático, com Odisseu a abordagem se torna bem mais curiosa e criativa, uma vez que sua individualidade entra diretamente em jogo nas grandes aventuras. Apenas para ilustrar, Odisseu chega à terra dos lotófagos. Trata-se de uma população cuja subsistência baseia-se no consumo de uma flor, a flor de lótus — cuja simbologia, vale ressaltar, não guarda nenhuma relação com a cultura japonesa, sendo um equívoco tentar estabelecer esse tipo de intertexto.
O efeito dessa planta é devastador: quem a consome torna-se viciado, esquece o restante da vida, perde a consciência de quem é e passa a se importar apenas com o desejo de continuar comendo a lótus até morrer. Ao desembarcar na terra dos lotófagos, Odisseu depara-se com essa gente prostrada, em uma condição que remete ao vício em drogas — um tema, aliás, recorrente na narrativa. O aspecto crucial aqui, no tocante à identidade, é que quando os companheiros de Ulisses começam a comer o lótus, tornam-se incapazes de retornar por vontade própria; ficam viciados, perdem a memória e a própria identidade de forma absoluta. Dessa forma, os perigos enfrentados por Ulisses frequentemente ameaçam sua identidade, sua memória e seu passado, arriscando interromper prematuramente a jornada do herói, algo fundamental nos mitos e perfeitamente compreendido por Odisseu.
Outro exemplo claro ocorre com Circe, uma semideusa e ninfa — ou melhor, uma deusa — que manipula a magia. Embora a relação exata entre os deuses gregos e a prática da magia ainda seja um campo complexo de estudo, visto que quase nenhuma divindade a utiliza, Circe certamente o faz. Quando os homens chegam ao seu domínio, ela lhes oferece alimento e, ao encostar uma vara em suas cabeças, transforma-os em porcos. Embora a mente deles continue funcionando, perdem a capacidade de se comunicar e passam a funcionar como o gado da deusa.
Esse destino por pouco não atinge o próprio Odisseu, ameaçando mais uma vez anular sua identidade, não fosse pela intervenção de Hermes. Circe representa mais um desafio que põe em risco a memória de Odisseu, ou a memória que os outros têm dele, visto que ele próprio estaria prestes a se transformar em porco, interrompendo sua jornada e colapsando sua individualidade.
O mesmo padrão repete-se com Calipso, uma ninfa e deusa ainda mais poderosa, que o mantém aprisionado. Apaixonada por ele, Calipso tenta de todas as formas fazê-lo abandonar quem ele é, a ponto de lhe oferecer a imortalidade em troca da renúncia à sua identidade. Surpreendentemente, Odisseu recusa a oferta. Ele demonstra uma força de vontade extraordinária ao rejeitar a condição imortal, indo todos os dias à praia chorar copiosamente de saudades de casa. Ele deseja continuar sendo Ulisses, o homem de muitos artifícios — embora, curiosamente, não consiga encontrar nenhum estratagema para enganar Calipso e escapar por meios próprios. Trata-se, portanto, de mais um perigo a que foi exposto e que colocou diretamente em risco a sua identidade.