Rosto ameno, olhos de fada, em folhas tingidas vestido,
Vê o Outubro moreno demorar-se junto aos feixes de ouro erguido;
Carvalho e bolota na grinalda, fruto e odre nas mãos traz,
Místico peregrino de terras distantes rumo a eras mais jocosas, jamais.
Pisando leve, respirando brando, lançando feitiços na mata e no ermo,
Festões de videira em roxo fardo, enfeitiçando galhos num rubor terno;
Trazendo aos ceifeiros seu repouso quando o labor da colheita findou,
E o tesouro outonal, já guardado, à porta festiva se revelou.
Levando sonhos a quem escuta ao soar sua trompa fada
Onde o vapor de cristal cintila além das colinas na madrugada;
Onde o poente paira, brincando no pátio fértil da cabana,
Até que a noite críptica vague, em mitra alta e estrelada.
Sonhos elusivos e incertos, fugazes como o ano que morre,
Glimpses por trás da cortina, onde o medo e o afeto concorrem;
Memórias que encantam e chamam, cena e rosto que o tempo levou,
Fantasmas além do mundo que calculamos, vindos do abismo que ecoou.
Subindo como em necromancia, visões bem-vindas prendem o olhar;
Campos idos invadem a fantasia, a luz de ouro a brilhar.
Antigas alamedas frescas e curvas levam a granjas e estábulos lembrados,
Onde a fumaça espiralada ergue-se dos lares outonais adorados.
Posso capturar o tumulto flamejante dos carvalhos e olmos que conheço
E a rubra e ofegante quietude do brilho espectral do entardecer que desço;
E a chaminé da fazenda espiando pela sombra do bordo escarlate,
E os frutos magníficos da colheita postos à porta em ornato e combate.
Verdes que o vermelho e o amarelo salpicam, tons que o céu em chamas imitam;
Abóbora túmida, maçã rosada, uvas de púrpura que os cachos agitam;
E por trás do pomar que se estende onde os prados ondulantes repousam,
Vejo os feixes de milho secando e o restolho que as campinas debruçam.
Céus vivos de asas ao sul, corvos empoleirados no feixe e no feno,
Bosques com trombetas ecoando enquanto a presa foge do bando ameno;
Camponeses com nozes e feixes marchando de volta ao pátio crepuscular
Para em torno da lareira e da sidra, aquecidos, cochilar.
Notas de sinos de aldeia elevam-se, em paz com seu tom vespertino,
Enquanto uma luz fantasmagórica jorra da lua do caçador em seu destino;
Selvagem sobre os montes arborizados, brilhando de forma estranha nos rios,
Inundações amarelas de fontes mal-assombradas, bruxas dançando nos desvios,
Visões semivistas do abismo externo, sons semiouvidos de esferas além,
Batem com insistência duende nos olhos e ouvidos de quem tem.
Pensamentos semitestados e anseios sóbrios, disformes como a fumaça outonal,
Estas são tuas dádivas, Outubro obscuro, estes os símbolos do teu jugo mortal.
Rosto ameno, olhos de fada, em folhas tingidas vestido,
Vê o Outubro moreno demorar-se junto aos feixes de ouro erguido;
Carvalho e bolota na grinalda, fruto e odre nas mãos traz,
Místico peregrino de terras distantes rumo a eras mais jocosas, jamais.