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A Lei dos GÊNEROS (Parte 1) ••• Panda

A Lei dos Gêneros: Entenda a Teoria de Jacques Derrida

O estudo dos gêneros literários muitas vezes esbarra em fronteiras fluidas, em que obras contemporâneas e clássicas parecem transitar por múltiplas formas de expressão simultaneamente. A partir da reflexão do filósofo francês Jacques Derrida sobre o tema, este vídeo explora a complexa relação entre aquilo a que um texto "pertence" e aquilo de que ele "participa".

Quando pensamos em uma obra literária, ela geralmente possui um título, um subtítulo e um corpo de texto. Se formos ler a literatura contemporânea, percebemos que muitas vezes um texto não pertence a um único gênero, mas transita por vários. Ficamos indecisos: qual é o principal, o secundário, o terciário? Ou será que o texto apenas imita traços de vários gêneros? Tentando resolver esse problema, o filósofo Jacques Derrida estabeleceu a chamada "lei dos gêneros". Ele afirmou que um texto sempre participa de um ou mais gêneros, mas fez uma distinção fundamental entre participar e pertencer.

Quando uma obra participa de um único gênero, ela está totalmente clausurada nele; portanto, ela de fato pertence a ele e não escapa dali. No entanto, a maior parte das obras existentes, sobretudo na alta literatura e através dos séculos, participa de diversos gêneros. O mais interessante é que essa participação muitas vezes se dá de maneira póstuma.

Tomemos como exemplo a obra de Homero, a *Ilíada* e a *Odisseia* — assumindo aqui, por convenvencia e probabilidade, que tenham sido escritas por um único autor. Na Grécia arcaica, do século V para trás, os textos homéricos não eram considerados literatura, mas sim textos religiosos. As crianças gregas os aprendiam nas escolas como textos sagrados e divinos, de forma muito parecida com a forma como se estudava a Bíblia em modelos educacionais tradicionais ou como funcionam as escolas corânicas até hoje, e não como historinhas para entretenimento.

Contudo, já no Período Clássico e no período helênico, os textos homéricos passaram a ter uma ambivalência: eram tanto textos religiosos quanto poéticos. As pessoas sentiam-se no direito de aproveitar aqueles textos de maneira meramente poética, algo que deu origem a paródias como *A Batalha entre os Ratos e os Sapos*. Nesse momento, a *Ilíada* e a *Odisseia* tornaram-se simultaneamente obras religiosas e literárias.

Hoje em dia, com o desaparecimento daquela sociedade e de seu culto, esses textos deixaram de servir de apoio para uma ordem religiosa ou social viva. Tornaram-se tesouros arqueológicos, mantendo-se ao mesmo tempo como textos literários e epopeias. Ou seja, um texto que antes participava de apenas um gênero — e, portanto, pertencia exclusivamente a ele — passou a participar de múltiplos gêneros, mudando sua natureza ao longo do tempo. Com essa dinâmica histórica, o pertencimento rígido dá lugar a uma fluida participação que se transforma continuamente.