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A Lei dos GÊNEROS (Parte 2) ••• Panda

A Lei dos Gêneros (Parte 2): A Criação dos Gêneros

Nesta continuação da discussão sobre a teoria dos gêneros textuais e literários, aborda-se como obras específicas se relacionam com a criação e a participação em diferentes gêneros ao longo da história. O autor explora exemplos práticos, como os "Ensaios" de Michel de Montaigne, para explicar como textos inovadores podem inaugurar novas categorias e retroativamente incluir obras anteriores.

Continuando a falar sobre a questão do pertencimento e da participação nos gêneros, vale lembrar que, se uma obra participa de um único gênero, ela tanto participa quanto pertence a ele. Quando passa a participar de dois ou mais, o pertencimento deixa de existir, restando apenas a participação.

Existem elementos puramente literários que exemplificam isso. Um caso clássico é a obra *Os Ensaios*, de Michel de Montaigne. Montaigne não inventou do nada o jeito de escrever daquele tipo, mas ele foi o primeiro a fazer aquilo anunciando-se como algo diferente, porque sentia que nenhum gênero conhecido de sua época permitia que ele se expressasse da maneira que desejava. Ele fez tentativas (*essais*, em francês), escrevendo vários capítulos que funcionavam como tentativas de expressar a si mesmo. No prefácio do primeiro livro, ele explica aos familiares e amigos que escreveu aquilo para quem o conhecia e amava, pedindo para o leitor comum não perder tempo com o livro. Mesmo assim, a obra foi publicada e acabou criando um gênero.

Antes dele, já havia obras que faziam algo parecido, mas não de forma sistemática. O autor podia inserir um pensamento ou um protesto político na boca de um personagem, ou fragmentar dados biográficos. Victor Hugo, por exemplo, inseriu um sonho exato seu na boca do condenado em *O Último Dia de um Condenado* — obra sobre a qual fizemos live na semana passada. Esse tipo de recurso já acontecia antes e depois de Montaigne, mas ele foi o primeiro a fazer isso de forma direta, criando um livro de argumentação cujo foco principal não era apenas argumentar, mas deixar sua subjetividade vazar abertamente em todos os ensaios dos três volumes.

Em outras obras, como o *Curso de Linguística Geral* de Ferdinand de Saussure, as marcas de subjetividade parecem acidentais, como o calor que emana de uma lâmpada acesa para produzir luz. Já em Montaigne, a subjetividade é proposital e caminha lado a lado com a argumentação. Com isso, ele criou um gênero que acabou englobando obras anteriores que não participavam dele simplesmente porque o gênero não existia historicamente. Essas obras anteriores passam, então, a ser consideradas ensaios também. Isso pode soar anacrônico, mas é o que acontece, da mesma forma que uma obra antiga que funciona exatamente como uma autobiografia é, de fato, uma autobiografia, mesmo que a palavra não existisse na época.

Há também o caso de obras que tentam escapar de todo e qualquer gênero, buscando não pertencer a nenhum. Essa tentativa é algo relativamente novo, intensificando-se do século XIX para o frente, especialmente no final do século XIX e início do século XX. No entanto, a lei dos gêneros diz o seguinte: uma obra consegue escapar do *pertencimento*, mas jamais da *participação*.

Isso acontece porque basta que outra obra, no passado ou no futuro, tenha feito algo análogo ou tido elementos semelhantes para que se forme um grupo, um gênero. No século XX em diante, é praticamente impossível escrever algo que não tenha absolutamente nada em comum com o que já foi escrito. Basta que seja parecido para que ambas pertençam ao mesmo gênero, mesmo que ele ainda não tenha um nome.

É exatamente isso o que a teoria de Jacques Derrida resolve: uma obra pode ser romance, ensaio e o que mais for, participando de vários gêneros. Se ela participa de dois ou mais, não pertence a nenhum; se participa de um só, pertence a ele. É assim que se resolve o problema dos gêneros.