Menu fechado

Teatro sem Literatura? ••• Panda

Teatro sem Literatura? A essência da arte cênica | Panda

O teatro é uma arte autônoma, irredutível à literatura, à encenação, à cenografia ou à dança. Partindo de um diálogo presente no livro *A Arte do Teatro*, escrito por Edward Gordon Craig entre 1905 e 1911, é possível compreender a natureza complexa dessa forma artística e repensar o papel da dramaturgia em relação ao texto literário.

Na obra de Craig, um diretor de teatro conversa com um amador entusiasmado, mas inexperiente. Ao ser questionado sobre a essência do teatro, o amador sugere sucessivamente que ela residiria no drama e na performance dos atores, na cenografia e no palco, ou no texto literário da peça. Todas essas hipóteses são refutadas pelo diretor. Elementos como a dança, a cenografia, a atuação e a escrita literária são contingentes, mas nenhum deles, isoladamente, constitui a essência do teatro.

A literatura, por exemplo, encerra-se no próprio texto escrito pelo poeta. O trabalho literário de William Shakespeare restringe-se às suas peças e poemas publicados; o seu trabalho como dramaturgo, no entanto, começava apenas quando ele utilizava aquele texto para direcionar atores e espacializar a ação no palco. A dramaturgia, portanto, complementa a poesia, mas pertence a uma esfera distinta. Para Craig, a verdadeira "arte do teatro" em sua forma pura sequer existia plenamente na sua época, pois ela só se realiza de fato quando todos esses elementos convergem de maneira indissociável, não podendo ser plenamente vivenciada por meio de nenhuma de suas partes isoladas.

Refletindo sobre essa premissa, surge o questionamento acerca do que define genuinamente um autor puramente teatral, diferenciando-o de um poeta dramático como Shakespeare. Enquanto a literatura oferece uma experiência estética completa e fechada ao leitor, um texto estritamente teatral em linhas gerais — que fornecesse apenas a estrutura mecânica das interações, emoções genéricas e gestos vagos, deixando as especificidades das falas e reações a cargo de cada trupe de atores — funcionaria quase como um esqueleto narrativo.

Essa escrita estrutural, embora exija do leitor um esforço interpretativo hercúleo que inviabiliza o gozo estético tradicional do livro, revela o verdadeiro desafio e a genialidade do autor de teatro: criar uma engrenagem dramática tão precisa e original que, mesmo operando por meio de diretrizes abertas, sirva de alicerce para interpretações frutíferas, duradouras e aclamadas pelo público e pela crítica.