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A Biblioteca de Babel – Jorge Luis Borges, PARTE 1 ••• Panda

A Biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges - Parte 1

O conto "A Biblioteca de Babel", de Jorge Luis Borges, presente na coletânea *Ficções*, é uma obra de proporções diminutas — ocupando cerca de dez páginas —, mas que abriga uma complexidade avassaladora. Narrado na primeira pessoa por um habitante anônimo que nasceu e morrerá no mesmo lugar, o texto dispensa enredos tradicionais para se dedicar à descrição minuciosa de um universo inescrutável. Esse mundo é a própria Biblioteca, composta por um número indeterminado, talvez infinito, de galerias hexagonais conectadas por poços de ventilação, corrimãos baixos, sanitários minúsculos e escadas em espiral que se perdem no infinito. Em cada hexágono, há estantes com prateleiras e gavetas que armazenam volumes de formato padronizado, cujas páginas contêm linhas de caracteres que, majoritariamente, parecem não fazer sentido algum, formando uma cacofonia de letras aleatórias.

A estrutura física desse universo é marcada por uma simetria rigorosa e desconcertante. Cada parede dos hexágonos abriga estantes milimetricamente calculadas, com quantidades exatas de livros, páginas, linhas e caracteres baseados em um alfabeto limitado de vinte e cinco símbolos, que incluem as letras, o espaço, o ponto e a vírgula. É postulado dentro desse universo que todas as combinações possíveis desses caracteres — ou seja, tudo o que já foi ou poderá ser escrito em qualquer língua — já se encontram registradas em algum lugar da Biblioteca. Isso inclui verdades fundamentais, profecias, catálogos de catálogos, a história de cada indivíduo e até mesmo a refutação perfeita de cada um desses volumes. No entanto, o caos reside no conteúdo: os títulos são enganosos, as páginas exibem sequências caóticas de letras e a imensa maioria dos livros é completamente ilegível, gerando desespero nos habitantes.

Diante dessa realidade sufocante, a população reage de formas distintas. Muitos tentam decifrar os códigos ocultos por meio de seitas místicas e do delírio; outros promovem inquisições e queimas de livros considerados inúteis ou heréticos; e há aqueles que sucumbem à loucura e ao suicídio, atirando-se pelas balaustradas em direção ao vazio infinito. O próprio narrador, já idoso e quase cego, reflete sobre a decadência da espécie humana, que definha em meio a epidemias, doenças pulmonares causadas pela poeira dos livros e pelo desespero existencial. A figura de um "bibliotecário de Deus" ou de um livro definitivo que explique o sentido de tudo alimenta esperanças messiânicas, mas nunca foi comprovada.

Um ponto central da análise da obra reside na coexistência e equivalência entre o caos e a ordem. Enquanto a arquitetura do mundo — os hexágonos, as estantes, a contagem dos caracteres — exibe uma ordem geométrica e matemática absoluta, o conteúdo dos livros e o destino dos homens mergulham no mais profundo caos. Essa dualidade também se reflete na humanidade e nos próprios indivíduos, divididos entre a racionalidade de suas buscas e o absurdo de sua condição. A Biblioteca funciona, portanto, como uma imensa alegoria do cosmos e da condição humana, assemelhando-se a uma versão física e inescapável da caverna de Platão, porém sem nenhuma saída visível para o exterior.

Para resolver o paradoxo de saber se a Biblioteca é finita ou infinita, o narrador propõe uma solução elegante no desfecho de seu testemunho. Sendo o número de caracteres e combinações textuais limitado, o conteúdo total dos livros é finito; no entanto, como a disposição desses volumes se repete ciclicamente pelo espaço, a Biblioteca é espacialmente ilimitada e periódica. Se um viajante percorresse os corredores por séculos a fio, encontraria os mesmos livros repetidos na mesma desordem, o que, por fim, constitui uma ordem superior. Essa constatação oferece um consolo melancólico à solidão do narrador, que vê na escrita metódica de seu relato uma forma de distração diante da vertigem e do vazio que o cercam.