A primeira palavra da Ilíada é “cólera”. O autor escolheu um termo forte para iniciar o poema, mas nas traduções ao português a frase de abertura costuma perder o impacto. Ao analisar a estrutura da frase original em grego, percebe‑se que as palavras usadas funcionam muito bem na língua original, que tem regras sintáticas diferentes das do português.
Na gramática grega, a ordem dos termos pode ser alterada sem mudar o sentido, porque os nomes são declinados de acordo com a sua função sintática. Assim, ao inverter “Mateus bateu no panda” para “O panda bateu no Mateus”, a frase em português muda de sentido, enquanto em grego a troca de posição não altera o significado, já que os casos (nominativo, acusativo etc.) indicam quem é o agente e quem é o paciente. Essa flexibilidade facilita a construção poética em grego, mas cria dificuldades ao se tentar reproduzir a mesma sintaxe em português.
Ao procurar traduções, encontrei uma versão antiga – cujo tradutor não me lembro – que tentou adaptar o verso ao metro hexâmetro dactílico do original. O hexâmetro dactílico depende da sonoridade da língua grega, que possui vogais longas e curtas (vogais breves) inexistentes em português. Por isso, o tradutor optou por substituir a métrica por acentos em posições específicas, seguindo a entonação das palavras.
Na primeira tentativa, a tradução ficou assim: “Ó, canta‑me, ó deusa, funesta cólera de Aquiles, pélida”. Se retirarmos “ó deusa”, o verso seria “Canta‑me, ó funesta cólera de Aquiles, pélida”. O “ó deusa” no meio soa estranho, então o tradutor reformulou: “Ó, canta‑me, ó deusa, a cólera de Aquiles, pélida”. Essa versão soa muito melhor; deixei o texto nos comentários para que vocês comparem as diferenças. Embora a métrica não tenha sido preservada, a tradução transmite bem o sentido.
Outra versão conseguiu colocar “cólera” no início, mas substituiu o termo por “ira”: “Ó, ira, deusa, celebra do peleio Aquiles”. Essa tradução, porém, apresenta problemas de estilo e fidelidade ao original, apesar de ter conseguido iniciar a frase com a palavra desejada.
Essas dificuldades demonstram como a sintaxe grega e a métrica dactílica complicam a transposição para o português. Até o momento, não encontrei nenhuma versão totalmente em prosa que supere esses obstáculos, mas acredito que uma abordagem em prosa poderia contornar as limitações impostas pela estrutura poética grega.