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ILÍADA: palavras estranhas e epítetos ••• Lucas Rosalem

Ilíada: palavras difíceis e epítetos na tradução

A discussão gira em torno das dificuldades que surgem ao traduzir a *Ilíada*, sobretudo quando nos deparamos com palavras incomuns e epítetos que, muitas vezes, exigem pesquisa rápida para garantir a compreensão correta do texto.

Um obstáculo menor que a própria sintaxe são as palavras difíceis que aparecem nas traduções. Quando surge uma dúvida, basta digitar o termo no Google; se estiver à mesa com notebook ou celular, a pesquisa resolve imediatamente.

Um problema semelhante são os epítetos, esses nomes ou títulos que costumam acompanhar os personagens, mas que às vezes aparecem isolados. Por exemplo, Aquiles é chamado de “pés velozes”, Apolo é citado como “arqueiro” ou “flecheiro que acerta ao longe”. Essa prática se repete com todos os personagens que têm alguma importância na história, e muitos deles acumulam diversos epítetos. O mais incômodo é quando o epíteto surge sozinho, como no caso de Pátroclo, que em certos momentos é apenas referido como “Escudeiro de Aquiles”. Sem o contexto, pode parecer que se trata de outra pessoa menos relevante, mas trata‑se do mesmo Pátroclo.

Os epítetos funcionam como adjetivos que qualificam os personagens; às vezes são apenas adjetivações simples, outras vezes revelam aspectos mais profundos. Eles também ajudam a ajustar a métrica do verso. Se o poeta precisa de mais sílabas para fechar o metro, pode escolher um epíteto que tenha a quantidade necessária: um epíteto de cinco sílabas preenche cinco, um de oito preenche oito, e assim por diante. Essa estratégia pode parecer repetitiva e até enjoativa no início, mas, com o tempo, o leitor acaba apreciando a regularidade.

É fundamental lembrar a que personagem cada epíteto pertence. No início da obra, Aquiles é chamado de “Divino Aquiles”, o que pode levar a pensar que ele seria um semideus. Contudo, outros personagens também recebem o epíteto “Divino”. Em um caso, um personagem é primeiro chamado de “Divino” e depois de “de aspecto Divino”, indicando que, embora não fosse um semideus, possuía um traço divino. Essa multiplicidade de qualificações pode confundir, mas revela a riqueza da linguagem épica.

A métrica escrita da *Ilíada* não é perfeita, pois, como a obra tem origem oral, os poetas adaptavam as palavras para se adequar ao ritmo e à musicalidade, usando diferentes sotaques regionais do grego. Essa flexibilidade permitia que o poema mantivesse sua sonoridade ao ser recitado. Pretendo fazer um vídeo mais detalhado sobre esse aspecto, pois gosto muito de analisar como os epítetos contribuem para a estrutura poética.

Entre os epítetos que mais me marcam está “musculoso”, que aparece em diversas passagens e me lembra um conto sobre o “amigo de Gadara”. Também lembro do “Fabrício”, que ganhou o apelido de “amigo do Gadara” em um desafio sobre “leite de macho”, sem nenhuma conotação sexual. Esse personagem acabou sendo chamado de “Gadara dos mil ardis”, um epíteto que faz alusão ao de Odisseu, “de mil ardis”, e que se encaixa perfeitamente na tradição de atribuir habilidades extraordinárias aos heróis.