O vídeo discute a forma como Tolstói constrói os personagens em *A Morte de Ivan Ilitch*, abordando o uso de estereótipos, a ênfase nos aspectos negativos e a maneira como o narrador equilibra características boas e ruins.
O livro é ficcional, mas não há mortes reais entre os personagens que o autor descreve. Para contar a história, Tolstói precisa construir os personagens de modo que o que ele quer transmitir fique claro. Ele exagera certas características, sobretudo as negativas, para que o leitor perceba imediatamente o que o autor pretende mostrar.
Essa ênfase nas falhas se manifesta em um padrão de descrição: as partes ruins de um personagem são detalhadas com frequência e profundidade, enquanto as qualidades boas são apresentadas de forma breve e esporádica. Assim, a atenção recai mais sobre os defeitos do que sobre os méritos.
Uma analogia útil é imaginar alguém escrevendo uma biografia “zoada” de outra pessoa. Em vez de relatar toda a vida, o biografado escolhe apenas alguns momentos desagradáveis, talvez cinco entre centenas, para compor um retrato que parece cinza e sombrio. O resultado é um recorte biográfico que destaca as falhas, tornando o sujeito um “merda” aos olhos do leitor. Esse recorte seletivo é, em essência, o que chamamos de estereótipo: ao descrever um estereótipo, não se está apresentando a totalidade do indivíduo, mas apenas um fragmento que serve a um propósito narrativo.
O estilo de Tolstói nesse romance é, ao mesmo tempo, realista e deliberadamente seletivo. Ele não evita conectar as qualidades positivas a aspectos negativos, nem o contrário; ao escrever sobre o lado bom, sempre o liga a algo desfavorável, e ao aprofundar as falhas, o faz de forma minuciosa. Embora eu discorde da ideia de que os personagens sejam meramente estereotipados, compreendo a impressão que a obra causa, de que o foco recai predominantemente sobre o lado negativo.
Um exemplo claro é o personagem Gerasim. Ele fala com o mestre de maneira menos direta porque foi ensinado a usar formas de tratamento mais formais. Em vez de dizer “tu”, que seria mais íntimo, ele usa “vós” ou outras construções que indicam respeito. Em um momento, Gerasim tenta usar “tu” ao conversar com Ivan, mas o narrador aponta que ele se excede, mostrando que a escolha de tratamento revela a relação de conveniência entre eles.
A parte positiva de Gerasim aparece de forma marcante no capítulo nove, onde ele é descrito com frequência e detalhe. Nesse trecho, o narrador revela que Gerasim tenta esconder um sorriso ao perceber que Ivan está morrendo. Ele não quer que a alegria evidente torne a situação ainda mais dolorosa para o enfermo; portanto, controla a expressão para não ofender Ivan, ao mesmo tempo em que mantém sua própria vivacidade interior.
Gerasim compartilha atributos comuns a outros personagens: vigor da juventude, musculatura, força e competência no trabalho. O que o diferencia, porém, não é um traço exclusivo, mas o fato de que ele, assim como o filho de Ivan Ilyich, não finge que nada está acontecendo. Ambos se recusam a cair na “má‑fé” sartriana – a pretensão de que a realidade não existe ou de que se pode enganar a si mesmo. Essa recusa de fingir a inexistência do sofrimento contrasta com a atitude de outros personagens, que muitas vezes se enganam ou se iludem.
A esposa de Ivan ilustra outra faceta da “má‑fé”. Ela sente mais do que os demais, mas tenta se enganar, negando a gravidade da situação. Quando chora, o texto registra apenas uma frase breve; quando demonstra falsidade ou irritação, o narrador dedica um parágrafo inteiro. Assim, a frequência e a intensidade das descrições variam de acordo com a importância que Tolstói atribui a cada aspecto da personalidade.
Em resumo, Tolstói apresenta as qualidades boas dos personagens de maneira rápida e rara, enquanto as falhas são descritas com maior frequência e profundidade. Essa estratégia faz com que, à primeira vista, pareça que todos os personagens são estereótipos negativos, mas, ao analisar o texto, percebe‑se que o autor utiliza o recorte seletivo para revelar a complexidade da condição humana.