Neste trecho de uma discussão a respeito do diálogo *Ípias Maior* de Platão, os debatedores analisam as tentativas infrutíferas de Ípias de definir o conceito de "belo" e os argumentos utilizados por Sócrates para desmantelar essas definições.
O Ípias tem a cara de que, se vivesse nos dias atuais, falaria: "O belo é um cantor de pagode". Exatamente, esse é o absoluto dele. Aí o Sócrates fala: "Ótimo, respondestes admiravelmente". Então, tem uma coisa interessante que acontece na DC Comics, nos quadrinhos e nas animações também, que é o seguinte: o Superman é muito inteligente, a inteligência dele está muito acima da média dos humanos, muito acima. Só que o Batman é o cara *overpower*, ele é muito inteligente mesmo, tem um cérebro descomunal no raciocínio. Só que como é que você faz para mostrar o Batman sendo muito mais inteligente do lado de uma criatura como o Superman, que está muito acima da capacidade de raciocínio dos humanos? Você tem que nerfar o Superman. E é difícil fazer isso, cara. Por isso que eu odeio filmes e séries de investigação, esse tipo de coisa, porque é sempre idiota. Por isso eu pago o pau para o Sherlock Holmes, velho, porque ele conseguiu fazer a inteligência na medida certa. O meu irmão citou aqui o Hegel, mas só para quem conhece o vídeo lá vai saber o que é direito. Depois vocês têm que voltar aqui para ver o que ele escreveu, hein?
Então parece que é isso que está acontecendo aqui. Vocês não tiveram essa sensação? O Ípias não tem como ser esse cara tão burro assim. Por que não tinha? Porque o Sócrates explicou para ele: "Eu não tô querendo saber uma coisa bela, eu quero saber o belo, aquilo que distingue o feio do belo nas coisas". E ele faz um argumento circular, né? O que que é belo? É a mulher bela. Mas o que é o belo da mulher bela? É o belo da mulher bela. Aí faz o argumento circular, cara. Tanto é que, se você der uma olhada por fora em quem foi Ípias, você vê que ele fundou negócios, tem invenções dele de matemática. Ele foi um dos primeiros… eu descobri hoje que ele tinha uma filosofia que você pode considerar um protodireito natural, esse Ípias. Ah, eu não sei sobre isso que você falou, velho. É um negócio que você olha assim e fala: "Pô, não parece, não tá coerente", ele foi nerfadoaço aqui pelo Platão para o mestre dele ficar inteligente, né? Mas eu não comprei isso aqui de jeito nenhum.
Mas vai ficando pior depois, né? Vai ficando pior. A discussão até que é legal, é engraçada. O Sócrates diz que aquilo que deixa a jovem bela não é o que deixa belas todas as coisas, né? Então eu achei nessa hora que, beleza, ele identificou o equívoco aqui do Ípias. Então ele vai usar isso para dizer que esse conceito não é um conceito coisa nenhuma, mas não é por causa disso que ele vai desmerecer essa primeira afirmação burra do Ípias, porque na sequência ele vai citar vários exemplos de coisas belas — a panela, não sei o quê, um monte de coisa lá — para depois fazer uma citação do Heráclito que eu não conhecia. Deixa eu pegar aqui, ela é assim, ó, que é onde começa toda a cagada: "O mais belo símio é feio comparado aos homens".
Pedro, para que que o Sócrates usa essa frase aí? Lembra? O que o Sócrates quer mostrar é que essa lógica do Ípias está errada no sentido de que, se pegamos o exemplo da mulher bela, essa mulher é bela para aquele fulano, aquele outro fulano, aquele outro fulano. Só que se eu elevar o grau e comparar a mulher bela a deuses, essa mulher se torna feia. Ela não se torna menos bonita, de acordo com o Ípias, não, ela se torna feia. Ué, mas se ela tem o elemento da beleza, do que é belo, aquele elemento deixou de existir quando se colocou um comparativo a deuses? Perdeu-se o elemento que a fazia ser bela? Não me parece fazer sentido, entende? É a mesma coisa do símio. Se você bota o símio mais belo e compara com a mulher, quer dizer que o símio perdeu o elemento da beleza? Isso foi o que eu entendi que foi uma forma de mostrar o equívoco da definição de belo do Ípias. Só que acaba que é outra falácia também, né? Ele está realmente confundindo as coisas de novo. Por exemplo, se você pegar um chimpanzé que teve uma doença de pele, que acabou de rolar montanha abaixo, está todo estropiado e com a cara de assustado, você olha e diz: "Ó, este aqui é feio". E aí você pega um outro que está bonito: "Olha como ele está lindíssimo, o pelo arrumadinho, ele é um perfeito exemplar de chimpanzé". Então você poderia, comparando os dois, dizer que um está mais dentro daquelas definições do que seria um chimpanzé exemplar, o ideal, digamos assim. Ele é um exemplar belo de chimpanzé. Mas aí você fala: "Mas ele é mais bonito que a sua mulher?".
Olha, eu acho engraçado, porque ele também faz comparações que não cabem. Como é que você vai comparar naturezas diferentes, o símio e o ser humano? É uma comparação difícil de se fazer, não é adequada, não faz muito sentido. Quer dizer, você pode falar assim: "As mulheres, via de regra, são mais bonitas do que chimpanzês". Você pode dizer isso. Olha, eu acho que foi um absurdo proposital que ele soltou aí só para dar aquela… Mas a questão aqui é a seguinte: não resolve nada. O Sócrates, com essa afirmação de dizer que você pode até ter uma coisa bonita, mas perto de uma coisa mais bonita ainda aquilo ali deixa de ser bonito e fica feio, está errado e não resolve nada. É como se fosse a não existência de algo: o outro referencial é belo, só que a partir do momento que aquela outra coisa passa a existir, ele perde a característica de beleza. Como é que funciona? Como é que ele perde isso? Como se dá essa perda do belo?
Não, não é que perde. Ele está querendo dizer que se você compara uma coisa que supostamente era bela com outra coisa mais bela, e portanto você volta a olhar para a primeira com desconfiança, isso significa que esse não é o critério para você identificar o conceito de belo. É algo mais parecido com isso que eu entendi: o Ípias falou "uma bela jovem na opinião de todo mundo", então aquilo é meio que a referência do que é o belo, e ele faz uma graduação. "Ó, se existe graduação de belezas e a jovem está dentro dessa graduação, ela não é a régua que mede em termos sociais". Exatamente, e agora você pegou o ponto: você identificar qual seria a régua para medir a beleza dentro de uma categoria não fala nada sobre o conceito de beleza. Então, tanto o Ípias está errado quanto o Sócrates está escorregando. O Ípias está errado e o Sócrates também está errado.
Só que vai avançando a conversa. O Sócrates vai dizer que o belo tem que ser aquilo que adorna todas as coisas belas, ou seja, aquilo que, quando agregado a alguma coisa, faz essa coisa parecer bela. E o Ípias vai para a segunda tentativa de definir o belo, que é outra porcaria também. Ele diz que o belo é o ouro, porque tudo a que você acrescenta ouro… Quer dizer, ele acha que o belo é o ouro porque, quando você coloca ouro, as coisas ficam bonitas. Aí Sócrates pergunta: "E a estátua de Atena, que foi feita de marfim?". Aí ele responde: "Não, não é só ouro, é ouro e marfim". Aí os olhos são feitos de pedra? "Não, espere aí, não é ouro e marfim, é a pedra adequada". Então ele começa a discussão sobre o adequado, que inclusive vai culminar na próxima hipótese do Ípias, que começa a parecer que está entendendo. Ele fala assim: "Deixa eu ver se eu entendi. O belo é aquilo que nunca, de jeito nenhum, pode parecer feio para alguém, para qualquer um". Aí Sócrates fala: "Isso, agora você está entendendo o que eu estou dizendo".
Tá, então o que há de mais belo é ser rico, é gozar de boa saúde, é chegar à velhice, é ser sepultado pelos filhos de uma maneira suntuosa. Ele fala até "bela e suntuosa", né? Está sendo de novo circular aqui, ou seja, de novo ele faz uma definição ridícula, que não define nada, dando um exemplo só. É a mesma coisa do problema anterior. Agora você falou algo que me deu uma visão diferente. Sabe o que eu vejo? Eu vejo que o Ípias às vezes até parte de noções interessantes, mas ele fica muito no exemplo. Ele parte da opinião comum ("o belo é o que é o comum"), só que ele dá o exemplo da jovem. "O belo é aquilo que adiciona beleza em algo", só que ele dá o exemplo do ouro. "O belo é aquilo que todos acham como belo", só que ele dá o exemplo da vida que ele considerava bela. Porque a adequação é referencial, depende de qual referencial você está se adequando, em qual situação você está fazendo essa comparação, essa análise.