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A Armadilha de Sócrates contra a arrogância

A Armadilha de Sócrates contra a Arrogância de Ípias

Neste debate descontraído, os participantes analisam o diálogo platônico *Ípias Maior*, focando nas investidas e armadilhas argumentativas que Sócrates impõe ao sofista Ípias de Elis. O texto explora o tom cômico da obra, a vaidade exagerada de Ípias em relação ao seu sucesso e sabedoria, e a transição do debate político e moral para a busca filosófica do conceito universal do belo.

Curiosamente, a primeira parte da obra tem um tom quase cômico, pois não tem como não rir do que está acontecendo. Depois que li o *Ípias Menor*, e em seguida li o *Ípias Maior*, pensei: "Não, o Ípias não pode ser assim como está descrito". Pô, se ele for realmente assim, misericórdia, o cara se acha demais. Mas eu tenho um palpite sobre isso também. Eu acho engraçado porque o tempo todo o Sócrates fica perguntando: "Você é capaz disso?". E o Ípias responde: "Não, eu sou capaz". "Mas e se você fosse fazer tal coisa, seria capaz?". "Sou, sou capaz". Chega um nível em que o Ípias fala sobre Tales e sobre todos os grandes filósofos, afirmando que é melhor do que eles, que é superior. Ele responde umas bobeiras e o Sócrates diz: "Muito bem, muito bem, mas pera aí, se eu respondesse isso para o fulano de lá, ele tiraria sarro de mim". E aí a conversa continua.

Mas vamos começar do começo. Fiquei me perguntando se aquilo é verdade, porque o Sócrates fica dizendo o tempo inteiro que não sabe das coisas, mas tenta passar rasteiras no Ípias. No começo, ele arma uma verdadeira cilada; boa parte da obra tem o propósito exclusivo de humilhar o pobre do Ípias. Páginas e páginas de argumentação não são sobre o assunto principal da obra, que é o belo, mas só para acabar com a empáfia do Ípias. Isso acontece porque o Ípias chega à conclusão que eu havia mencionado mais cedo, dizendo que os espartanos não aceitam ensinamentos de outras culturas, e que seria ilegal para Esparta fazer esse tipo de coisa.

Mas pera aí, qual é o contexto inicial dessa comédia de Platão? Bom, Sócrates está lá fazendo o que sempre faz, e o Ípias chega, só que ele andava sumido. Parece que o *Ípias Maior* se passa após o *Ípias Menor*, pois os dois já se conhecem e há um contexto prévio. O Sócrates pergunta: "Pô, você tá sumido?". E o Ípias responde: "Não sabe como é, viajando demais". Ele vai como representante de sua cidade e viaja direto para Esparta para ensinar as pessoas de lá, dizendo que foi ovacionado, aplaudido e tudo mais.

Quando eles conversam sobre essa situação, Sócrates menciona os sábios do passado, como Tales e outros nomes, lembrando que nenhum deles aceitava participação política, ao contrário do próprio Ípias. Sócrates pergunta se o Ípias achava que os grandes sábios da Grécia não tinham sabedoria suficiente para entrar na política, mas que ele sim. O Ípias responde que tem capacidade, enquanto elogia os antigos — embora prefira não elogiar as pessoas do presente para não causar inveja.

Aí começa todo aquele papo sobre Esparta, sobre como ele ia para lá e o pessoal o aplaudia. Só que Sócrates lança outra armadilha: "Legal, quanto você ganha de quais cidades?". O Ípias vai citando as cidades, e em um momento chega a dizer que, se escolhermos dois sofistas quaisquer, ele ganha muito mais do que a soma dos dois. É muito absurdo, ele basicamente diz que é bom porque recebe muito dinheiro. Aí Sócrates questiona: "Pera aí, mas você não falou de Esparta, não disse que ia sempre lá e era aplaudido? Por que você não recebe tanto dinheiro de lá?".

E o pior é que ele não recebia tanto; ele não recebia nada. É aí que começa toda a argumentação de Sócrates, enquanto o Ípias tenta se defender: "Não, é por causa disso, é por causa daquilo". O Ípias começa a falar que Esparta tem leis e que as pessoas que fazem as leis curtem a virtude. Sócrates pergunta: "Você consegue transmitir virtude?". E o Ípias responde: "Eu não, mas eu influencio os jovens, e os jovens crescem em virtude". Então Sócrates rebate: "Esparta tem dinheiro e gosta de virtude; se você transmite virtude, por que ela não te valoriza a ponto de te dar dinheiro?". E o Ípias tenta argumentar que a recusa se deve às leis e aos costumes locais. Tem uma frase que achei muito engraçada em que o Sócrates diz: "Então você acha que os espartanos não são cívicos, pois não quiseram te dar dinheiro?". É absurdo o nível de agressividade de Sócrates na argumentação.

Deixa eu fazer uma inserção aqui. Eu me dei conta de uma coisa que já tinha percebido: esta obra é quase uma continuação direta da primeira. Eles vão falando sobre as mesmas coisas até chegar na discussão do belo. É longa essa introdução e esse contexto. E olha só o que você acabou de falar: não parece que Sócrates está conduzindo o Ípias para demonstrar, com base no que vimos no *Ípias Menor*, que o Ípias é inferior? Vou pensar nisso com calma depois e quem sabe faço um texto para um vídeo aqui para o canal. No outro material, aquele que comete a injustiça voluntariamente é mais punido, não é isso? E aqui, o Ípias diz que foi falar sobre virtude em Atenas, mas que, por causa das leis, não conseguiu e teve impedimentos que o impediram de ganhar dinheiro. Com certeza há uma relação entre as duas coisas, está na cara que tem alguma relação. Depois a gente pode conversar mais sobre isso.

Mas vamos avançar para o que interessa. Só um ponto: se eu fosse o Ípias, não daria mais moral para o Sócrates depois disso tudo, saía correndo de lá. Mas é por isso que só existem esses dois diálogos. Como é que o Sócrates introduz o assunto do belo? Eles estão nessa discussão, e Sócrates meio que muda a direção para não continuar naquele gancho. Ele diz que estava conversando com os jovens sobre como são os discursos admiráveis, com boas escolhas de vocábulos — o que tem a ver com a discussão que tivemos na última semana no canal do Telegram. Ele usa inclusive a *Ilíada* como referência para discursos admiráveis e boas escolhas de vocábulos. E ele não está falando apenas da obra homérica de forma simples, mas fazendo uma análise intratextual, usando a própria dinâmica interna da obra e a forma como cada personagem constrói seu discurso e desenvolve seu raciocínio com floreios.

Então ele diz que está tentando entender o que distingue algo belo de algo feio, e começa a explicar para o Ípias a diferença, introduzindo a famosa discussão sobre os universais. Ele faz isso da seguinte maneira: pergunta se não é pela justiça que os justos são justos. O Ípias concorda, logo a justiça é algo real. Depois pergunta se não é pela sabedoria que os sábios são sábios, sendo a sabedoria também algo real; e se não é pelo bem que todas as coisas boas são bens, sendo o bem algo real. Da mesma forma, é pela beleza que todas as coisas belas são belas, logo o belo só pode ser uma coisa real. O Ípias concorda com tudo. Aí o Sócrates pergunta: "Mas que diabo é o belo? Ípias, meu amiguinho, me responda". Ele esclarece que não está querendo saber de *algo* belo, mas sim *o que é* o belo em si, essa essência universal.

Aí o Ípias diz que vai dar uma resposta irrefutável sobre o belo. É engraçado, cara, porque ele fala, fala, fala, os interlocutores sempre chegam com um questionamento, ele continua enrolando e nunca chega ao tal do belo. Mas ele sempre acha que vai dar uma resposta sensacional: "Agora você vai ver o que eu vou falar: o belo é uma bela jovem". Olha a definição de belo, hein? Vocês conhecem aquele vídeo antigo de um cara entrevistando as pessoas na rua e perguntando o que é o direito? Procurem depois no YouTube.