Dedicado ao Cônsul Hasting, Esq.
O jovem Damon, dower de engenho e arte,
Em vão por sua amada Delia suspirava;
O deus rosado que lhe feriu a parte
A língua, perverso, parecia-lhe travava.
Enfim, o pastor tímido tentou
Uma palavra ao acaso, em tom casual,
E na donzela consciente acendeu
Um sorriso em resposta ao seu igual.
Mas a invejosa Daphne, movida a fel,
Em público zombou do par enamorado,
E com escárnio meteu-se cruel
Entre o pobre Damon e o riso amado.
Com orgulho o jovem sábio se retirou;
Escondeu no peito a paixão profunda;
A orgulhosa Delia a indif’rença fingiu, e chorou
Em segredo a zombaria que o mundo inunda.
No engenho o amante a dor encobriu,
Com fala áspera, que antes era doce;
Mais fria a bela pareceria, a partir do cio,
Repelida pelo orgulho que achava que ele desse.
Damon percebeu-lhe a alterada feição,
E amou-a mais por seu desprezo infindo;
Escondeu todo o saber na aflição,
Para reconquistar o afeto, sorrindo.
Vede agora a metamorfose sem igual
Que torna um erudito num bobão;
Com piada lúgubre corteja a sua mortal,
E tenta rir-se da desolação.
Um dia os rapazes e as moças do lugar
Partiram ao alvor em festivo ardor,
Para os vales verdes contemplar
E pelos bosques vizinhos vagar.
Dois criados levavam um cesto pesado,
Repleto de iguarias para um banquete;
Cada ninfa e pastor trazia um riso ornado,
Com a alegria que a Natureza arremete.
Pela relva e encosta em flor
A trupe brincalhona dançava encantada;
Inspirada pela juventude, vigor e amor,
E pela bela cena enfeitiçada.
Quão abençoados os bosques e folhagens;
Quão fresca a sombra de cada recanto;
Quão verde o musgo, quão gays as folhagens;
Quão doce a música do riacho em pranto!
Entre os convivas Damon andava,
Uma nuvem de tristeza em seu semblante;
Enquanto perto dele a amada estava,
Deliciosa em sua graça flagrante.
O jovem, de amor pálido e definhado,
Caminhava tímido para não parecer tolo;
Pois rapazes estudiosos caem no agrado
Do riso alheio, do falso bolo.
Mas embora sentisse o temor do amador,
E tentasse a sua Delia ignorar,
Seus passos, sem rumo, com fervor
O levaram à ninfa que não podia deixar de adorar.
De olhar baixo e suspiros abafados,
O pastor embaraçado à bela se dirigiu;
A donzela murmurou versos abalados,
Enquanto dos outros se desviava e sumia.
Nenhum pensamento claro os guiava;
Nenhum destino atraía seus pés;
Mas presos na teia que o amor armava,
Tropessaram num recanto deivez.
Lugar alegre, onde margaridas brancas
E violetas azuis quebravam o verde tom;
O teto de heras brilhava nasancas,
E murtas entrelaçadas davam o dom.
Ali sentaram-se os amantes, calados,
Mal sabendo que as mãos se tocavam;
Enquanto além dos montes sagrados,
Duas aves mansas voavam.
A um ramo bem perto do par,
Isolado, mas à vista de ambos,
Voaram pelo ar fragrantar
Duas pombas brancas como o limbo.
Com ar terno cada criatura dizia
Sua simples história de amor silvestre;
O arrulhar as sombras despedia,
E o Cupido reinava no agreste.
O tímido Damon nada proferia,
Mas mirava a donzela derretida;
Delia, amolecida, a cabeça erguia,
E a sombra rubra era sua guarida.
Enfim o olhar da donzela consciente
O tímido Damon tentou encontrar;
O primeiro passo fez-se urgente,
Pois o medo a língua dele quis calar.
“”, sussurrou ela, “vê como estas
Aves sagazes revelam o coração
Em recantos isolados e lestas
Onde a azeda Daphne não traz maldição!”
“Nenhum orgulho tolo a fala detém;
Nenhum frio desdém lhes gela o ardor;
Nos bosques e campos vivem bem,
E à colina contam seu fervor.
“Se esse par rude na árvore além
A tal bem-aventurança aspira,
Que rumo a nós convém,
Ou a um engenho como o que tu inspires?”
O pastor, escutando, enlevado ficou,
Quase sem crer nos próprios ouvidos;
Em cada palavra seu ser se fixou,
De alegria e pranto compelidos.
Seu engenho ágil decifrou a fala,
Mas se obscura a frase fosse,
O sentido ele teria sem vala
Naqueles olhos fundos que ele visse.
O jovem Damon despe o pudor,
E em seus braços a Delia acolhe;
A afeto brilha em cada calor,
Que a ninfa amada lhe recolhe.
Assim ganhou o par a alegria eterna
Que o rito nupcial logo selou;
Que nada enfraquece ou governa,
E que os anos apenas elevou.
Ninfas e pastores, tirai a moral
De Damon e sua bela noiva:
Não deixeis que o orgulho vos faça mal,
E a Natureza seja a vossa bóia.