Uma Epístola a RHEINHART KLEINER, Esq., Poeta-Laureado e Autor de “Another Endless Day”.
Beatus ille qui procul negotiis,
Ut prisca gens mortalium,
Paterna rura bubus exercet suis.
—HORACE.
KLEINER! em cujas veias pulsa e inflama
O ardor do bardo e a ambição da fama,
Cujo espírito ousado escarnece o chão
E busca os altos céus com altivez em vão:
Se a paixão te der trégua e uma hora de paz,
Ouve um canto mais calmo, e o pranto desfaz.
O que é a verdadeira dita? Há de penar
O mortal por estrelas que não pode alcançar?
Deve o homem sofredor, impaciente, escalar
Ermos proibidos, onde a dor vem imperar?
Ai daquele que abomina a mansa quietação
E anseia por febris prazeres de ilusão:
Eles prazem um instante, e o prazer se vai,
E a alma, presa à paixão, sofre e cai.
Longe, falsos encantos! Deixai-me vagar
Pela doce Arcádia e o lar a contemplar;
Que meu triste coração não sofra nova dor,
Mas repouse no prado coberto de flor.
Vãos desejos e ambições rondam sem cessar,
Enquanto ouço os sinos da abadia soar.
Forte ruge a vaga do mar da inquietação,
Mas é calmo o riacho que banha o rincão.
Que outros sintam do mundo o golpe febril,
Enquanto entre o gado busco o monte abrilhantado.
Ergue-te, sol radiante! a clarear o gramado,
Cujos encantos contemplo do faia amado;
Sobre agulhas e picos espalha o brilho a vagar
Que doura o bosque e faz o riacho brilhar.
Despertai, sílfides da corte de Flora em flor,
Para perfumar os campos com viço e vigor.
Voai, aves, e cantai por toda a extensão,
Para animar o solitário na verde solidão.
Doce é o canto que o prado traz ao alvorecer,
E com a treva as ambições vãs hão de morrer;
Sobre a torre da abadia a luz vai subir,
Enquanto a paz e a claridade hão de se unir.
Por que suspirar por reinos de lufa-lufa e dor,
Se agora me banho na beleza do Criador?
Que pensamentos tão grandes há de haver
Que além destas colinas devam se erguer?
Estas amadas colinas vi quando criança crescer,
E no vale protetor nasci e vim a viver.
Aquelas agulhas mostram onde a ambição vai parar,
Pois quem, nascido aqui, mais longe há de almejar?
Quando a tarde abençoada a mim e ao mundo acalma,
Estão lua e estrelas mais longe de minha alma?
Nenhum brilho urbano vem meu céu cegar,
E astros limpos surgem sobre o charco a brilhar.
Que dita imensurável a Fama pode ofertar,
Quando a dignidade da aldeia sabe o coração alegrar?
O pequeno grupo junto à lareira a conversar,
Sua sabedoria a expor e o senhor saudar,
É bem mais gentil que a corte a bajular,
Que lisonjeia Reis e o erro sabe ocultar!
E, ao fim, que importa se ninguém virá adorar
Minhas cinzas mudas sob Westminster a repousar?
Não pode meu pobre corpo, na penumbra findar,
Dormir onde a infância primeiro viu a luz raiar?
Mais doce é o repouso na sombra sagrada
Onde meus pais oravam, alma guardada;
Espíritos ancestrais abençoam o ar ao redor,
E memórias santas enchem este chão de amor.
Fica, ó amado Contentamento! e não deixes minha alma ir
Em paixões aflitas outro rumo seguir.
Apolo, perseguindo Dafne, viu seu prêmio escapar,
Pois ela em árvore veio a se transformar!
Nossos prêmios terrenos, por mais cobiçados,
São tão fugazes, e em pó são desmanchados.
A dita eterna o homem só poderá achar
Na virtude da vida e no contentamento do lar.