Menu fechado

Content (Poesia #58)

Content

Uma Epístola a RHEINHART KLEINER, Esq., Poeta-Laureado e Autor de “Another Endless Day”.

 

Beatus ille qui procul negotiis,

   Ut prisca gens mortalium,

Paterna rura bubus exercet suis.

   —HORACE.

 

KLEINER! em cujas veias pulsa e inflama

O ardor do bardo e a ambição da fama,

Cujo espírito ousado escarnece o chão

E busca os altos céus com altivez em vão:

Se a paixão te der trégua e uma hora de paz,

Ouve um canto mais calmo, e o pranto desfaz.

O que é a verdadeira dita? Há de penar

O mortal por estrelas que não pode alcançar?

Deve o homem sofredor, impaciente, escalar

Ermos proibidos, onde a dor vem imperar?

Ai daquele que abomina a mansa quietação

E anseia por febris prazeres de ilusão:

Eles prazem um instante, e o prazer se vai,

E a alma, presa à paixão, sofre e cai.

Longe, falsos encantos! Deixai-me vagar

Pela doce Arcádia e o lar a contemplar;

Que meu triste coração não sofra nova dor,

Mas repouse no prado coberto de flor.

Vãos desejos e ambições rondam sem cessar,

Enquanto ouço os sinos da abadia soar.

Forte ruge a vaga do mar da inquietação,

Mas é calmo o riacho que banha o rincão.

Que outros sintam do mundo o golpe febril,

Enquanto entre o gado busco o monte abrilhantado.

Ergue-te, sol radiante! a clarear o gramado,

Cujos encantos contemplo do faia amado;

Sobre agulhas e picos espalha o brilho a vagar

Que doura o bosque e faz o riacho brilhar.

Despertai, sílfides da corte de Flora em flor,

Para perfumar os campos com viço e vigor.

Voai, aves, e cantai por toda a extensão,

Para animar o solitário na verde solidão.

Doce é o canto que o prado traz ao alvorecer,

E com a treva as ambições vãs hão de morrer;

Sobre a torre da abadia a luz vai subir,

Enquanto a paz e a claridade hão de se unir.

Por que suspirar por reinos de lufa-lufa e dor,

Se agora me banho na beleza do Criador?

Que pensamentos tão grandes há de haver

Que além destas colinas devam se erguer?

Estas amadas colinas vi quando criança crescer,

E no vale protetor nasci e vim a viver.

Aquelas agulhas mostram onde a ambição vai parar,

Pois quem, nascido aqui, mais longe há de almejar?

Quando a tarde abençoada a mim e ao mundo acalma,

Estão lua e estrelas mais longe de minha alma?

Nenhum brilho urbano vem meu céu cegar,

E astros limpos surgem sobre o charco a brilhar.

Que dita imensurável a Fama pode ofertar,

Quando a dignidade da aldeia sabe o coração alegrar?

O pequeno grupo junto à lareira a conversar,

Sua sabedoria a expor e o senhor saudar,

É bem mais gentil que a corte a bajular,

Que lisonjeia Reis e o erro sabe ocultar!

E, ao fim, que importa se ninguém virá adorar

Minhas cinzas mudas sob Westminster a repousar?

Não pode meu pobre corpo, na penumbra findar,

Dormir onde a infância primeiro viu a luz raiar?

Mais doce é o repouso na sombra sagrada

Onde meus pais oravam, alma guardada;

Espíritos ancestrais abençoam o ar ao redor,

E memórias santas enchem este chão de amor.

Fica, ó amado Contentamento! e não deixes minha alma ir

Em paixões aflitas outro rumo seguir.

Apolo, perseguindo Dafne, viu seu prêmio escapar,

Pois ela em árvore veio a se transformar!

Nossos prêmios terrenos, por mais cobiçados,

São tão fugazes, e em pó são desmanchados.

A dita eterna o homem só poderá achar

Na virtude da vida e no contentamento do lar.