Órfã da Arcádia! cujo doce reino amado
Encanta a floresta e alegra o prado;
Que sobre a cena vernal branda magia espalha,
E alegra as flores na estival praia:
A dias menos claros estende teu poder,
Nem desprezes Vertumno, teu amigo a valer.
Enquanto Febo vacila com a luz minguante,
Meio vencido pelas hostes da noite adiante;
Seus raios geniais por ventos frios domados
Para o humor melancólico da estação adaptados;
Enquanto os céus dantes azuis se tornam desolados e frios,
E os campos murchos anunciam o fim dos brachos e brios;
Enquanto flores caídas cobrem o chão geado,
Enquanto bosques sem aves choram o som apagado;
Teus poderes, Musa Arcádia, a dor dissipam,
E em meio ao breu belezas sem conta desvivam!
Eis os campos, por Pales benigna abençoados,
Em regais mantos de erva amarelada vestidos;
Vede como a rústica tropa, com canto em coro,
Cerne o rico fruto sob a lua de ouro.
Cada haste curva uma farta Cloé decepa;
E o honesto Dámon os feixes cheios aperta.
Feliz sua sorte, que a corte vil não corrompe;
Contentes com sua sombra e rústico trompe!
Que sibarita mundano, por mais que vagueie,
Acha cena mais feliz que a farta gleba que alteie?
Aqui ninfas e faunos, cujos acentos misturados louvam
A deusa bondosa do milho que douravam,
Com riso inocente seus úteis cuidados dividem,
E ao lado a generosa safra decidem.
O pomar fecundo e a vinha carregada
Declaram a regra de uma alma inspirada:
A bênção de Pomona coroa as árvores fecundas,
E vinhedos cedem a Líber em leis profundas.
Naquela colina arborizada, onde céleres vagueiam
O silvestre Pã e espíritos que rastejam,
Um encanto de fada a bela cena transfigura,
E um esplendor deslumbrante o verde depura:
Cada hamadríade sua velha grinalda abandona,
Para vestir novas flores, que o rubro coroa.
Com mão generosa, seu tesouro espalham
De tintas suaves que o chão da mata talham.
Ouve a música da trompa do caçador,
Que desperta os campos com fervor!
Vê enquanto a matilha a presa ofegante persegue,
E a comitiva montada a cavalo os segue:
Os ventos mais agudos nosso espírito restauram;
A caça excitam, e mais nos inflamam!
Quando sobre o pântano a lua de caça aparece,
E a luz prateada o outubro gélido aquece,
Os ventos inclementes em êxtase desafiamos,
Encantados com as glórias do céu que admiramos.
No alto do espaço as Plêiades tremeluzentes mostram
Seus raios sutis aos reinos geados que os ornam,
Enquanto o vasto Órion, subindo pelo prado,
Dilata a alma com um êxtase espantado.
Capela e Aldebarã se unem
Para apagar a luz dos Gêmeos que rumam;
E toda a abóbada com brilho crescente tenta
Curar a perda de Febo, que já não esquenta.
Resplandescente Outono! cujo véu prismático
Drapeja a terra triste, ocultando o vendaval enigmático;
Em pompa suntuosa o ano moribundo adorna,
E conforta os vigias tristes enquanto os transtorna.
Como reflexos sumptuosos acompanham o dia que vai,
E cores variadas no brilho do poente se dão ao pai,
Assim agora a estação, chegando ao fim,
Supera o brilho calmo que vinha de antes assim.
Como a borboleta brilhante, cuja hora gloriosa
Anuncia o fim da vida e da força terrosa,
O vale tinto e a colina bordada
Bradam por um momento — depois definham gelados na estrada.
Teu é, Musa Arcádia, o coração elevar
Com belas fantasias e cantos a encantar;
Em meio a um mundo frígido teu é o cantar
Da promessa intacta da primavera a voltar;
Junto à lareira presos pelo rigor do Outono,
O canto ouvimos, abençoando o eterno trono.
Autumn (Poesia #110)