Menu fechado

Amissa Minerva (Poesia #156)

Amissa Minerva

“Humano capiti cervicem pictor equinam

Jungere si velit, et varias inducere plumas

Undique collatis membris, ut turpiter atrum

Desinat in piscem mulier formosa superne;

Spectatum admissi risum teneatis amici?”

—Horácio, Ars Poetica.

Nos velhos dias, quando o bardo ingênuo

Curvava-se à beleza e ao bom senso,

A Natureza em veste esmerada

Brilhava, de esplendor duplos ornada.

Foi quando Homero o ouvido cativou,

E o doce Maro a alma inspirou;

Foi quando Horácio as leis da escrita deu,

E o que pregou nos próprios versos soou;

Com reflexão e guia sagaz

Moldou a estrofe e a regra veraz.

Por diversas vias cantaram os autores,

Mas todos buscando a graça e os louvores;

A lhaneza reinava, o brio exaltado,

Em metro firme e tom aprimorado.

Os tempos vindouros tiveram seu gênio,

Mas o bardo atento guardou o milênio;

Inexoráveis reinam, inda que novos temas surjam,

Sendo a meta elevada e alta a força que os defirjam.

Assim Shakespeare tocou a lira viva,

E Milton cantou com alma altiva;

Assim o Pope a língua moderna poliu,

E o dom de Horácio ao de Homero uniu;

Assim Thomson as estações passou,

E o encanto da mata e do campo mostrou;

Assim o doce Goldsmith e o deão sombrio

Serviram seus sorrisos ou fel com brio.

A Musa triste de Cowper a arte enfraqueceu,

E o palavreio de Wordsworth a Deusa ofendeu;

Contudo, ela guiou o sacro coro,

Com a verdade e a beleza adiante como tesouro.

O imortal Keats conheceu o impulso olímpico,

E o infeliz Poe manteve o Hélicon límpico.

O doce Tennyson murmúrios melodiosos tecia,

E o brilhante Swinburne a chama antiga sentia:

Do alto ouviam-se os nobres cantos,

Quando ei-los — somem, param, num quebranto!

Estultícia voraz! Prole da terra febril!

Monstro destrutivo de parto hostil!

Aônia pranteia ao ver teu jugo medonho

Comandar o gosto público e o bardo bisonho.

A verdadeira arte, tal qual a Natureza, brilha,

Mostrando em justa medida a sua maravilha;

Examina a cena com calmo e lúcido olhar,

E canta seus traços tal qual devem estar.

Nenhuma perspectiva excêntrica dá tom bizarro,

Nem devaneio estéril segue em voo de guizo e tarro;

O capricho ocioso e a mente erradia

Aicham seu teto na ciência, não na poesia.

Almas artísticas examinam o quadro terreno;

Pintam o que aos séculos brilhou ameno;

A psicologia contempla o errante mental,

E a Esculápio ele pertence, não ao fado genial!

Vede, porém, por toda parte a trja insana

Que pulula solta e rasteja na planície vã.

Eis que formas libristas, cubistas, espectristas surgem;

Com vapores fétidos os céus puros entupirgem;

Ou, levados por loucura passageira, rasgam o ar

Com gritos de gozo e uivos de pesar.

Isentos de engenho, despejam sua tinta

Em odes a banheiras ou pias de cozinha em cinta;

Buscando efeito, sondam a alma na raiz,

E vomitam doenças ou sonhos de ventre infeliz.

Vede a que abismos um Lowell pode descer;

Como Masters pode seu fôlego sem rumo perder;

Ouvi o mórbido Gould arrastar um som manco,

Ou o esforçado Sandburg ladrar à lua com espanto.

Com dor vemos o coro bufão entoar

Sem sentido e abjeto falar;

Quando pela treuma alguma razão transparece,

Lamentamos ver tanta sensatez que esmorece!

Eterna Pallas, cuja lei soberana

Exalta o artista e condena a rama vã,

Cuja vontade fez brilhar a Hélade altaneira,

E deu a Roma a majestade verdadeira,

Perdoa a raça errante que te fez fugir

Tão logo para o teu Olimpo por vir:

Desce outra vez a estes prados celestes,

Para avivar a arte e aplacar nossos pesters.

Ensina a cada bardo a esquecida luz,

Salva da tolice a juventude que conduz;

Revela de novo o código que os céus dão,

Que molda a ode, o pastoral, o refrão.

Dai a perícia piéria uma vez mais

Ao homem frágil, inclinado a erros mortais,

E com paciência ensina de novo esta laia

A escolher o bom, o belo, o que não desmaia.

Estas graças, Atenas, em tua piedade envia

Para abençoar os poucos que ainda te têm por guia;

Os fiéis que com cantos de pranto e dor

Invocam teu auxílio e propagam teu louvor:

Filha de Jove, que o teu perdão sem par

Recompense nosso altar fumegante e o rezar!