“Humano capiti cervicem pictor equinam
Jungere si velit, et varias inducere plumas
Undique collatis membris, ut turpiter atrum
Desinat in piscem mulier formosa superne;
Spectatum admissi risum teneatis amici?”
—Horácio, Ars Poetica.
Nos velhos dias, quando o bardo ingênuo
Curvava-se à beleza e ao bom senso,
A Natureza em veste esmerada
Brilhava, de esplendor duplos ornada.
Foi quando Homero o ouvido cativou,
E o doce Maro a alma inspirou;
Foi quando Horácio as leis da escrita deu,
E o que pregou nos próprios versos soou;
Com reflexão e guia sagaz
Moldou a estrofe e a regra veraz.
Por diversas vias cantaram os autores,
Mas todos buscando a graça e os louvores;
A lhaneza reinava, o brio exaltado,
Em metro firme e tom aprimorado.
Os tempos vindouros tiveram seu gênio,
Mas o bardo atento guardou o milênio;
Inexoráveis reinam, inda que novos temas surjam,
Sendo a meta elevada e alta a força que os defirjam.
Assim Shakespeare tocou a lira viva,
E Milton cantou com alma altiva;
Assim o Pope a língua moderna poliu,
E o dom de Horácio ao de Homero uniu;
Assim Thomson as estações passou,
E o encanto da mata e do campo mostrou;
Assim o doce Goldsmith e o deão sombrio
Serviram seus sorrisos ou fel com brio.
A Musa triste de Cowper a arte enfraqueceu,
E o palavreio de Wordsworth a Deusa ofendeu;
Contudo, ela guiou o sacro coro,
Com a verdade e a beleza adiante como tesouro.
O imortal Keats conheceu o impulso olímpico,
E o infeliz Poe manteve o Hélicon límpico.
O doce Tennyson murmúrios melodiosos tecia,
E o brilhante Swinburne a chama antiga sentia:
Do alto ouviam-se os nobres cantos,
Quando ei-los — somem, param, num quebranto!
Estultícia voraz! Prole da terra febril!
Monstro destrutivo de parto hostil!
Aônia pranteia ao ver teu jugo medonho
Comandar o gosto público e o bardo bisonho.
A verdadeira arte, tal qual a Natureza, brilha,
Mostrando em justa medida a sua maravilha;
Examina a cena com calmo e lúcido olhar,
E canta seus traços tal qual devem estar.
Nenhuma perspectiva excêntrica dá tom bizarro,
Nem devaneio estéril segue em voo de guizo e tarro;
O capricho ocioso e a mente erradia
Aicham seu teto na ciência, não na poesia.
Almas artísticas examinam o quadro terreno;
Pintam o que aos séculos brilhou ameno;
A psicologia contempla o errante mental,
E a Esculápio ele pertence, não ao fado genial!
Vede, porém, por toda parte a trja insana
Que pulula solta e rasteja na planície vã.
Eis que formas libristas, cubistas, espectristas surgem;
Com vapores fétidos os céus puros entupirgem;
Ou, levados por loucura passageira, rasgam o ar
Com gritos de gozo e uivos de pesar.
Isentos de engenho, despejam sua tinta
Em odes a banheiras ou pias de cozinha em cinta;
Buscando efeito, sondam a alma na raiz,
E vomitam doenças ou sonhos de ventre infeliz.
Vede a que abismos um Lowell pode descer;
Como Masters pode seu fôlego sem rumo perder;
Ouvi o mórbido Gould arrastar um som manco,
Ou o esforçado Sandburg ladrar à lua com espanto.
Com dor vemos o coro bufão entoar
Sem sentido e abjeto falar;
Quando pela treuma alguma razão transparece,
Lamentamos ver tanta sensatez que esmorece!
Eterna Pallas, cuja lei soberana
Exalta o artista e condena a rama vã,
Cuja vontade fez brilhar a Hélade altaneira,
E deu a Roma a majestade verdadeira,
Perdoa a raça errante que te fez fugir
Tão logo para o teu Olimpo por vir:
Desce outra vez a estes prados celestes,
Para avivar a arte e aplacar nossos pesters.
Ensina a cada bardo a esquecida luz,
Salva da tolice a juventude que conduz;
Revela de novo o código que os céus dão,
Que molda a ode, o pastoral, o refrão.
Dai a perícia piéria uma vez mais
Ao homem frágil, inclinado a erros mortais,
E com paciência ensina de novo esta laia
A escolher o bom, o belo, o que não desmaia.
Estas graças, Atenas, em tua piedade envia
Para abençoar os poucos que ainda te têm por guia;
Os fiéis que com cantos de pranto e dor
Invocam teu auxílio e propagam teu louvor:
Filha de Jove, que o teu perdão sem par
Recompense nosso altar fumegante e o rezar!