Se tal coisa como um duplo laureamento poético existia no jornalismo amador antes de 1923, é algo que cabe aos veteranos e estatísticos dizer. Para a geração atual, a circunstância tinha um ar de inédito, e fervorosa foi a mistura predominante de espanto e congratulação quando, há dois anos, os prêmios máximos de poesia nas Associações de Imprensa Amadora Unida e Nacional foram conquistados pela única Musa do Sr. John Ravenor Bullen, de Ontário, Canadá. A beleza silenciosa da poesia do Sr. Bullen já vinha sendo notada entre nós há algum tempo, mas tão raramente uma vertente de mérito se define com clareza suficiente para produzir um efeito igual em dois jurados distintos que o resultado congênere dos concursos gêmeos irrompeu sobre nós como uma surpresa e uma revelação do tipo mais deleitável. Vencer prêmios, contudo, não é novidade para o Sr. Bullen. Em várias competições de cunho estético sério por todo o continente, ele emergiu com louros distintos, e muito antes de seu advento ao mundo amador, sua obra formava um elemento central nos programas de organizações tão sólidas quanto a Associação Poética Americana, a Sociedade de Artes e Letras da Filadélfia e o The Quill Club, cuja representação americana ele detém há vários anos. O que verdadeiramente constitui um poeta é algo muito difícil de definir. Hoje em dia, quando o intelecto se acotovela por mais do que seu espaço designado no campo estético, tendemos a analisar profundamente, buscar fundamentos e discorrer sabiamente sobre a percepção singular, o ponto de vista e a imaginação pessoalmente seletiva do bardo essencial. Fingimos exigir que ele nada veja desprovido de suas associações tradicionais, e que nos apresente apenas o conteúdo imaginativo nuclear, isolado e austeramente desadornado de suas reações fortuitas à experiência e à emoção. O resultado é uma salada mista discordante de escolas acadêmicas, cada qual baseada em teorias estéreis em vez de agitação artística, que nos presenteiam com caoticismos cuidadosamente revolvidos de matizes variados; desde os vórtices de sensações cromáticas dos imagistas até os detritos mentais congelados do Sr. T. S. Eliot e seus seguidores. Em meio a esse turbilhão de psicologia científica, espera-se que o impulso artístico sobreviva como puder. Com demasiada frequência, sua ausência é perdoada em deferência a uma forma teórica que as réguas vigentes medem friamente e proclamam ser poesia genuína com base estritamente filosófica. John Ravenor Bullen, na profusão de poesia lírica deleitável sobre a qual se funda seu crescente reconhecimento literário, repudiou a escravidão da teoria contemporânea e é, com isso, um artista maior. Reconhecendo o débito que toda beleza atual tem para com as gerações de impressões herdadas de onde brota sua relação existente com a emoção humana, ele é sábio demais para descartar a música, os ritmos, as simetrias, os aspectos de visão e as reviravoltas de pensamento e frase com que o sentimento estético espontâneo coloriu sua expressão ao longo das vastas eras em que a Natureza a forçou a encontrar uma saída. Sensível ao igual significado artístico de humores e matéria, sonhos e banalidades diárias, a *fata morgana* e os fatos, ele não negligenciou o entesouramento daquela rara qualidade de fascínio que, embora desprezada pelos realistas, ainda encarna talvez a melhor parte de todo o encanto que conhecemos. Um instinto são o manteve firmemente dentro da linha principal da grande tradição inglesa, tornando-o assim apto para o reflexo harmonioso daquelas fantasias, concepções e perspectivas que para nós devem ser sempre as mais fortes, por serem o agregado simples e a herança de mil anos de nossa experiência racial e cultural contínua. O segredo particular do Sr. Bullen como poeta reside, além de sua aguda imaginação visual e do senso natural de som que confere melodia e limpidez a todos os seus versos e o conduz infalivelmente à trilha da palavra perfeitamente sinfônica, no fato de ele ter preservado suas ilusões douradas, sua faculdade de espanto e seus valores na vida. Para ele, o viço e o frescor da manhã de maio jamais se foram, e em meio ao nosso deserto predominante de sofisticação cínica, ele ainda é capaz de sentir aquela vibração de prazer, novidade e êxtase no ciclo diário de fenômenos terrestres que animava os bardos vigorosos de uma época mais brilhante. Essa vibração solitária, tão difícil de alcançar hoje em dia, é o único determinante último do verdadeiro poeta. É a qualidade da juventude — uma juventude com uma independência cronológica digna de Endimião — que, com uma magia totalmente distinta de qualquer outra que conhecemos, possui o poder inalienável de animar com graça, grandiosidade e um aspecto de significado um mundo e um universo visíveis à mente moderna da prosa apenas como um ciclo maçante, desprovido de propósito e insatisfatório de rearranjos eletrônicos, atômicos e moleculares. Tendo em mente essas fontes de inspiração, é interessante especular sobre os métodos precisos pelos quais o Sr. Bullen assegura seus efeitos felizes. Que a simplicidade é um fator forte torna-se imediatamente óbvio; pois ninguém deixa de notar com que cuidado as armadilhas da complexidade linguística, do caoticismo impressionista e da involução intelectual são evitadas. O autor está determinado a fazer com que suas imagens se destaquem em uma luz clara e plena, e a não sacrificar sequer uma partícula de seu efeito final por meio de desvios inúteis da visão e da atenção do leitor. Além do mais, ele maneja este ponto com tanta habilidade que não há aparência exterior de simplificação forçada, nenhuma ingenuidade artificial, nenhum gesto afetadamente primário, e nenhum desprezo fulminante pelas refinarias e sutilezas que marca os esforços de muitos escritores em busca da franqueza. A linguagem é a linguagem da sociedade civilizada, sem carência da cor, da riqueza e da variedade necessárias para uma expressão plena e flexível. Contudo, ela não é lançada em enigmas pelo amor aos enigmas, nem torturada em tentativas sem sentido de expressar o inexpressivo. Quando o êxtase é exigido, ele não é criado por um lapso em coerência exclamativa, mas pela escolha justamente das palavras mais gráficas e enérgicas, todas usadas de maneira normal; pois para um conhecedor e colorista como o Sr. Bullen, há vocábulos vívidos suficientes ao seu comando para obviada toda a necessidade de distorções extravagantes. Na maioria dos casos, as palavras favorecidas são as comuns e queridas, às quais a tradição legou seus harmônicos mais suaves e duradouros; mas quando o exótico ou o incomum é exigido, o poeta não tarda a estar à altura da ocasião. Outra fonte do amplo apelo do Sr. Bullen é a qualidade da universalidade, pela qual ele tende a tocar naqueles estados de espírito e sentimentos que são compartilhados por toda a raça, em vez de insistir, como a maioria dos letristas faz, nos fenômenos emocionais subjetivos peculiares a si mesmos. Esta é, de fato, a atitude autêntica do classicismo e mostra-se poderosa na obra de nosso poeta porque é absolutamente genuína nele. Ela figura aqui não como mera teoria ou resultado de esforço consciente, mas como o produto natural de uma imaginação em harmonia com as emoções universais. Para o Sr. Bullen, é este corpo geral de sentimento que possui os elementos primordiais de fascínio, feitiçaria e encanto, e porque sua resposta a esse estímulo é absolutamente sincera, ele é capaz de refleti-lo com todos os esplendores que ele próprio encontra entrelaçados a ele, alcançando resultados tão pungentes quanto os do poeta mais pessoal com suas reações altamente individualizadas. Temos aqui, de fato, uma prova luminosamente definitiva do fato de que a poesia real não brota de nenhuma fórmula refinada ou escolha de tema, mas pura e exclusivamente do grau de espanto e êxtase na mente do poeta, independentemente do assunto ou do tipo de meio. A atitude geral do Sr. Bullen perante a vida e o universo é de aceitação otimista, alcançada através de uma premissa com as belezas da tradição ortodoxa que impede mais do que um vislumbre fugaz do severo pano de fundo científico. Apenas uma vez — no poema assombroso e sedutoramente semelhante a Poe chamado “A Música das Esferas” — essa armadura defensiva ameaçou ceder e admitir o desespero ou a resignação do moderno filosófico. Na maior parte do tempo, o poeta é genuinamente capaz de reter o ponto de vista dos grandes vitorianos, a cujo estilo ele tão inequivocamente herda. Não se deve imaginar por um momento, é claro, que a ortodoxia do Sr. Bullen o conduza a absurdos e insipidezes. Trabalhando dentro de um cosmo mapeado pelos sonhos de gerações, ele exibe uma consistência psicológica impecável e percorre a gama dos estados de espírito e emoções mais belos sem discórdias ou extravagâncias. É provavelmente a Tennyson que ele mais profundamente deve sua visão e método, e ele é certamente um discípulo de quem o famoso laureado do século XIX poderia legitimamente se orgulhar. Aqui e ali surge um vestígio de suave melancolia para conferir uma nota menor e delicada à sinfonia, mas no essencial predomina um deleite intenso pela beleza presente e por visões de um futuro rosadamente imaginado que confere à obra seu tom característico. O didatismo por vezes fatigante do século XIX não é encontrado com frequência no verso do Sr. Bullen. Quando uma moralidade de fato aparece, ela é insinuada com urbanidade em vez de martelada, e geralmente o autor contenta-se em deixar que suas imagens falem por si mesmas em beleza — cabendo ao leitor extrair a lição que — se alguma — se sentir inclinado a extrair. Se alguma falha for discernível na escrita do Sr. Bullen, é uma leve tendência a sobrecarregar aquelas formas arcaicas que o pré-rafaelismo restaurou ao verso inglês por uma temporada, mas para as quais um gosto mais clássico começa novamente a olhar, pelo menos, com questionamento. Seria, decerto, hipercrítico negar a qualquer poeta autêntico da tradição vitoriana um ocasional “ere” [antes], “nay” [não], “’tis” [é], “cloth” [tecido], “thou” [tu], “hath” [tem] ou os expletivos “do” ou “did”; mas pode-se perdoar a hesitação antes de recomendar tais formas para uso constante. O mesmo se aplica às inversões e palavras e frases caracteristicamente cristalizadas que o Sr. Bullen às vezes emprega — licenças poéticas como “recoleções fond”, “multidão que busco ardentemente”, “borbulhando velozes ao longo do curso”, “que deram sanção”, e assim por diante; expressões corriqueiras como “alegre mês de maio”, “acariciado pelo sol”, “frases emplumadas”, “amargo sacrifício”, “penacho branco”, “Dama Natureza”, “alegres flautas de Pã”, e semelhantes; e palavras isoladas como “extasiante”, que o uso popular excessivo e inadequado infelizmente despojou de seu frescor e valor prístinos. Todas estas, contudo, são meramente tendências contra as quais se deve guardar; assim como os infrequentes remendos enferrujados no metro, e as rimas muito raras que talvez não conquistassem o endosso integral do célebre dicionário de Walker. Elas não entravam o fluxo da canção e da imaginação, nem sugerem qualquer advertência adicional ao poeta senão que ele exerça a todo o momento aquele refinamento perfeito — embora sem dúvida irritantemente fatigante — que transparece em suas obras-primas técnicas. A obra do Sr. Bullen parece divisível em sete classes principais, cada qual habilmente e apropriadamente manejada. Há, para começar, a resposta puramente lírica à beleza absoluta da Natureza, opulentamente exibida em brados melodiosos como “A Mata” ou em devaneios irradiantes como “Noite à Beira do Lago”, formando, na mente do presente autor, o mais refinado florescimento do gênio de nosso escritor. Poder-se-ia consumir colunas enumerando os títulos de escol que se enquadram nesta categoria, de modo que não podemos aqui senão recordar alguns triunfos marcantes como os dois supracitados, a magia perfumada de “Meu Jardim”, a picardia pitoresca de “Onde Dançam as Efeméridas”, a majestade imponente de “A Tempestade”, a respiração vívida de “A Gaivota” e os poemas iniciais — menos seguros, talvez, mas repletos de irradiância dourada — “Uma Alameda Campestre” e “Na Mata”. Em todos esses versos, o fascínio e o êxtase são garantidos da maneira mais simples possível, sendo contudo de uma pungência extrema devido à aguda imaginação visual do poeta e ao seu eficaz domínio das palavras. Considerem, por exemplo, duas estrofes exemplares de “O
“Bosque”: “O bosque arborizado, Oh, rara delicia! Um recanto fresco, verde e isolado Onde suspira a brisa estival perfumada Por entre o olival e o prado de prímulas; Por entre ulmeiros, abetos e castanheiros Onde canta o rouxinol à noite. * * * O sino da aldeia toca fraco e distante, Soa sobre a terra dos prados e o vale, Flutua sobre o promontório e o pasto, Derrama-se sobre a colina e desce o vale Até que o Eco em êxtase Lança uma resposta de longe.” Uma segunda divisão da obra do Sr. Bullen está intimamente aliada à primeira, e é idêntica a ela no que diz respeito à maior parte das imagens. Esta é a poesia da natureza em que se encarna uma veia filosófica, mas na qual os elementos de cor e atmosfera sempre predominam sobre a ideia sobreposta. Excelentes exemplos desta classe são proporcionados por “Tua Paz Perfeita”, “Sinos Distantes”, “Esperança” e, acima de tudo, por aquela obra-padrão magnificamente élfica “A Música das Esferas”, que, na opinião de pelo menos um crítico, constitui o ápice absoluto do talento de seu autor. Não se pode resistir a citar fragmentos: “Uma vez eu vaguei em um triste Humor sonhador Numa floresta de verde manto, Salpicada de ouro. Pelos caminhos aéreos entrelaçados Até o solo ondulante Derramavam-se os raios suaves do poente Brilhando suavemente por toda parte. Nada notei até que um doce E maravilhoso canto Tremeu docemente do alto, Doce e longo. Era como se mil carrilhões De miríades de pequeninos sinos Se fundissem em rimas mágicas Flutuando debilmente pelos vales. * * * Havia feiticeiros naquele covil Silvestre, Agitando varinhas que enfeitiçavam com cantos Todo o ar? É em vão que sempre busquei, A Natureza sussurrante reina suprema. Oh, a angústia do pensamento, Seria… oh, seria apenas um sonho?” Um terceiro tipo de verso de Bullen é o francamente filosófico, com ideias apresentadas de forma direta e contendo apenas a quantidade de imagens necessária para a ilustração gráfica e graciosa dessas ideias. Este é um tipo de poesia que facilmente pode tornar-se estéril e prosaica nas mãos de um bardo inexperiente; mas o Sr. Bullen geralmente consegue afastar o demônio da Obtusidade e exibir, mesmo em suas linhas mais homiléticas, uma maestria de forma e desenvolvimento cuja qualidade arquitetônica a torna arte. “Meredith era um Browning em prosa”, escreveu Oscar Wilde, “e o mesmo era Browning.” O Sr. Bullen leu obviamente muito bem o grande psicólogo do verso do século XIX, mas foi astuto o suficiente para não o seguir nos labirintos mais sombrios de sua aridez rude e perversidade prosaica. Das peças didáticas de nosso autor, pode-se mencionar proeminentemente “Meu Credo”, “A Resposta de Deus” e, melhor de tudo, o soneto intitulado “Deus”, que merece ser reproduzido na íntegra como um exemplo perfeito de seu gênero: “O Universo Eterno examinais, Despojando-o de Deus. Vossos lábios declaram O infinito, eterno plano cósmico Desprovido de propósito. Vossos pensamentos ousados revelam A alma secreta das coisas, e só encontram A humanidade — uma ferida na face da Terra, O homem — apenas um ponto geométrico no espaço. Deus — um ciclo de átomos, surdos e cegos. Mas eu, com mais humildade, posso ver Deus nos olhos do riso e da dor, Em narcisos que dançam no prado, Em gaivotas brancas circulando onde o rio corre. Vosso Deus perdeis na lógica; o meu eu ganho No fundo da glória sonhadora de uma rosa.” Como um “quarto” ponto, podemos citar um grande corpo de versos amorosos que se estende por um longo período de tempo e contém alguns toques maravilhosamente comoventes do sentimento humano. Talvez menos distintiva do que outras fases da Musa do Sr. Bullen, ela possui, contudo, uma rara marca de intensidade e sinceridade; e não raramente um tom de balada quase elisabetano. Destacam-se neste campo “A Angústia do Amor”, “A Busca” e “Pluck One Rose and Give to Me” [Colhe uma rosa e dá-ta a mim]. Uma estrofe de amostra desta última vale a pena ser citada por sua vivacidade: “Colhe uma rosa e dá-ta a mim Bela Lynette. Mais não ouso pedir-te, Alegre Lynette. Queres colher a vermelha, vermelha rosa, Deter teu amante enquanto ele passa, Convidá-lo a demorar-se — ah! quem sabe, Esquiva Lynette?” Uma quinta classe, embora de modo algum numerosa, inclui os versos de guerra do Sr. Bullen, que contêm o mesmo fogo lírico que anima a poesia amorosa, e que atinge seu ápice em expressões breves como “Dado como Desaparecido”. Ainda mais exígua é a sexta categoria, *vers de société*, que encontra exemplificação em acrósticos engenhosos e tiradas descontraídas como “Dorothy”. Sétima e, no presente sistema de arranjo, a última, vem o grosso das produções humorísticas do Sr. Bullen, a maioria no dialeto dos campos petrolíferos canadenses que ele tão bem conhece. Aqui encontramos exibida uma versatilidade espantosa; pois se em sua poesia séria nosso autor mostra a delicadeza de um Tennyson, ele está em seus esforços cômicos proporcionalmente bem dotado da grotesquice bondosa e da estramboticamente robusta fantasia de um Dickens. Seu humor é genuinamente natural, e frequentemente quase efusivo; amigável em essência, e virtualmente intocado por sátira ou ironia. Era, em suma, o característico humor “saudável” do século XIX; sendo seu principal defeito — quando defeituoso — uma espécie de extravagância pitoresca à qual os maiores brincalhões vitorianos eram igualmente propensos. O reconhecimento geral da habilidade poética do Sr. Bullen tem sido gradual, mas gratificantemente constante. Ele tem sido um vencedor constante em todo tipo de concurso literário, e seu duplo lauro no jornalismo amador é um índice da posição que provavelmente alcançará. Ainda jovem, ele tem em seu crédito versos e passagens que jamais deveriam ser esquecidos, e com os anos podemos esperar um amadurecimento e uma perfeição técnica muito bem calculados para colocá-lo entre os verdadeiros líderes de sua arte. Um volume de seus versos reunidos, a ser intitulado “Fogo Branco”, tem sido recentemente discutido a sério, e inúmeras revistas já trazem evidências de seu gênio. No mérito de sua obra podemos ver uma nova demonstração da solidez dos fundamentos conservadores e da verdade básica de que o segredo da arte não reside no tema ou no meio, mas no grau de visão genuinamente fascinante ou extática do artista, seja qual for o seu humor ou direção. Clara, despretensiosa e rica sem excentricidade, a melhor poesia do Sr. Bullen poderia utilmente ser tomada como um texto por aqueles que lutam contra o modismo contemporâneo. Ele nos mostrou pelo exemplo que o fascínio não se cinge ao singularmente pervertido nem o verdadeiro sentimento estético ao freneticamente distorcido. John Ravenor Bullen nasceu em um ancestral lar deleitosamente arborizado de construção jacobitana em Bampton, Oxfordshire, Inglaterra; uma sede e um jardim de beleza que ele descreveu com poder em muitos de seus versos e no languoroso poema em prosa “A Casa de Ronevar”. No início da idade adulta, migrou com sua família para os distritos petrolíferos do oeste de Ontário, onde ainda se destaca como um pioneiro cultural, com crescentes interesses na vida literária da América do Norte. É solteiro e há muito sofre as vicissitudes de problemas de saúde; circunstâncias estas que tem suportado com bravura e minimizado em meio a uma abundância de labores intelectuais e estéticos e a uma série judiciosa de viagens pelas partes mais selvagens do sul do Canadá. Escritor em prosa além de poeta, ele é autor de muitas críticas agudas e de pelo menos um romance inédito, um refrescante romance de antigas rotas marítimas e tesouro de piratas intitulado “Da Boca do Sapo de Ouro”. O Sr. Bullen não está de modo algum inconsciente das fontes de sua inspiração, e sintetizou suas crenças estéticas em um vigoroso credo poético que bem pode servir como clímax e conclusão para esta modesta avaliação: “Há poesia para mim em todas as coisas: Um clarão de relâmpago de verão sobre os cumes das colinas; A canonada murmurante de um trovão sombrio; O sorriso pálido da lua, o riso quente e dourado do sol. Um poema há na raiva misteriosa do vendaval. Cada rosa é um cânone silencioso no mês de junho. O cheiro do feno recém-cortado, o murmúrio do rio. Sinos distantes, a resposta moribunda de um eco; O rubor da alvorada, a tarde carmesim do poente; A orquestra da floresta, o cometa flamejante Que oscila em sua órbita de bilhões de léguas; Os incompreensíveis e majestosos planetas, Os movimentos silenciosos do poderoso universo Enchem minha alma com uma música extática; E sentindo isto, não posso deixar de afirmar que Há poesia para mim em todas as coisas.”