Em geral, leia o que mais lhe interessa; mas, dentro desse leque, escolha as obras reconhecidas como a melhor literatura ou a erudição mais sólida. Não despreze as recomendações de professores, bibliotecários, autores e outros em posição de julgar. As bibliotecas públicas hoje oferecem conselhos valiosos, baseados nos gostos e necessidades individuais de cada leitor. Peça à biblioteca mais próxima um folheto sobre esse serviço — chamado “Lendo com um Propósito”. Nenhuma outra época foi tão rica quanto a atual em facilidades para a educação de adultos.
Tente ler pelo menos algumas coisas em cada um dos grandes ramos do pensamento e da expressão humana, para que possa ter uma ideia vaga e conexa do que se sabe sobre o universo, a matéria, o mundo, a vida orgânica, a humanidade, o fluxo da história e as maiores realizações da raça na filosofia, no governo, na literatura e nas várias artes. Não desdenhe de “esboços” e sumários, pois é melhor ter apenas uma noção superficial das coisas do que permanecer com vastas lacunas totais no seu conhecimento daquilo que o cerca. Tente não deixar que nenhum artigo em revistas de melhor qualidade, ou qualquer alusão no curso da leitura diária, permaneça totalmente sem sentido e mistificador para você. Encare cada assunto ou referência totalmente desconhecida como uma espécie de desafio, e não passe por ele até ter dissipado pelo menos as nuvens mais densas da ignorância. Recorra constantemente a livros de referência — ou faça anotações para consulta futura se tais livros não estiverem disponíveis no momento. Aprenda quais são os melhores livros de referência e onde encontrá-los nas principais bibliotecas.
Leia material leve em momentos livres, mas escolha extensões razoáveis de tempo — quando puder desfrutar da maior liberdade de interrupções — para ler coisas que exigem concentração e compreensão. Não persista na leitura depois que a fadiga começar a diminuir sua taxa de assimilação. É um desperdício gastar tempo que não traz resultados. Por outro lado, não se assuste ou desanime se não conseguir se lembrar de tudo o que lê. Ninguém consegue reter todos os fatos e imagens que já entraram em sua cabeça. É o bastante se restar um resíduo razoável — marcos básicos suficientes para lhe dar uma ideia geral das coisas, tornar inteligíveis os fenômenos cotidianos e as alusões, e capacitá-lo a encontrar conhecimento mais detalhado quando precisar dele. O principal valor da leitura é o exercício e a disciplina que ela proporciona à mente — a maneira como nos ensina a pensar, a ser curiosos de forma inteligente sobre as coisas, a reconhecer princípios gerais sob superfícies individuais variadas, a comparar e correlacionar assuntos e eventos aparentemente remotos, a saber onde e como obter informações, a apreciar e compreender a história e o nosso ambiente, a empregar o julgamento e a proporção, a desfrutar da arte e da beleza genuínas, e a transferir nosso interesse do trivial e sem sentido para o significativo.
Use seu próprio julgamento para equilibrar os diferentes tipos de leitura. Não se sinta preso a nenhuma ordem lógica, mas salte à vontade ao cobrir o campo da literatura pura — a menos que as obras de um determinado período o façam desejar ler mais sobre essa época. Ao abranger algumas das ciências, pode ser bom manter uma certa sequência aproximada em mente, para que os assuntos gerais venham antes dos mais particulares. Você pode, se desejar, seguir o costume das escolas e faculdades ao conduzir linhas paralelas de leitura. Assim como elas ensinam literatura antiga e moderna, ciência, história e arte ao mesmo tempo, você também pode estar lendo um livro de ficção recente, uma tradução de Virgílio, um resumo de história, um panorama popular de astronomia, uma antologia de poesia e um manual de escultura grega no mesmo período — pegando um quando o humor lhe atingir e talvez escolhendo outro na próxima vez que tiver um quarto de hora livre. Mantenha todos eles lado a lado, e um formará uma mudança agradável em relação ao outro. Mas não se sinta obrigado a fazer isso. Se você tem uma mente naturalmente monotemática, pode preferir ler um livro — ou um tipo de livro — de cada vez; ou talvez escolha traçar cursos definidos em literatura, artes, história ou ciências, seguindo cada um ininterruptamente até passar para outro. É tudo uma questão de gosto e temperamento. No final, gosta-se de ter uma ideia conexa e funcional das coisas — de ver o universo como um todo e de sentir profundamente a continuidade, o drama e os diferentes humores da história humana. Mas não há pressa em relação a nada disso.
Não se sinta obrigado a “ficar por dentro de todos os livros mais recentes” para ostentar uma erudição superficial e atualizada. Dos vários sucessos populares de uma determinada temporada, apenas uma fração minúscula — ou talvez nenhuma — costuma ter qualquer valor permanente. Os únicos livros que precisam ser de data recente são aqueles pertencentes às ciências, onde novas descobertas devem ser incluídas — ou talvez também à história, onde a interpretação científica moderna dos eventos e a escolha de matéria para ênfase são ocasionalmente de grande importância. Na literatura geral, uma grande proporção dos livros mais essenciais reside no passado — alguns deles em um passado de mais de dois anos a partir do presente. No entanto, não fará mal manter-se a par dos livros e autores recentes acompanhando as resenhas em periódicos padrão — como a Seção de Livros do New York Times ou as colunas de livros nas páginas de publicidade iniciais do Harpers e do Atlantic — e lendo alguns daqueles volumes que os melhores críticos concordam em recomendar.
Tente atingir certos pontos altos da literatura geral. No campo grego clássico, que forma a fundação de toda a nossa estrutura da cultura ocidental, Homero não deve ser perdido — e, de todas as várias traduções, a versão em prosa formada pela Ilíada de Lang e Leaf e pela Odisseia de Butcher e Lang é provavelmente a mais próxima em espírito do original. O fascínio desses contos eternos é tal que sua leitura não será um dever. Outras obras-primas gregas que devem ser lidas em boas traduções são as peças de grandes dramaturgos — como Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, Édipo Rei e talvez Antígona, de Sófocles, As Bacantes, Electra, Alceste e Medeia, de Eurípides, e algumas das comédias satíricas de Aristófanes como As Nuvens, As Aves e As Rãs. As Vidas de Plutarco — ou pelo menos algumas delas — e alguns dos diálogos socráticos de Platão (Apologia, Crítito, Fênon e parte da República — de preferência na tradução de Jowett) também são bons para completar a leitura helênica de alguém. Pode ser bom que a leitura desses livros ocorra em um momento em que se esteja estudando a vida e os costumes gregos no curso da leitura histórica. Um bom curso abreviado de leitura grega é formado pelo compêndio de William Cleaver Wilkinson chamado A Classic Greek Course in English.
A literatura romana deve nos dar Virgílio na tradução espirituosa de Dryden — ou talvez em alguma boa versão em prosa, que provavelmente se aproximaria mais do espírito do poeta. Não é preciso ler todo o Virgílio, mas uma navegada pela Eneida, Geórgicas e Bucólicas revelará inúmeras passagens que prendem a imaginação e permanecem na memória. Leia também Horácio — mestre supremo do verso leve e comentarista brincalhão da natureza humana, de quem tantas de nossos ditados proverbiais (como “justa medida” ou “até Homero dorme”) provêm. A tradução em prosa publicada pela Macmillan é provavelmente a melhor para se obter. Algumas das melhores orações de Cícero — especialmente os estrondos contra o traidor Catilina — mostrarão um interesse curiosamente contemporâneo nesta era de turbulência social e política. Nem se deve omitir os primeiros livros dos Comentários de César, nos quais ele conta sobre sua conquista da Gália em uma prosa da mais pura simplicidade. As Fábulas de Esopo — uma famosa coleção de contos folclóricos que obtemos da versão latina de Fedro — e algumas das meditações filosóficas de Marco Aurélio (escritas em grego por um imperador romano de sangue amplamente gálico) formam uma boa atenuação da nossa leitura clássica. É agradável ler os clássicos romanos enquanto se estuda a história romana; e para torná-los duplamente vívidos, pode-se intercalar alguns romances modernos sobre a vida romana — como Unwilling Vestal, de Edward Lucas White, e seu incomparavelmente fascinante Andivius Hedulio, A Friend of Caesar, de William Stearns Davis, ou os volumes gêmeos de Robert Graves, Eu, Cláudio e Cláudio, o Deus. Outros títulos modernos semelhantes surgirão imediatamente à mente. O Preparatory Latin Course in English de William Cleaver Wilkinson oferece um excelente atalho para a literatura romana. Ao lidar com o mundo antigo, somos também auxiliados por qualquer bom manual de mitologia — de preferência a Idade da Fábula de Bulfinch. É igualmente útil ter acesso a algum livro de referência como o Dicionário de Literatura Clássica e Antiguidades de Harper.
Um terceiro fluxo da literatura antiga que afeta profundamente nossa cultura é aquele incluído na Bíblia Judaico-Cristã, conhecida por nós principalmente na versão do Rei James. O livro de Jó, clássico e influenciado pelo helenismo, deve ser lido como um drama, enquanto os Salmos e o Cântico dos Cânticos são pura poesia. Outras partes devem ser lidas pelo interesse dramático, histórico e literário — entre elas o drama de Gênesis, a música profética de Isaías e a tragédia simples e o idyllicismo ético de Marcos e João. Mas para um conhecimento conexo de todo o contexto escritural, é aconselhável buscar um manual de resumo e interpretação como a História da Bíblia de Hendrik Willem van Loon.
A literatura medieval incluiu alguns espécimes amplamente separados se incluirmos, como deveríamos, tanto a europeia quanto a oriental. Devemos ler um bom bocado de Dante — em grande parte no Inferno — na tradução em verso branco de Cary, apreciando a grandeza e beleza potentes, e os toques de realismo humano. As viagens de Marco Polo compõem uma história envolvente e aventureira, e lançam luz sobre a mente medieval. Morte d’Arthur, de Malory, e as Crônicas, de Froissart, apresentam uma fase mais setentrional e romântica do medievalismo, mas poderiam muito bem ser lidas em sumários ou abreviações — como o livro de Bulfinch sobre as lendas arturianas e a condensação de Froissart por Singleton. Certos romances modernos criam habilmente o espírito deste período — notavelmente Ivanhoe e O Talismã, de Scott, e White Company e Sir Nigel, do falecido Sir A. Conan Doyle. Nosso próprio fluxo ancestral na Idade Média é vividamente representado pelo épico anglo-saxão primitivo Beowulf — um conto de monstros e heróis melhor lido na tradução de Clarence Griffin Child. Os Contos da Cantuária de Chaucer devem ser obtidos em uma edição com o inglês antigo ligeiramente modernizado para maior clareza. Assim lidos, não se podem encontrar contos mais picantes e fascinantes na literatura. Outro pedaço revigorante de medievalismo — cheio de maravilhas ingênuas e grotescos — é o volume pitoresco das viagens de Sir John Mandeville. No campo oriental, não precisamos ser solicitados a ler As Mil e Uma Noites ou a tradução de Fitzgerald do Rubaiyat de Omar. Todos esses clássicos medievais terão interesse adicional se os lermos simultaneamente com livros sobre a história e os costumes do período.
Descendo até o Renascimento (uma fase de progresso que surgiu em datas diferentes em lugares diferentes), encontramos os contos de Boccaccio, um clássico fundamental do qual dezenas de outros escritores beberam. Alguns destes devem ser lidos a todo custo. Outro clássico que sintetiza o espírito turbulento do Renascimento é a autobiografia de Benvenuto Cellini. Seleções do amorfo e mordaz Gargantua e Pantagruel, de Rabelais, vêm a calhar, assim como bons trechos do imortal Dom Quixote, de Cervantes, e um bom número dos Ensaios de Montaigne. Dentro da nossa própria corrente literária, surge em primeiro lugar e acima de tudo William Shakespeare. Leia-o do início ao fim, em doses de não menos do que quinze minutos por dia. Outros livros alimentam partes distintas da mente — Shakespeare alimenta o cérebro inteiro. Vimos em um capítulo anterior que uma proporção vasta das nossas frases conversacionais comuns provém dele. Essa é uma medida justa de sua importância e influência em nossa civilização. Uma introdução útil à leitura shakespeareana é Contos de Shakespeare, de Charles e Mary Lamb. Se acharmos Shakespeare especialmente afim à nossa índole, talvez queiramos investigar alguns dos outros dramaturgos elizabetanos, tais como Marlowe, Ben Jonson, Webster e Beaumont e Fletcher. De Shakespeare, é apenas um passo até Bacon — a quem certos fanáticos persistem e atribuem infundadamente as suas peças. Alguns de seus ensaios incomparavelmente lapidares devem ser lidos sem falta, embora seu profundo Novum Organum — uma das principais obras filosóficas de todos os tempos — possa muito bem ser deixado para os especialistas. O fato de Bacon ter sido considerado culpado de suborno em cargo elevado é uma prova triste de que o intelecto desacompanhado de senso ético não garante um caráter elevado. Não perca alguns dos fantásticos poemas alegóricos de Spenser, A Rainha das Fadas, e os poemas líricos de Ben Jonson, Suckling, Carew e Herrick. Enquanto prossegue com este curso de leitura, pode ser agradável ler também alguma obra moderna como O Renascimento, de Walter Pater.
O final do século XVII possui um clima diferente, ou um conjunto de climas, e constrói a ponte para a modernidade. Aqui, Milton domina. Leia todo o Paraíso Perdido para vivenciar a grandiosidade inesquecível e inimitável de conceitos, imagens e linguagem, e deleite-se com a melancolia assombrada de Lycidas, a força dos sonetos e a rara e etérea felicidade de Comus, “Il Penseroso” e “L’Allegro”. Parte de O Peregrino, de Bunyan, deve ser abordada, e o melhor dos poemas de Dryden dificilmente passará sem ser lido. Uma ou duas comédias típicas da Restauração — como O Homem Íntegro, de Wycherley, O Galã Selvagem, de Dryden, A Recaída, de Vanbrugh, O Estratagema dos Farsantes, de Farquhar, ou Amor por Amor, de Congreve — constituem uma chave admirável para o seu período, e não serão achadas excessivamente fortes para uma geração criada sob James Joyce e Ben Hecht. Para a serena beleza rural e a ingenuidade, O Completo Pescador, de Walton, deve ser lido pelo menos em parte, enquanto alguns dísticos do mordazmente satírico Hudibras, de Samuel Butler, não serão lamentados. Seleções do Diário de Pepys não podem ser puladas, assim como a pitoresca Urn-Burial de Sir Thomas Browne. O grande luminares continental deste período é Molière, cujas peças (como Tartufo, O Burguês Fidalgo, O Misantropo ou As Primas Ridículas) proporcionam uma leitura deliciosa em tradução. Contemporâneos dele são os dramaturgos Corneille e Racine, e o epigramatista La Rochefoucauld, cujas Máximas agudas e cínicas devem ser lidas em tradução.
Ao alvorecer o brilhante século XVIII, a literatura torna-se tão prolífica que precisamos escolher em meio a uma riqueza vergonhosa. O romance começa a tomar forma, e não devemos perder Robinson Crusoé, de Defoe; As Viagens de Gulliver, de Swift; Tom Jones, de Fielding; Tristram Shandy, de Sterne; Humphrey Clinker, de Smollett; e O Vigário de Wakefield, de Goldsmith. O surgimento do ensaio pode ser mais bem compreendido por meio de uma seleção dos artigos do Spectator escritos por Addison e Steele (de preferência aqueles que tratam de “Sir Roger de Coverley”), nos quais a prosa inglesa atinge o seu ápice em graça e vigor. A curiosa frescura, o wit e a vitalidade desses comentários leves sobre a vida contemporânea lembram os “colunistas” populares de hoje — F. P. A., R. H. L., Christopher Morley, Don Marquis e o falecido B. L. T. O teatro brilha com as comédias cintilantes de Sheridan — das quais Os Rivais e A Escola de Escândalo devem ser lidas. Na poesia, apreciaremos os versos retumbantes de Pope, a beleza pastoril de partes das Estações de Thomson, a felicidade de “A Aldeia Deserta”, de Goldsmith, a imortal Elegia de Gray, trechos tranquilos de Cowper, as letras singelas de Robert Burns e o misticismo profético de William Blake. A animada e absorvente biografia de Johnson escrita por Boswell dispensa recomendações. A Autobiografia de Benjamin Franklin traz a América para a cena. Os grandes historiadores Hume e Gibbon precisam ser lidos apenas em seleções. Da oratória política da época, os discursos de Burke oferecem a melhor leitura. Na Alemanha, testemunhamos o surgimento de Goethe e Schiller, ambos os quais devem ser notados. O Fausto de Goethe ultrapassa a linha divisória do século XIX. Na França, percebem-se as forças intelectuais inquietas e iluminadoras que conduziram à Revolução. O Contrato Social e as Confissões de Rousseau, bem como muito de Voltaire, talvez possam ser ignorados pelo leitor apressado; mas Cândido, de Voltaire, com sua sátira à oca filosofia do otimismo, é bom demais para ser perdido. No Zadig de Voltaire, encontramos um caso primordial daquele tipo de raciocínio dedutivo que mais tarde se tornaria a ferramenta principal do escritor de histórias de detetive.
À medida que o século XVIII transita para o século XIX, testemunhamos o apogeu daquele “avivamento romântico” que lidava com extravaga