Ao analisar as escolhas artísticas e teológicas presentes na obra *Auto da Barca do Inferno*, de Gil Vicente, reflete-se sobre o equilíbrio entre a crítica social da época e a simplicidade dos recursos simbólicos empregados pelo autor.
Falando da composição especificamente, cada personagem, ao entrar em cena, mantém suas características não só estéticas e físicas, mas também linguísticas. O que não é grande coisa, pois é bastante óbvio: se você tem personagens numa sátira e entra um homem cheio de status social, ele vai falar de um jeito que corresponda a isso. O personagem bem construído tem uma fala representativa dele. Quando chega o parvo, ele fala errado e é grosseiro; quando entra a cafetina, ela tem um jeitão característico. No montante dos personagens, Gil Vicente tentou englobar todos os grupos da época. Ele pega uma cafetina para representar esse tipo de pecado; pega o parvo para não deixar ninguém de sobrar, sendo um homem humilde e simplão; pega o judiciário, a galera que manda nessa parte; o frade, representante do clero; e dois comerciantes — na verdade, um sapateiro e um agiota.
Com isso, ele tenta fazer uma crítica social para atingir todo mundo, o que também é bastante óbvio de se esperar e bem fácil de fazer, principalmente em uma obra moralizante. Eu vi gente elogiando isso, mas é falta do que elogiar. Para mim, começa a ficar um pouco melhor quando cada personagem traz algum símbolo do seu pecado. Só que ficar analisando esse aspecto simbólico dos itens é meio patético e sem graça, porque os objetos que cada personagem traz são realmente muito óbvios. Vou citar alguns e depois falar do que gostei.
O Onofre, por exemplo, o agiota, chega carregando uma bolsa com dinheiro, e o anjo diz que ele não vai entrar com aquilo porque representa sua cobiça. Ele responde que joga fora, mas o anjo retruca dizendo que a cobiça está no seu coração. É muito óbvio. Será que em 1500 não existia criatividade? Alguns dizem que é anacrônico e que na época seria legal, mas por que não dava para ser criativo? Tinha que ser o "senhor óbvio". Outro exemplo é o sapateiro, que aparece com os utensílios de trabalho, supostamente demonstrando que só pensava nisso. O frade é o que tem mais itens, todos dando a entender que viveu uma vida comum e não como um frade deveria viver segundo a sociedade ou a igreja. Por isso ele chega com namoradinha e itens de batalha, como escudo, capacete e espada.
Agora, tem um personagem que é o judeu, e esse é engraçado. Quem leu sabe que ele chega com um bode. O judeu poderia chegar com uma bolsinha de dinheiro, mas essa foi de matar. Quando eu vi o judeu chegando com um bode, achei engraçado para caramba; a sacada foi boa, nessa ele matou a pau. Se você já leu um pouco do Antigo Testamento, sabe para que serviam os bodes. No cenário da peça de Gil Vicente, onde a religião cristã é considerada a verdadeira — eu sou protestante e cristão, então também acredito nisso, mas na cabeça de um judeu a religião dele é a verdadeira —, ele quer entrar com um bode. Isso é a própria rejeição da fé cristã por parte do judeu. Não tem segredo nenhum, mas achei o simbolismo do bode muito curioso e interessante, sendo a única parte simbólica do texto que valeu a pena. O resto é tudo muito óbvio.
Se alguém for fazer outra análise do aspecto simbólico, como o Tibúrcio, talvez como católico elogie mais e ache que tem profundidade. Não tem profundidade nenhuma nisso, achei tudo muito óbvio. A pessoa pode querer viajar e achar que, no contexto, o frade era dominicano e tentar ver por esse aspecto, mas é muito ruim. O bode, não; o bode foi de matar.
Deixa eu falar um pouco sobre a teologia de Gil Vicente, porque não tenho como não falar disso, já que me incomodou do começo ao fim. Essa soteriologia um tanto esdrúchula do Gil Vicente… Eu sei que é uma sátira e que ele está fazendo várias críticas à própria igreja, tudo bem, mas a soteriologia — que é a doutrina da salvação — apresenta aquela ideia completamente pagã de uma balança moral. Isso não é cristianismo, nem no catolicismo; não existe isso na soteriologia cristã. Não existe essa história de balança moral onde, no grande dia, se você fez mais bem do que mal, a balança sobe e você vai para o céu, e se inclinar para o lado do mal, vai para o inferno.
Outra questão é que ele copia o Caronte. Todo mundo sabe quem é o Caronte, aquele barqueiro maluco do Hades, da mitologia grega, geralmente representado quase como a própria morte, que cobra uma ou duas moedas para levar os mortos. Eu vi algumas pessoas tentando salvar a parte teológica da peça dizendo que, diferente dos personagens humanos, o diabo e o anjo são apenas personagens alegóricos. Mas por quê? Na fé cristã, o inferno não é do diabo de maneira nenhuma, ele não é o dono do inferno. Claro que o Caronte também não é, mas aqui você vê que, diferente da teologia cristã, o diabo está felizão levando pessoas para o seu lugar. É um negócio bem estranho. Você pode dizer que ele era só o barqueiro, mas achei muito esquisito, porque na fé cristã o inferno é preparado para o diabo e os seus anjos.