Ouço os sinos desta torre imponente;
Os sinos de Natal sobre uma noite aflita;
Soando com escárnio em hora inclemente
Sobre um mundo em sobressalto, verde e espanto e desdita.
Seus tons maviosos em mil tetos retumbam;
Um milhão de almas inquietas ouve o carrilhão;
Contudo, em solo estéril suas mensagens afundam —
Seu espírito degolado pela espada do Tempo em vão.
Para que soar fingindo anos de ventura
Quando a calma e a paz governavam a planície plácida?
Para que despertar com notas de candura
As lágrimas de quem nunca mais terá alma lúcida?
Como eu vos conhecia — tanto tempo atrás —
Quando dormia a antiga aldeia na encosta em flor;
Vossos acentos soavam sobre a neve audaz
Em alegria, paz e esperança sem fim e fulgor.
Em sonhos ainda vejo a modesta torre;
O telhado pontiagudo, negro contra o luar;
As janelas góticas, onde um fogo socorre
E empresta encanto ao metal a soar.
Adornada a sebe sob a luz prateada
Que prata à própria prata vinha somar;
Graciosa cada vereda, colina e torrente sagrada,
E alegre o espírito do ar a pinho a chegar.
Uma crença simples professava o camponês,
Numa ventura singela entre os montes vivia;
Eram leves seus corações, sem fingimento ou altivez;
Alentados pelas alegrias que a razão provia.
Mas na cena uma praga hedonda se infiltra;
Um nimbus luzidio paira sobre a extensão;
Sombras demoníacas rondam a mata que silencia e filtra,
E a cada porta há uma silhueta de maldição.
O Tempo, o bobo, caminha sombrio pelo prado;
Sob seus passos a alegria desvanece e vai.
Corações antes leves sangram em pranto amargo e pesado,
E almas inquietas proclamam o mal que ora cai.
Conflito e mudança assolam o mundo vacilante;
Pensamentos selvagens povoam a mente comum;
A confusão desaba sobre uma raça delirante,
E o crime e a loucura vagueiam sem freio algum.
Ouvi os sinos — os sinos malditos e zombeteiros
Que despertam vagas memórias para gelar e assombrar;
Soando e soando sobre infernos milhares, traiçoeiros —
Amigos da Noite — por que não vos calais de uma vez, sem parar?