Depois da análise de *Oréstia* e *Prometeu Acorrentado*, de Ésquilo, voltamo-nos para uma das obras mais fundamentais do teatro grego: *Édipo Rei*, de Sófocles. Em sua *Poética*, Aristóteles consagrou este texto como a maior de todas as tragédias gregas, conferindo-lhe uma autoridade crítica incontestável ao longo da história da literatura ocidental.
Sófocles foi contemporâneo de Ésquilo e chegou a superá-lo nos concursos trágicos de Atenas, registrando uma vitória notável por volta de 468 a.C. Ele se tornou o dramaturgo mais premiado dessas competições, conquistando mais de setenta vitórias entre as mais de cento e vinte peças que escreveu. Lamentavelmente, apenas sete dessas tragédias chegaram preservadas até os dias de hoje.
Como em toda tragédia clássica, a obra coloca o protagonista diante de uma transgressão grave que exige reparação perante os deuses e os homens. Na classificação proposta pelo crítico Northrop Frye, a narrativa se enquadra perfeitamente no modo mimético alto. Embora a figura de Édipo tenha se tornado amplamente conhecida nos tempos modernos por meio do complexo formulado por Sigmund Freud na psicanálise, o texto original de Sófocles transcende essa leitura e sustenta sua força por si só, sendo uma leitura rápida, acessível e indispensável.
A ação se inicia com a cidade de Tebas mergulhada em profundo desespero. O sofrimento da população não provém de distúrbios civis internos, mas de um castigo divino: uma peste devastadora enviada por Apolo, a divindade arqueira que fere de longe, como já se conhecia desde a *Ilíada*. Em meio à mortandade, o povo recorre ao rei Édipo, que anteriormente salvara a cidade da ameaça da Esfinge. O texto assinala, de forma curiosa, que ele livrou Tebas do tributo imposto pelo monstro — quase como uma precoce crítica à opressão tributária —, substituindo o flagelo anterior pela instalação de uma monarquia que viria a se revelar sinistra.
Reconhecido pelos concidadãos como o mais sábio entre os homens, Édipo antecipa as necessidades do reino e revela já ter enviado seu cunhado, Creonte, ao oráculo para descobrir a razão do infortúnio e a sua devida solução. Creonte retorna com revelações graves: o deus Apolo exige que a pólis seja purificada da mácula que ainda abriga. Trata-se da impunidade que cerca o assassinato do rei anterior, Laio. Para aplacar a fúria divina, a cidade precisa executar ou expulsar definitivamente o culpado, que ainda vive oculto entre os tebanos.
Édipo afirma desconhecer o episódio; relata ter ouvido elogios à retidão de Laio, mas nunca o conheceu pessoalmente, pois chegara ao reino após a tragédia. Creonte esclarece que o antigo monarca fora assassinado em uma estrada nos arredores de Tebas. Diante disso, Édipo empenha sua palavra publicamente, ordenando uma investigação rigorosa para solucionar o crime. Ele convoca qualquer pessoa com informações a comparecer ao palácio e decreta uma maldição solene: o assassino será banido ou executado, e, caso tenha sido acolhido dentro de sua própria casa, que o mesmo castigo recaia sobre sua cabeça, selando assim o laço trágico de seu próprio destino.
A narrativa fornece pistas sobre como Édipo assumiu a coroa, embora o mito seja muito mais amplo e anterior à dramaturgia de Sófocles. Elementos dessa lenda aparecem espalhados por outros autores da tradição grega arcaica, como Ésquilo, Píndaro e Hesíodo, além de alusões preservadas na obra homérica, entre a *Ilíada*, a *Odisseia* e os *Hinos Homéricos*.