Quando a fé que esmaece e a moral mutilada
Lutam para expulsar rumo aos céus a astuta fada;
Quando à idade de prata a era de bronze sucede,
E o gênio sufoca nas dobras da ganância e da rede;
Em meio aos escombros, vê uma lâmpada acesa,
Brilhando com o viço da áurea natureza;
Enquanto a virtude oscila, prestes a expirar,
O bravo Goodenough sabe o fogo sagrado guardar!
Bardo imortal, cujos versos límpidos mantêm
O poder de Aônia e o saturnino bem;
A cuja arte Anfião em vão faria oposição;
Cuja pluma piedosa tem dos deuses a bênção:
Te cabe com arte purificar nosso dia infesto,
Elevar a alma e afastar todo o pecado e resto!
Feliz a hora em que tua flauta dórica
Ecoou pelos montes, domando a campina histórica;
Pã com suas Siringes brandiu um tom mais suave,
Contente em copiar quem reinava com graça e chave:
E desde então teus cantos jamais cessaram;
Em número e melodia, sem fim se multiplicaram.
Seja qual for teu estilo, seja qual for teu tema,
O influxo pieriano adorna a rica correnteza e o lema,
Força sem futilidade, virtude sem pieguice;
As Nove te outorgam gênio que não esmorece:
Fácil naturalidade supre tuas forças fecundas;
A fonte transborda, de águas nunca imundas.
Vemos teus cantos, fruto de anos sem fim,
E ao olhar, novas feitiçarias desabrocham assim;
Em vão buscamos escolher o mais sublime,
Pois todos primam, sem falha que o mar desime:
Incapazes de saber que verso mais louvar,
Louvamos o todo, a coroa sem hesitar.
Como pulsa o sangue ao lutar com a página
Onde pairam os portentos da ira divina e trágica,
Ou com aguda ânsia ao folhear
Para de Érico e sua urna dourada inteirar.
A Rainha morta da França teu rancor desculpa,
Tanto gênio há na censura que culpa;
Nem nos cabe murmurar quando teu orgulho puritano
Condena o pobre Carlos, cantando o regicídio insano.
Assim o grande Milton por seu canto parnasiano
Fez a rebelião soar menos mal ao gênero humano.
Que prazeres surgem quando em teu verso ático
Ouvimos as glórias de nosso solo empático:
Lá chefes caminham, soldados agem com arte,
E sombras ancestrais movem o coração de toda parte;
O passado em ti ganha segunda vida e extensão,
E a velha Nova Inglaterra te proclama sua porção.
Como se agiganta a mente ao ver teu tesouro sagrado,
E ávida conta cada verso que foi criado;
Estrofe a estrofe traz um novo agrado,
Até que o seguinte brilho é renovado;
Tmolus, o sábio, revê seu juízo antigo,
Pois Febo decai ante tal amigo.
To Arthur Goodenough, Esq. (Poesia #135)