“Candidus auratis aperit cum cornibus annum
Taurus, et adverso cedens Canis occidit astro.”
—VIRGIL.
Ó bosques de galhos nus, e relva úmida e fria,
Folhas emaranhadas e mofo que hálito exala e cria;
Ó céus chuvosos, que pranteiam a dor da Natureza,
E lamentam o reino boreal do Inverno com certeza:
Escutai a nota que vibra no ar langoroso,
E ordena à Terra exausta que descarte o fardo oneroso!
Pã, embriagado com as uvas de outono, e estendido
Por todo o chão, um ser de vigor adormecido,
Sente o sol que retorna; e enquanto um raio invade
Seu olho coberto, rompendo o sonho com claridade,
Volta-se em seu leito de folhas, olha o prado além,
E agita-se para tocar a flauta silvestre bem.
A Natureza enlevada ouve, e de cada vale fagueiro
Uma banda de fadas saúda a estação por primeiro;
Unem-se à dança e, sobre as árvores ávidas de esmero,
Lançam doce encanto; enquanto do mar ocidental
Obrando o chamado, Zéfiro suave e brandial
Espalha pelo vale verdejante flores de matiz variado.
Trazido pela maré tépida do Austro venturoso,
O povo emplumado cavalga em grandeza de porte vistoso;
Com canto alegre deleitam as campinas,
E cantam eterna juventude em harmonias finas.
Fresco com o néctar das colinas que o degelo banha,
O manancial fresco e isolado suas águas espalha;
Fluem rápidos os regatos da urna coberta de junco,
Erguendo à margem a fêmea samambaia num tronco,
Sussurrando de alegria às sombras onde as prímulas vão,
E brilhando alegres pelas clareiras da região.
Sobre o pântano úmido as setas de Apolo descem
Em chuvas de ouro, que piedosamente estremecem
O Píton gélido do Inverno, cujo pavoroso poder
Tão recentemente envolvia o ramalhe poder.
Enquanto isso, seus raios inspiram o pico grato,
Acalmam os vales verdes, e adornam o mato;
Douram toda a criação com uma luz primaveril
Que se funde a cada aroma, som e visão sutil.
Brilham agora as colinas, e os vales estendidos além,
E os regatos de salgueiros, e os bosques de verde bem;
Enquanto naquele recôncavo entre os cumes acolhedores,
A querida e familiar aldeia repousa sem temores:
Em cada teto brilhante e espiral reluzente nós vemos
Um charme redobrado, e uma graça que excedemos.
Agora serpenteiam as alamedas verdejantes, forradas de grama,
Onde com seus rebanhos o pastor ágil se derrama,
Rumo às colinas ensolaradas, para ali jazer
À vontade sob o azulado céu de abril a ver:
Sobre encostas floridas os cordeiros saltitam brincando,
Enquanto os jovens pastores sonham as horas passando.
Florescem agora as sebes, e o prado ondulante e farto
Onde pacíficas vacas se alimentam num repouso do andarto;
Despertam os campos agora, cuja face terrena há de conhecer
O arado útil, e ricas searas hão de crescer.
Homem ingrato! Que tais dádivas ousa desprezar,
Nem contempla o reino rural com o olhar a arrebatar!
Quão fútil o bardo que escarnece de um tema pastoril,
E esquadrinha a alma por algum sonho obscuro e sutil,
Negligencia o mundo por coisas que jamais há de ver,
E despreza o esplendor da simplicidade a valer!
Vão é seu canto, cuja imaginação restrita se prende
A trivialidades urbanas, e ao que a natureza ofende;
Brilha com falso fogo, e morbidez repete em profusão
Vazio apaixonado e calores do caos em visão:
Às cenas silvestres as Nias diletas pertencem,
E sorriem seu melhor quando as canções do pastor se estendem!
Assim, busco a Beleza na alvorada
Dos dias de abril, ou na relva orvalhada
Que repousa sob a luz vespertina de Arcturo,
Ou nas vigílias da noite primaveril de refúgio escuro.
Que a lira terna explore cada ramagem verdejante,
E cante as Nereides da praia sossegada e cantante;
As Dríades langorosas, e os Sátiros velozes no chão,
E o barbudo Pã, que salta com cascos de lhama e união;
E ninfas e camponeses que entoam cantos arcadios na campina
Ao crepúsculo, pelas planícies férteis da rotina.
Deixai-me buscar a Beleza longe da contenda e mal
Do comércio corrosivo e da vida congestionada em geral,
Onde a Natureza primal desperta fogo espontâneo e puro,
E fantasias de ouro agitam a lira no mundo escuro.
Nenhuma parede além das colinas o santuário do poeta terá;
Nenhum teto senão o céu primaveril que lá está;
Nenhuma chama de altar senão Febo, ou o clarão aceso
Da pálida irmã e seus raios noturnos de repouso ameno;
Nenhuma vela senão as estrelas há de iluminar o fano;
Nenhum incenso há de sustentar o ar profano
Senão o que se ergue das matas que se desdobram no ar,
E margens floridas, e solidões a pulsar,
Nenhum hino senão o dos pássaros a cantar,
Ou regatos murmurantes, ou o gado a mugir no lar,
Ou o ronronar pensativo da brisa perfumada
Nos juncos altos e árvores eólias encantada.
Assim o jovem poeta, ao cair da tarde, cantava
Da encosta coberta de amores-perfeitos onde deitava,
Com os olhos fixos na vasta paisagem ao redor,
De bosques oscilantes e solo onde as prímulas dão o melhor,
E riachos reluzentes, vermelhos com o fogo do poente,
E telhados de chalés, e esguias torres de vila contente,
E colinas verdejantes, floridas com alegria
Pelos doces sinais da primazia do dia:
Ele silenciou, arrebatado pela visão primaveril,
E em tons sublimes irrompeu de novo, sutil!