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Por que Sócrates defende a mentira?

Por que Sócrates defende a mentira? Hípias Menor

Neste corte de análise filosófica, os debatedores examinam o diálogo *Hípias Menor* de Platão, concentrando-se na polêmica tese socrática de que aquele que mente voluntariamente é superior àquele que mente de forma involuntária.

A posição de Hípias é complicada, pois o retrato que temos dele foi construído por seu principal rival intelectual, dando a impressão de que ele está sempre errado nas aferições. Vale lembrar que o *Hípias Menor* e o *Hípias Maior* são duas obras separadas de Platão: a primeira trata de justiça e superioridade moral, enquanto a segunda aborda o conceito de belo. Sendo obras da juventude de Platão, nelas o autor ainda está lapidando o seu estilo literário.

O cenário inicial da obra mostra Hípias tendo acabado de sair de uma apresentação pública para uma multidão, onde exibiu sua habilidade retórica. Sócrates, acompanhado por um intermediário secundário cuja participação logo se encerra, aproxima-se de Hípias. Sócrates explica que não quis fazer perguntas durante o evento para não atrapalhar o desempenho do sofista, mas agora, a sós, quer esclarecer algumas dúvidas. Hípias, demonstrando sua típica autossuficiência, afirma que responde a qualquer um sobre qualquer assunto.

O questionamento de Sócrates começa com uma comparação entre dois personagens homéricos: Aquiles, o bravo protagonista da *Ilíada*, e Odisseu (Ulisses), o protagonista astucioso da *Odisseia*. Hípias aponta que Homero apresentou Aquiles como o mais bravo, verdadeiro e simples, e Odisseu como o mais versátil, ardiloso e falso. Sócrates, por sua vez, questiona essa dicotomia simplista, argumentando que Aquiles também demonstra versatilidade e sugerindo que verdade e falsidade não são mutuamente exclusivas nas naturezas humanas.

A partir daí, a discussão envereda por uma série de silogismos conduzidos por Sócrates. Ele argumenta que os mentirosos precisam de inteligência e habilidade específica para enganar, o que significaria que eles sabem o que estão fazendo e, portanto, não são ignorantes, mas sábios em sua área de atuação. Por outro lado, alguém incapaz de mentir seria ignorante nesse aspecto. Consequentemente, aquele que é mais conhecedor e capaz de falar sobre um assunto é também o mais capaz de mentir sobre ele, sendo considerado, dentro dessa lógica, superior ao menos conhecedor.

Essa linha de raciocínio gera estranhamento, pois parece equiparar mentir propositalmente a uma virtude superior ou, ao menos, a uma capacidade técnica mais elevada. O cerne da questão recae sobre o conhecimento e o discernimento: aquele que conhece a verdade e deliberadamente escolhe mentir estaria exercendo uma capacidade deliberada. Hípias e Sócrates parecem concordar, em certo ponto do diálogo, que a justiça está atrelada à capacidade e à eficiência da ação, e não necessariamente a uma intenção moral transcendente.

Para a mentalidade grega daquela época, a avaliação das ações humanas muitas vezes não passava por um crivo moral transcendente, mas focava na *práక్సిς* — no fazer pelo fazer e na eficiência técnica da ação. O indivíduo mais eficiente em uma tarefa, mesmo que essa tarefa seja mentir, era avaliado pelo grau de maestria e capacidade que demonstrava. Essa ênfase na eficiência sobre a moralidade pura é o que choca o leitor moderno, mas reflete o terreno conceitual em que Platão constrói esses primeiros diálogos.