Este vídeo extra complementa a série dedicada a explorar o mito de Orfeu, servindo para explicar por que ele é considerado o mito mais moderno e importante que temos. Embora a intenção inicial fosse abordar diretamente esse tema, a leitura recente da peça *Eurídice*, de Jean Anouilh, acabou desviando o foco da gravação para a grandiosidade dessa obra.
O mito de Orfeu é o mais moderno e abordado de todas as figuras da antiguidade grega na era moderna. Outros mitos famosos também receberam atenção, mas tiveram destinos diferentes. Édipo, por exemplo, acabou sendo abduzido pela psicanálise, de modo que as pessoas pensam mais no complexo de Édipo do que na peça *Édipo Rei*, muitas vezes sem ter lido nem Freud nem Sófocles. Sísifo foi apropriado pela filosofia de Camus, e Tântalo foi praticamente esquecido. Por outro lado, há adaptações primorosas de autores como o dramaturgo libanês que escreve em francês — cuja peça e filme merecem um destaque futuro.
Enquanto mito literário, Orfeu foi constantemente revisitado ao longo dos séculos. Gérard de Nerval o abordou em um de seus poemas mais belos, *El Desdichado* (O Despedaçado), pertencente à coletânea *As Filhas do Fogo* (*Les Filles du Feu*), usando um título em espanhol por afinidade com a língua, embora o poema seja em francês. Victor Hugo também o integrou em diversos poemas de várias de suas coleções. O Romantismo já se inspirava muito na figura de Orfeu, mas foi o romantismo tardio francês — especialmente entre 1830 e 1848 — que encontrou nele a essência perfeita. A busca por um sonho, a descida aos infernos, a cometer um erro trágico (*hubris*), o recolhimento na poesia, o afastamento do mundo e a resistência ao chamado das bacantes (as filhas de Baco que incitam ao prazer mundano) moldaram a imagem do poeta lírico. Essa figura encarna perfeitamente o "sol negro da melancolia" (*le soleil noir de la mélancolie*), verso presente em vários poetas românticos franceses do século XIX.
A modernidade, compreendida a partir dos marcos da queda de Constantinopla em 1453 e do descobrimento das Américas em 1492, viu o reavivamento de vários mitos, mas nenhum com tanta força quanto o de Orfeu. Ele se tornou o símbolo supremo do Romantismo e dos movimentos subsequentes que nasceram como seus filhotes: o decadentismo, o simbolismo, o parnasianismo e o dandismo. A figura de Orfeu encaixa-se perfeitamente nisso por ser um poeta lendário dentro da própria ficção; um poema sobre Orfeu é, em última análise, um poema sobre o próprio poeta, como se houvesse uma epopeia em que Homero fosse o protagonista assistindo ou ouvindo sobre a Guerra de Troia.
Embora o século XVII tenha concentrado a literatura clássica europeia (com Shakespeare, Calderón de la Barca e Lope de Vega, à exceção do pré-romantismo e romantismo alemão posterior), e mitos como Édipo, Medéia, Antígona e Sísifo tenham tido seus momentos de destaque — como na releitura modernizada de *A Máquina Infernal* de Jean Cocteau —, nenhum deles alcançou a persistência de Orfeu. Peças como *Eurídice* de Jean Anouilh, lançada em plena Segunda Guerra Mundial, em 1941, demonstram uma força dramática avassaladora que supera até mesmo outras tragédias do autor, como *Antígona*.
Enquanto outros mitos clássicos aparecem e somem por séculos inteiros da literatura, o mito de Orfeu resiste de forma contínua. Ele se faz presente com profundidade e nuance em obras do século XVI, XVII, XVIII, XIX, XX e até mesmo no século XXI, atravessando cinco séculos de produção artística ocidental sem nunca monopolizar totalmente a cena, mas jamais deixando de ser retratado por grandes nomes. É por essa permanência ininterrupta que Orfeu se consagra como o mais moderno dos mitos. Com isso, fecha-se esta série de vídeos, lembrando que mais tarde haverá transmissão ao vivo para darmos continuidade às leituras de Victor Hugo, especificamente *O Último Dia de um Condenado*.