Nesta análise da *Ilíada* sob a ótica da teoria mimética de René Girard, examinam-se os mecanismos profundos da violência e do desejo recíproco que movem os épicos homéricos. O autor do vídeo discute passagens específicas do poema para demonstrar como o conflito, ao atingir um ponto de saturação, transcende suas motivações originais e se transforma em pura busca por aniquilação.
A análise mimética explica uma cena que muitos leitores não compreendem bem, como ocorre no Canto Sete da *Ilíada*. No finalzinho desse canto, há o duelo entre Ajax, o grandão, e Heitor. Parece que os dois vão se matar, mas de repente eles se abraçam, trocam carícias e presentes, e fica por isso mesmo, com cada um voltando para o seu exército. Existe uma análise profunda para isso. Nesses cantos da história, há propostas de trégua, mas os gregos já não aceitam mais. Eles nem querem saber de Helena; o objetivo agora é destruir Troia inteira. É tudo ou nada, eles dão *all-in* na guerra.
Homero é genial e, mesmo que possamos estar fazendo uma análise anacrônica, ele teve um vislumbre da verdade sobre os conflitos humanos. Afinal, eles já estão em uma guerra há nove anos e já houve muita matança dos dois lados. Provavelmente, aquele tipo de duelo já havia acontecido antes: chamam o principal de um lado, o principal do outro, para tentar resolver, e aquilo dava em nada. Cantos antes, acontece algo semelhante quando Páris está prestes a morrer e uma divindade aparece do nada para salvá-lo e retirá-lo do campo de batalha.
Isso significa que esse tipo de coisa já era recorrente; eles sabiam que aquele duelo não resolveria nada. Se você mata um cara, o outro lado diz que não vai entregar ninguém e que vai se vingar, indo lá e matando mais um. É assim que acontece todo tipo de guerra e conflito: você quer algo que a outra pessoa tem e não pode ter, então começa a brigar. Chega um ponto, no entanto, em que a violência é tamanha que o motivo principal que a causou já não importa mais. O que importa é a aniquilação do rival, e é exatamente a esse ponto que a história chega.
Isso fica escancarado quando os guerreiros entendem que não adianta mais lutar e fazem uma trégua entre si, pois percebem que ambos são favorecidos por Zeus. Eles sabem que, se um matar o outro, Zeus ficará magoado e lançará uma maldição sobre o campo oposto; além disso, o mais provável é que ambos acabem mortos juntos, resultando em um empate que não resolve a guerra. Contudo, eles são apenas guerreiros, não os principais envolvidos na contenda, e não podem decidir os rumos políticos da guerra. O que podem fazer é simplesmente desistir, e essa é a única forma de resolver um conflito: desistindo, deixando de lado o ego e a virilidade. É isso o que acontece, e quando eles entendem isso, surge a trégua. Mas, em um nível macro, o objeto original já não importa mais; agora o que vigora é a violência desenfreada e a destruição total dos troianos. Isso não tem nada a ver com *hybris*; é puro conflito mimético e a pura realidade da violência.
A teoria mimética assume justamente isso: a violência começa em um estado onde eu desejo algo que não posso ter e que a outra pessoa tem, exigindo que eu elimine o outro para obter tal coisa. A violência começa assim, mas chega um momento em que o objeto inicial desaparece e resta apenas a destruição, a raiva e o ciclo de vingança. Qual seria a solução para isso? A resposta dada por Jesus Cristo, o Rei dos Reis: dar a outra face. Você não vai rebater a violência com mais violência, você dá a outra face. Ainda bem que isso não aconteceu na história da *Ilíada*, pois se Heitor desse a outra face para Ajax, estaria perdido, e Zeus certamente lançaria raios e trovões em cima dos gregos.