Neste vídeo, o autor apresenta uma resenha conjunta dos clássicos *Alice no País das Maravilhas* e *Alice Através do Espelho*, de Lewis Carroll, destacando como a obra vai muito além de uma simples história infantil ao consolidar o gênero *nonsense* e dialogar tanto com o público jovem quanto com o adulto.
E aí, pessoal do Universo Antares, sejam bem-vindos a mais um vídeo aqui no canal. Dessa vez, eu vou trazer mais um vídeo de resenha. Não, ainda não é o Lovecraft, mas eu prometo que vai ser o próximo vídeo; já vamos ter a continuidade aí da nossa playlist de Lovecraft. Mas, neste vídeo, eu não pude deixar de comentar sobre um livro que li porque fiz algumas outras leituras e essa me chamou bastante a atenção, que é *Alice no País das Maravilhas*. Então, hoje eu vou comentar sobre os dois livros. Este daqui é mais um livro de ilustrações também, que eu vou apresentar ao longo do vídeo, e eu aguardei para fazer este vídeo porque a gente já tem live aqui no canal, tanto o Lucas quanto a rapaziada aí já fizeram vídeos sobre, e também fez parte de um desafio literário aqui no Universo Antares, em que basicamente o desafio era dar uma continuação, digamos assim, para *Alice no País das Maravilhas*, para o primeiro livro.
Nesse caso, eu li os dois livros de uma vez, porque eles são bem curtinhos, como vocês podem ver. Eu li nessa edição aqui da Pandorga, muito charmosa por sinal, e eu queria comentar um pouco com vocês sobre ela. Porque, assim, *Alice*, se a gente for parar para pensar do ponto de vista de símbolo, virou um marco na cultura pop, sabe? Não só do ponto de vista de estilo, mas do ponto de vista de conceito, aquele conceito do personagem que é tirado do seu mundo e adentra um mundo completamente novo. Isso a gente já tinha exemplos na época, mas *Alice* com certeza foi uma das personagens que basicamente solidificou esse conceito na literatura e em outras mídias, consequentemente.
Mas o que torna *Alice no País das Maravilhas* tão bom? Eu já tinha lido — vocês podem ver aqui na estante — *O Mágico de Oz*, e eu amei *O Mágico de Oz* porque ele tem aquela narrativa infantil, mas que tem muitas comparações boas, tem muitas metáforas boas, muitos paralelos que a gente consegue encontrar, fora o carisma dos personagens. Mas eu não tinha lido *Alice* ainda. O que eu achei interessante — e que vale, na minha opinião, a leitura e vale um vídeo de resenha — é que eu conheci *Alice* através das adaptações, tanto do Tim Burton quanto dos videogames. *Alice* ganhou diversas adaptações ao longo dos anos; é um livro muito antigo, é um clássico, então é natural que haja diversas adaptações sobre esse material em específico. Mas eu nunca tinha conhecido o material original, digamos assim, a obra original. E aí, por conta disso, até por conta dos vídeos que já foram feitos aqui no Universo Antares, eu decidi que era hora de experimentar essa história por mim mesmo.
O que eu acho que vale tanto a pena em *Alice no País das Maravilhas* quanto em *Alice Através do Espelho* — que eu encontrei lá, basicamente este daqui é o primeiro livro e esta daqui é a continuação — é que o Lewis Carroll, que é um escritor exímio, conseguiu criar um segmento da literatura que é o *nonsense*, que é basicamente a literatura sem sentido, digamos assim. Existem muitas obras, principalmente quando a gente está falando de romances de formação ou obras mais adultas, em que existe (ou existia, pelo menos naquela época, hoje em dia não existe tanto) a noção de que tudo precisava ter um sentido na história. O Lewis Carroll tem uma história que sim, tem sentido, mas o sentido dela é muito mais subjetivo; ele não está tanto na congruência ou na coerência estrita em si. A história acompanha a Alice, que vai embarcar no primeiro livro, pelo menos, num mundo completamente novo em que as leis da física não se aplicam, basicamente, porque ora ela está muito grande, ora ela está muito pequena, sabe? E ela encontra criaturas fantásticas ao longo do livro.
Isso também se repete em *Através do Espelho*. O Lewis Carroll cria uma lógica própria, digamos assim; é uma lógica bizarra, mas que faz sentido para dentro daquela narrativa. Consequentemente, isso gerou interesse por parte dos leitores, e ele acabou fazendo a continuação. E, como consequência natural disso, o que eu acho muito interessante da prosa do Lewis Carroll é que, diferente por exemplo de — deixa eu até pegar aqui na minha estante — *O Mágico de Oz*, em que a narrativa é de fato voltada pura e simplesmente para as crianças e a personagem principal que acaba indo para o mundo de Oz é muito infantil em todos os aspectos (e ela é cândida, ou seja, mais inocente), a Alice representa aquele arquétipo de criança levada, sabe? Aquela criança que, se acha que tem alguma coisa errada, vai falar; ela não tem aquela coisa de escrúpulos na voz. Ela fala o que pensa, e a Alice representa isso.
Essa teimosia ao longo da narrativa é divertida, porque é um livro extremamente engraçado. Aqui, por exemplo, tem alguns momentos ilustrados que a gente pode ver da narrativa; quem fez essas ilustrações foi o John Tenniel, e as ilustrações dele são excelentes. Nesse caso aqui, é um livro para colorir que tem todas as ilustrações que ele fizera para a narrativa, tanto de *Alice no País das Maravilhas* quanto de *Alice Através do Espelho*. Então, é muito interessante ver essa dinâmica da Alice enquanto personagem que é teimosa: às vezes há personagens que falam pura bobagem, ela sabe disso e tem aquela coisa de "não, você é um completo idiota, isso não faz sentido nenhum". É muito engraçado como as outras personagens, que na maior parte das vezes são criaturas fantásticas, congregam esse conflito meio bizarro em que a Alice apresenta uma contrapartida do ponto de vista de quem está habituado ao mundo normal, ao mundo real, e as criaturas fantásticas apresentam uma outra lógica.
Tanto no que diz respeito à construção do mundo (ou seja, como a magia funciona naquele mundo, como determinadas poções, criaturas ou sistemas políticos funcionam), tudo isso acaba se chocando. Essa realidade sendo interpretada por uma criança que é mais levada — qual é a consequência disso, qual é o efeito disso no texto? Cara, é muito engraçado. Os dois livros, especificamente o primeiro mais do que o segundo, são livros extremamente engraçados, de você dar umas gargalhadas boas, sabe? Porque, pelo fato da narrativa não fazer sentido, o autor usa isso a seu favor, criando momentos como, por exemplo, no segundo livro, em que ela basicamente atravessa o espelho da sala de estar e conhece uma realidade completamente diferente.
Nisso, a gente consegue ver claramente as consequências do autor se soltando mais. Se no primeiro livro ele tinha jogado os elementos de uma maneira mais segura, apesar de ser bastante estranho, no segundo ele é muito mais solto. A gente vê diversos momentos em que a Alice está interagindo com o mundo e as consequências dos eventos acontecem antes mesmo de presenciá-las. Como assim? Por exemplo, tem um momento lá em que ela vai distribuir um bolo numa contenda, num duelo entre um leão e um unicórnio — olha só que doideira! A lógica disso é que primeiro eles comem e depois ela corta a fatia, e ela não conseguía entender isso, sabe? Porque a gente está acompanhando essa perspectiva louca do cenário e como ele se adapta ao lúdico, àquela coisa onírica.
Nos dois livros acontece aquela famosa história que termina com "no final era tudo um sonho", mas aqui o autor sabe fazer isso de maneira competente; não fica aquela sensação de insatisfação pela história que ocorreu, pelo contrário. Uma coisa que me chamou muita atenção no segundo livro é a demonstração de habilidade em trabalhar com a lógica, visto que o Lewis Carroll era um matemático, então ele gostava muito de acrescentar esses problemas nas narrativas. O que é muito interessante é que isso demonstra como a lógica existe, mas funciona de maneira diferente nos livros dele. No segundo livro, *Através do Espelho*, tudo é baseado em um tabuleiro de xadrez: existe um problema lógico que precisa ser resolvido entre as peças brancas e vermelhas, e todo o livro é estruturado com base nessas jogadas de xadrez. É muito interessante, muito criativo. Claro que a história em si não precisa fazer sentido literal, mas existe uma lógica por trás, e é isso que torna a narrativa tão interessante.
Eu acho que esses livros são divertidíssimos para crianças e ajudam a criar o hábito de leitura, mas eles funcionam muito bem para os adultos. Por exemplo, em *O Mágico de Oz* — apesar de eu ter amado também —, é claramente uma história infantil do início ao fim, com pouquíssimos questionamentos filosóficos, ou quando há, são muito sutis. Já em *Alice no País das Maravilhas*, a gente consegue ver isso de maneira clara a todo momento, só que não é tratado de uma maneira elucubrada, garbosa ou poética. Mesmo o tema sendo filosófico, a gente ainda entende esses questionamentos do ponto de vista da Alice, que é uma criancinha levada, que gosta de bagunça e de brincar, mas que também pode ser muito gentil com as outras criaturas.
É muito legal porque a gente vê diversos formatos sendo trabalhados: tem diversas poesias, e a maneira como elas ajudam a criar sentido. Às vezes os poemas são tão malucos que isso acaba se tornando parte da história. Tudo isso deixa esses livros com aquela sensação de clássicos que permanecem interessantes até os dias de hoje. Eu acho que, se você já presenciou de alguma forma a história da Alice através de filmes, animações ou jogos, vale muito a pena experimentar o material original. Embora haja as ilustrações excelentes do John Tenniel, a literatura trabalha ainda mais com esse senso lúdico, porque você depende da ação das palavras, daquela imagética que o leitor, especialmente o mais jovem, tende a gostar, indo às vezes até ao bizarro.
Ao longo do tempo, vimos muitos autores fazerem releituras disruptivas de Alice, como versões de terror ou versões mais adultas. Eu gosto muito dos jogos da Alice, mais especificamente *Alice: Madness Returns* — se não me engano, foi lançado para Xbox 360 e PlayStation 3 na época. Ele tinha uma interpretação mais adulta, porque, como tudo é onírico e subjetivo, você pode traçar paralelos sobre vícios, dilemas morais, identidade e diversas outras coisas. Um leitor mais jovem vai perceber isso de maneira mais lúdica, mas, lendo como adulto, você consegue captar mais essas nuances. É por isso que eu acho que vale super a pena experimentarem esse clássico se tiverem oportunidade, não somente por ter um preço extremamente acessível (ou por estar em domínio público, caso você leia uma versão gratuita traduzida ou original), mas porque ele tem uma prosa tão diferente dos clássicos habituais que se mantém moderna até hoje.
Se você gosta de fantasia, essa fantasia clássica, *Alice* certamente é um dos grandes da nossa literatura, da literatura mundial, e vale muito a pena ler independentemente da época. E agora eu gostaria de saber de vocês: o que vocês acham dessa narrativa? O que vocês mais gostam? Alice tem um tema específico, um personagem específico? Há diversos personagens que os leitores amam. Eu gostei de todos, mas o Chapeleiro para mim é um dos mais legais, e gosto muito da interpretação que o Johnny Depp fez na adaptação do Tim Burton para os cinemas. Mas me digam o o que vocês acham. Eu vou deixar esta resenha como um compilado dos dois livros em um vídeo só, porque o próximo vai ser de Lovecraft. Fiquem de olho aí no canal e eu vejo vocês no próximo vídeo. Até mais!