O conto "Ele", escrito por H.P. Lovecraft em agosto de 1925 e publicado em setembro de 1926, é uma obra experimental que reflete tanto a criatividade quanto os preconceitos sociais e políticos do autor. A narrativa acompanha um jovem poeta que se muda para Nova York em busca de uma vida melhor, mas acaba dominado pelo isolamento, pela nostalgia e pela aversão aos imigrantes que transformavam a metrópole.
O protagonista é um poeta que se mudou para Nova York em busca de uma vida melhor, mas que nutre um profundo receio de fracassar e ter de retornar à Nova Inglaterra para encarar sua família. Movido pelo orgulho, ele insiste em permanecer na cidade, dedicando-se a explorar a arquitetura antiga durante as madrugadas para escapar da presença da população que ele enxerga como invasora. É nesse contexto de insônia e solidão que ele acaba encontrando um senhor idoso e misterioso, cuja identidade nunca é explicitamente revelada, mas que compartilha de sua visão pessimista sobre a decadência da sociedade moderna e o fascínio pelo passado.
Após observá-lo por várias noites, o velho convida o protagonista para conhecer sua residência, uma mansão localizada em um bairro desconhecido. Ao entrarem, o jovem nota algo perturbador: todos os retratos de família pendurados nas paredes exibem feições incrivelmente semelhantes às do próprio anfitrião. Vestido com roupas antiquadas, o velho revela o motivo do convite e passa a contar uma história de seus antepassados. Segundo ele, nos primórdios da ocupação daquela região, os colonos enfrentavam conflitos com os indígenas locais, chamados por ele de "peles vermelhas", que invadiam a propriedade para realizar rituais misteriosos.
Movido pela curiosidade mórbida e pelo desejo de entender o significado daquelas práticas, o patriarca da família fez um acordo com os nativos, permitindo-lhes livre acesso às terras em troca do conhecimento sobre os rituais. No entanto, após obter o que queria, o antepassado traiu os indígenas, oferecendo-lhes vinho envenenado. O velho dono da casa explica então que, através de uma fumaça especial, é possível transcender o véu da realidade e acessar conhecimentos remotos e universais.
Nesse momento, o anfitrião abre as janelas, faz gestos enigmáticos e o ambiente ao redor começa a se transformar: os vagalumes, o quintal e as estrelas adotam padrões diferentes, e o tempo parece retroceder. O protagonista experimenta um horror sublime, misturado à admiração pelo que chama de necromancia. O mago passa a evocar cidades ancestrais e criaturas monstruosas típicas do universo lovecraftiano que cercam a mística cidade de Ilek-Vad. O clímax ocorre quando o poeta, tomado pelo pânico, grita de horror. Esse grito atrai a percepção das próprias entidades cósmicas e, aparentemente, dos espíritos vingativos dos indígenas traídos no passado, que invadem a propriedade.
O velho senhor enfurece-se com o protagonista, culpando-o por arruinar tudo e atrair a vingança daquelas forças. O conto sugere que o anfitrião conseguiu estender sua vida por séculos justamente por meio desses segredos e rituais arcanos, exibindo traços quase vampirescos em sua adoração pelo passado. Enquanto a mansão começa a desmoronar, o jovem tenta escapar pelas janelas e ornamentos medievais do muro, ferindo-se gravemente, mas conseguindo ouvir a destruição total da casa antes de perder a consciência. Ele é posteriormente encontrado por moradores locais, com as pernas quebradas e ensanguentado, decidindo abandonar Nova York para sempre, marcado por um trauma indelével.
"Ele" destaca-se na obra de Lovecraft por mostrar que a magia e os horrores cósmicos não são necessariamente forças cegas, mas podem ser dominados por seres humanos capazes de corromper a si mesmos em troca de poder e permanência temporal. O anfitrião não é um vilão convencional para o protagonista, mas sim o herdeiro de uma maldade geracional que acaba por tragá-los. O conto reforça a visão pessimista característica do autor, na qual a busca obsessiva por refúgio no passado acaba por revelar o mais absoluto e aterrorizante vazio.