Nesta análise do conto "O Horror em Red Hook", o criador do canal examina a obra de H.P. Lovecraft sob uma perspectiva crítica, destacando tanto os méritos narrativos quanto os pesados traços de xenofobia que marcam a história.
E aí, pessoal do universo Antares, sejam bem-vindos a mais um vídeo aqui no canal, bem-vindos de volta à nossa playlist onde eu analiso todos os contos do H.P. Lovecraft em uma ordem de apreço pessoal. No vídeo de hoje, vamos dar continuidade a essa playlist com o conto "O Horror em Red Hook". Eu tô dando continuidade à nossa leitura através desta edição dos contos do H.P. Lovecraft — neste volume está presente também "A Cor que Caiu do Céu" —, e essa edição é da Pandorga, pelo selo Cronos deles. O conto em específico que vou comentar é "O Horror em Red Hook", escrito em agosto de 1925 e publicado em setembro de 1926. É mais um conto do Lovecraft que eu não lembrava direito de ter lido, sabe? Eu li, mas não lembrava os acontecimentos de maneira detalhada ao longo da narrativa. Foi muito interessante reler este conto, porque temos aqui de novo a presença do H.P. Lovecraft colocando suas ideologias xenofóbicas nos personagens. Ele faz isso de modo que os próprios personagens acabam sendo racistas, mas muito disso é fruto do seu próprio racismo e da sua própria xenofobia. Não dá para fazer um paralelo se você analisar os contos de modo unilateral, achando que o autor de fato era apenas aquilo; mas, se você pegar todos e começar a traçar paralelos — e já vimos alguns contos aqui que têm esse cunho mais racial —, isso pode incomodar alguns leitores, principalmente se você faz parte de um grupo minoritário. Por exemplo, eu tenho traços de descendência árabe, e o autor retrata muito isso de modo pejorativo, assim como faz com judeus, asiáticos, latinos, enfim.
Neste conto, isso fica bem evidente. "O Horror em Red Hook" vai tratar de um bairro novaiorquino em que mistérios levam o detetive Malone — um detetive dessa cidade — a descobrir horrores inomináveis. O que eu acho maneiro do conto é que ele é dividido em sete partes, e começa pelo fim: já vemos Malone bem abalado emocionalmente, tendo um acesso de pânico quando vê um prédio que se assemelha a uma igrejinha, e nós não sabemos o porquê disso. Os próprios moradores acabam se compadecendo, porque ele se sente envergonhado por ficar nesse estágio de fragilidade mental. Os especialistas em psicoterapia, os psiquiatras, recomendaram que ele fizesse uma cura geográfica para tratar essa fobia. Mas, quando vamos acompanhar a jornada dele enquanto detetive, descobrimos que não é algo relacionado apenas à saúde mental dele, mas que tem um embasamento no horror e no mistério sobrenatural.
A história se dá início com os relatos de diversos imigrantes que vão parar em Red Hook, e o autor retrata todos eles de modo pejorativo. É até um pouco cansativo para quem está lendo; acho que foi um dos poucos contos do Lovecraft que achei um pouco mais cansativo, sinceramente. Ele retrata continuamente os traços dessas pessoas — sejam negras, asiáticas, enfim, qualquer traço estrangeiro —, o que acaba quebrando um pouco o ritmo da narrativa. Temos esse estado emergente de constantes imigrações e, ao mesmo tempo, fazemos um paralelo com um senhor chamado Robert Suydam. Ele faz parte de uma geração mais antiga de Red Hook que, segundo o próprio protagonista — que também não tem nome e vai narrando os acontecimentos conforme os compila —, pertencia a uma Nova York mais "pura". Esse senhor Suydam era muito ligado ao ocultismo e gostava de estudar o folclore com a premissa de descobrir as origens do povo local e também as origens europeias da cidade.
À medida que esse mistério vai se entrelaçando com a figura desse senhor — que acaba participando dessa "ralé" da cidade —, ele cria uma reputação arredia perante os cidadãos de bem. O próprio Malone começa a investigar esses mistérios, já apresentando uma aversão a esse povo que representa majoritariamente os imigrantes, e consegue criar operações para tentar investigar se há uma relação direta entre eles. Eventualmente, o Suydam acaba participando de processos criminais e audiências, mas consegue de uma maneira ou de outra correlacionar o que está acontecendo, principalmente quando o desaparecimento de crianças começa a assolar a cidade. As crianças começam a desaparecer da mesma maneira que Suydam — que quase nunca era visto em sua residência e apresentava um ar decadente e polútro — reaparece na sociedade mais elitista de forma elegante. As pessoas, ao mesmo tempo em que esse mistério do desaparecimento de crianças avança, voltam a vê-lo na sociedade aristocrática, ainda mais rico e virtuoso.
De qualquer forma, ele acaba sendo novamente correlacionado a esses cultos, e a relação entre o desaparecimento das crianças e a chegada de novos imigrantes — além do fato de Suydam convidar vários deles para propriedades suas — chama a atenção. Malone participa de outras operações e acaba ficando um pouco afastado desses mistérios, porém, no casamento desse senhor Suydam com uma jovem, o pior acontece: durante a lua de mel, eles são brutalmente assassinados. Na verdade, são encontrados estrangulados em seu camarote no navio. As pessoas que os encontraram relatam que, no momento em que descobriram os cadáveres, viram e ouviram um riso jocoso saindo da escotilha do navio, sendo simplesmente impossível que alguém pudesse ter aparecido ali. Fica claro para o médico legista presente que não foi algo passional, ou seja, não foi um crime entre o marido e a mulher. Isso dá ainda mais terror à situação, algo que é elevado quando um grupo de mestiços chega ao navio com uma carta do próprio Suydam na qual ele prevê a própria morte. Na verdade, ele diz que, se porventura for morto de alguma forma inexplicável, o corpo deveria ser entregue àquele grupo. O médico e o capitão do navio ficam receosos, mas, como era a vontade do morto, acabam respeitando o pedido.
Enquanto isso, Malone está investigando as propriedades de Suydam e, à medida que se embrenha na mansão, encontra compartimentos secretos e acaba sendo arrastado para um complexo cavernoso subterrâneo que parece ligar diversas propriedades, unindo tanto a área nobre quanto a área pobre do bairro de Red Hook. É aí que temos o horror. O terceiro ato se inicia com Malone presenciando tudo o que você pode imaginar de pior na mitologia, não só a lovecraftiana, mas em mitos religiosos conhecidos. Eles se personificam ali naquele complexo, e o personagem fica em um estado meio ebrioso — o que causa o abalo emocional que vimos no início —, mas ainda assim consegue ver uma criatura que se assemelha a um sapo indo em direção a um ídolo entalhado em puro ouro. Outras criaturas grotescas da mitologia lovecraftiana recebem o corpo de Robert Suydam, e então se inicia uma procissão de adoração e uma tentativa de ressuscitá-lo.
Claro que, como estamos em um bom conto lovecraftiano, dá tudo errado: o ídolo em cima de um trono é submerso ao ser derrubado em uma lagoa pútrida, o cadáver de Suydam é completamente desmantelado, e um terremoto tem início. O personagem principal, Malone, é encontrado muito tempo depois, desacordado. Ele descobre que a mansão e todas as outras propriedades relacionadas a Suydam desmoronaram; segundo os especialistas, por motivos estruturais da idade dos prédios, mas nós, leitores, sabemos que a causa vai muito além disso. Suydam foi um dos únicos a não sobreviver porque estava escondido nesse complexo cavernoso.
O conto termina de uma forma bem xenofóbica. É interessante e ao mesmo tempo incômodo porque o personagem principal sabe que não dá para parar a imigração, mas ele atrela o horror lovecraftiano a esse fenômeno. O conto se inicia com o personagem numa cidade pacata visando apenas se recuperar, mas trazendo aquela carga de que aqueles horrores e mantras estão começando a se espalhar para lá também. E isso é atrelado de modo negativo e pejorativo. O conto como um todo demonstra muito mais as criaturas como algo demoníaco; até então, tínhamos uma pegada mais de ficção científica ou horror cósmico, mas aqui elas são atreladas a algo satânico e blasfemo. Esse tom lovecraftiano é bem mais brutal nesse sentido.
Apesar de ser um conto muito interessante, confesso que ele é um pouco mais cansativo e não está entre os meus favoritos justamente por essa objetificação excessiva do horror através da xenofobia e do racismo. E eu não estou nem puxando o ponto de vista ético da coisa — porque aí fica óbvio que o conto é de baixo nível nesse aspecto —, mas sim do ponto de vista técnico. Quando você, enquanto autor, começa a objetificar demais essas coisas através do seu texto sem criar argumentos fortes, tornando essas preconcepções o próprio argumento da sua trama, a leitura fica cansativa para nós, leitores. É um conto que eu não curti tanto reler, porque acho que o autor é capaz de fazer algo com mais nuance, mas o Lovecraft opta por esse caráter racial na hora de conduzir a narrativa. Do ponto de vista dos personagens protagonistas, até faz sentido, porque são pessoas apavoradas com essa explosão de imigração; mas, de um ponto de vista técnico mais amplo, o conto é muito fraco por se basear somente nisso. Fica muito óbvio o que o autor está tentando atrelar ao horror, tornando os vilões muito caricatos. Isso enfraquece a obra, pois o autor tem contos em que consegue criar vilões literariamente muito mais interessantes.
Ainda assim, continua sendo um conto bom, com uma perspectiva de horror mais brutal e demoníaca. Se vocês gostam dessa pegada mais brutal e blasfema do universo lovecraftiano, digam aí nos comentários o que acharam deste conto, caso já tenham lido. Se não me engano, este é o último conto deste volume, então nos próximos vídeos vou passar para contos que eu gosto muito mais, pois eles tratam o horror lovecraftiano não somente como antagonista, mas como elemento que dá suporte à história. Mas isso fica para o próximo vídeo; espero que tenham gostado e até a próxima análise!